QUEM É QUEM
A imprensa nasceu
safada ou ACM a fez assim?
ACM estrilou quando em março do ano passado a Rede Globo divulgou com grande estardalhaço a famosa entrevista-metralhadora onde Nicéa Pitta disparou contra todo o mundo. Revelou inclusive as pressões do Rei da Bahia para que o ex-marido, o então prefeito de São Paulo Celso Pitta, pagasse logo as faturas da OAS (a empreiteira do genro).
Teria sido a primeira vez que a Rede Globo divulgava sem consulta prévia algo contra o senador. O homem acostumou-se ao longo dos últimos 20 anos com o tratamento VIP oferecido por algumas empresas e alguns profissionais, sobretudo da parte das Organizações Globo.
Dizia-se que era o começo do fim dos privilégios de ACM.
Engano: ACM continuou a ser poupado e protegido da mesma forma como o demonstram a cortina de fumaça escondendo o livro Memórias das Trevas e a preferência dos principais colunistas do Globo pela malhação em cima Jader Barbalho esquecendo todos os pecados de ACM.
A confissão pública de Regina Célia Borges incriminanando ACM (e o senador José Roberto Arruda) na violação do sigilo do painel de votação do Senado vai entrar para a história do jornalismo pátrio. Simplesmente porque a partir daquele momento ACM perdeu a imunidade jornalística que tanto o ajudou e passou a ser tratado como um comum mortal.
E, nestas circunstâncias – sem privilégios, cobertura e foros especiais – a onipotência do senador baiano converteu-se em insolência. Contra aquela mesma imprensa que tantos serviços lhe prestou ao longo de tanto tempo.
Na última semana as relações especiais ACM-mídia foram desvendas em duas manifestações:
Na reveladora entrevista à colunista Dora Kramer (Jornal do Brasil, quarta, 25/4, 1ª e 3ª pgs.), ao referir-se à estratégia que adotaria perante a Comissão de Ética, o senador escancarou suas conexões com a mídia: "Tudo vai depender da imprensa, a quem ando pedindo um crédito de confiança até o meu depoimento".
E, dias depois, quando o antigo "crédito de confiança" já não poderia ser mantido e todas as manchetes o colocavam na linha de cassação junto com o colega Arruda, ACM perdeu as estribeiras e soltou as bestas até então contidas na alma. Declarou ele à repórter Andréa Michael, da Folha de S.Paulo (sábado, 28/4, 1ª e 5ª pgs.): "A mídia é safada. Não traduziu a verdade. Jogou os senadores contra mim" [veja Aspas abaixo].
Ao referir-se abertamente ao "crédito de confiança", o grande manipulador da opinião pública admitiu sua parte no jogo sujo de ludibriar a boa-fé da sociedade brasileira. Imprensa independente não dá credito (muito menos crédito de confiança) a ninguém. Isso é para bancos ou partidos políticos. Com a revelação, ACM obrigou os velhos cúmplices a romperem imediatamente os pactos anteriores – como ficou patente nos jornais e telejornais dos últimos dias.
A resposta de ACM foi imediata: xingou a imprensa de "safada". Vamos ver como a mídia reage (ou se tem hombridade para ensaiar alguma reação) à ofensa tão generalizada e pesada. Nem mesmo Collor de Melo manifestou-se de forma tão insultuosa e cafajeste.
Se os jornais não reagirem institucionalmente sob a forma de editoriais comprovarão que têm o rabo preso nas gavetas do senador. Restará examinar como se comportam os colunistas, cuja opinião hoje oblitera a dos próprios veículos (casos do Globo e da Folha).
O dream team de opinionistas montado em torno do Globo (com as naturais ramificações em Época, mas também na Folha e no Estado de S.Paulo) tem mantido um deliberado e suspeitíssimo silêncio desde o fim de janeiro a tudo que se relaciona com ACM. Com incrível malabarismo têm conseguido manter-se longe da fogueira e do debate.
Esta semana será decisiva para saber se a imprensa brasileira é mesmo safada. Ou se ficou safada de tanto sujeitar-se às jogadas de ACM. [Em 29/04/01]
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