02/09/2003

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MATÉRIAS PAGAS
A sinceridade parananese e
o presente de Deus

Luiz Antonio Magalhães

O jornalista Fernando Rodrigues revelou, em reportagem publicada nesta terça-feira (2/09) na Folha de S. Paulo, os valores e os documentos de um negócio que muita gente no meio jornalístico sabe que existe, mas não tem como provar: o desembolso, por parte de órgãos governamentais e políticos, para que jornais e revistas — especialmente os pequenos veículos do interior do País — publiquem "matérias pagas" de interesse específico.

Rodrigues obteve documentos que mostram a prática da compra e venda de matérias durante a gestão de Jayme Lerner (PFL) frente ao governo do Estado do Paraná. O negócio era feito às claras, com notas fiscais e envolvendo até grandes agências de publicidade. Embora condenado pela Associação Nacional dos Jornais, a prática não é ilegal: a "reportagem" encomendada recebe o mesmo tratamento na Lei que os demais anúncios.

O jornalista da Folha teve o cuidado de procurar todos os veículos citados e obteve resposta de representantes de 67 dos 76. Está neste material a grande descoberta de Rodrigues. Em primeiro lugar, apenas um veículo — a revista IstoÉ Dinheiro, negou ter comercializado seus espaços editoriais com o governo Lerner. Se isto fosse pouco, a sinceridade das respostas dos responsáveis pelos pequenos jornais do interior do Paraná oferece material suficiente para quilos de teses sobre as relações entre mídia e Poder no Brasil.

O quadro que emerge é lamentável e aponta para uma situação mais primitiva do que se pode imaginar. O diretor-superintendente do Jornal do Estado, de Curitiba, explica que "sempre foi assim, inclusive em governos passados. (...) Por uma questão cultural, existe isso realmente. Como era um processo de todos, nós também seguimos. Não foi uma coisa criada por nós". A sinceridade continua: "matéria paga é mais cara. Está previsto na tabela em torno de 30%."

Se a situação é esta no Jornal do Estado, que é um grande veículo, o leitor pode imaginar o que se dá entre os pequenos. O editor da coluna de César Setti, reproduzida em diversos jornais, explica que a chegada de Requião ao governo não foi muito boa para a o colunista: "O César até o fim do ano passado fazia (matérias pagas). Hoje ele não faz mais. Ele era muito atrelado ao governo Jayme Lerner". Pedro Washington, outro colunista reproduzido nos pequenos jornais paranaenses, é ainda mais explícito:

"Folha - Como funcionava o pagamento das suas colunas?
Washington - É publicidade de matéria de interesse do governo na coluna.
Folha - Como assim? São assuntos que você divulga na coluna...
Washington - ...Que interessam ao governo.
Folha - Entendi...
Washington - Aqui no Paraná sempre foi muito comum isso. Você tem uma coluna valorizada e é como se fosse um ‘merchandising’ que hoje se faz na televisão.
Folha - Não seria mais apropriado colocar um anúncio sobre a coluna em vez de escrever um texto com o ‘merchandising’como é hoje?
Washington - Não."

Em geral, os valores negociados podem ser considerados baixos. Há veículos que receberam menos de R$ 5.000 pela inserção das "reportagens". O maior valor, de R$ 753 mil, foi para o Diário do Estado, seguindo dos R$ 742 mil recebidos pelo Jornal do Estado. Os dois também conseguiram um número maior de "contratos" do que os pequenos veículos. Os jornais em que o montante obtido do governo Lerner foi menor, porém, são aqueles em que a dose de sinceridade é reveladora não apenas de uma prática condenável e aética, mas da carência completa dos órgãos de imprensa do interior. Diz a proprietária do Correio de Iguaçu, que circula em Dois Vizinhos, respondendo se há diferença de preço entre anúncios e matérias pagas: "Depende do que se trata, de quem é. Tem casos que matérias são tão boas que muitas vezes, mesmo que não pague, a gente usa elas (sic). E tem umas que tem que cobrar, né? Muitas vezes, vou te dizer, muitas vezes a gente cobre tudo, e, depois que saiu como notícia, muitas vezes a gente vai lá e [fala]: ‘Olha, a gente está cobrindo sempre as matérias de vocês, tudo, e nós precisamos de uma ajuda do governo. Não tem anúncio, não tem nada, e a gente está cobrindo’. E aí muitas vezes eles dão (...) Como a gente faz um trabalho muito forte, algumas vezes o governo dá para nós, pagam para nós uma... um anúncio, até para dar uma ajuda para o jornal. Então eles pedem: ‘Olha, fatura umas matérias então aí, manda para nós’. Porque para esses jornais nossos do interior o governo faz muito pouco, quase nada, não gasta conosco. Muitas vezes é até através do prefeito. Aí o prefeito vai lá e reivindica para a gente. Aí tem de sair uma nota."

Se tudo isso não fosse o bastante, há um depoimento ainda mais estarrecedor, da proprietária do jornal Paraná Shimbum, de Londrina, de periodicidade semanal e 7 mil exemplares de tiragem. Ao explicar como recebeu e aceitou o pedido para publicar uma reportagem paga do governo Lerner, a dona do jornal foi clara: "A gente nunca teve. Essa vez é que foi... Acho que um presente de Deus."


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