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Febem, a infernal
cobertura do inferno

Sempre aos sábados: a rebelião na Febem-Imigrantes começou às 14 horas de 23 de outubro, na ala B. Às 15 horas o movimento alastrou-se; 300 policiais cercam o prédio. Às 17 horas, um menor é torturado barbaramente diante da polícia e dos parentes e depois solto. Uma hora depois a rebelião parece controlada.

Balanço da cobertura no domingo: Jornalões paulistanos deram chamada discreta na primeira página (edição final, para assinantes). Folha publica boa matéria na pág. 1-17 do primeiro caderno. Estado de S.Paulo dá informação pequena num obscuro caderno onde se misturam Esporte e Cidade. Jornais do Rio que chegaram a São Paulo evidentemente estavam por fora (não poderiam advinhar: começaram a rodar as edições ditas "nacionais" antes do meio-dia). Ninguém mencionou o motivo da rebelião: a ameaça de greve dos monitores e a sua substituição pela PM.

Continuação no domingo: O clima mantém-se tenso na Febem-Imigrantes. Visitas suspensas. Às 21h30, da mesma ala B parcialmente destruída na véspera, os menores invadem as alas A e C. Onze monitores são feitos reféns. Duas horas depois, os internos anunciam que dominaram a Febem. A a Tropa de Choque da PM começa a atirar com balas de borracha. Às 2h30 de segunda-feira os internos jogam para fora os cadáveres de dois menores mutilados. Negociação.

Balanço da cobertura na segunda-feira: Os jornalões paulistas continuam subdimensionando os acontecimentos. A Folha boiou completamente – não deu chamada na primeira página nem matéria alguma em página interna (edição final, para assinantes). O Estadão deu matéria de 17 linhas mencionando no título a fuga de 300 menores (que não houve). Nada mais nas páginas internas.

Continuação na segunda-feira: Às 6h50, menores exibem no telhado monitores presos ameaçados por facas. Colchões incendiados. Às 8 horas começa a transferência. No fim tarde, a rebelião foi dominada. A ameaça de greve dos monitores só é suspensa na madrugada de terça.

Balanço da cobertura na terça-feira: Manchete de primeira página do Estadão: "Quatro morrem na pior rebelião da Febem". Na chamada menciona-se que a rebelião começou no sábado. O balanço de feridos também começa no sábado. Portanto não havia razão para o descaso nas edições de domingo e de segunda. Manchete da Folha: "Maior rebelião mata 4 na Febem". Para justificar a omissão da véspera (onde não havia uma linha sobre o motim) mas contrariando a matéria de domingo, a Folha reescreve a realidade e lança a versão "oficial": o motim durou 18 horas (da noite de domingo até a tarde de segunda). Errado: durou no mínimo 32 horas. E quem o disse foi um repórter da própria Folha, na reportagem da página 2 que abria o seu caderno especial (a capa é uma espécie de resumão): "O desfecho de dois dias de rebelião na Febem Imigrantes é o mais trágico já vivido pela Fundação". Folha dixit.

  • Isso passou-se no mesmo município onde estão sediados os jornalões paulistanos.
  • Isso comprova um relaxamento não apenas nas edições de domingo mas também nas das segundas-feiras.
  • Esse é um balanço duplamente trágico – vivemos no inferno e os jornais não sabem.

 

O papel do traço,
o traço no papel

A Charge do Ano; repensando a Primeira Página

Os marqueteiros tiraram dos jornais e dos jornalistas sua capacidade de inovar. O mimetismo fez o resto: tornou cada um de nossos diários prisioneiro dos demais.

Anotem, crianças, inovação nada tem a ver com sensacionalismo. É justamente o contrário: a criatividade na apresentação da informação impede as distorções decorrentes da dramatização do seu conteúdo.

Isto posto, cabe perguntar aos estatísticos de O Globo – qual a primeira página mais comentada nos últimos onze meses? Este Observador oferece a sua convicção: foi a da quarta-feira, 20/10/99, onde a habitual caricatura de Chico Caruso foi ampliada magistralmente para quatro colunas, expulsando outras fotos ou ilustrações. O país parou para rir com aquele pôster (inclusive os protagonistas) e isso não acontecia há muito tempo [veja "O rancor como piada", no Entre Aspas desta edição do O.I.].

O chargista fez exatamente o que faz todos os dias: colocar no papel o seu olhar crítico e satírico sobre a realidade. Mas o editor de plantão fez o que não se faz há muito tempo – ousar, inovar, romper o espírito burocrático e a rotina. É claro que para isso muito contribuiu a hilariante situação retratada, o genial traço do chargista e, sobretudo, o inesperado tema. Com índices recordes de rejeição, FHC é, naturalmente, o assunto preferencial dos cartunistas. Com isso nossas charges e principalmente o chargismo carioca – sem favor o melhor do país – ficaram monocórdios e chatos. E o segredo da caricatura ou do desenho satírico é o inesperado, a inesgotável crítica dos costumes, o universal repertório de fraquezas humanas. Isso valia tanto para o francês Daumier como para o português Bordallo Pinheiro (que também viveu no Brasil), para Kalixto, J. Carlos, Nássara, Lan e Millôr Fernandes. A charge de Ziraldo que até hoje faz rir é aquela da Jane agarrada ao que está dentro da tanga de Tarzan. O que não invalida seu repertório de espetaculares tiradas contra a ditadura.

A Charge do Ano, de Chico Caruso, desvenda por outro lado a precariedade do infografismo e do slogan navarrista que o sustenta: um infográfico vale por mil palavras. Léria, patranha, falácia, bobagem. Os "consultores" (nacionais e internacionais) inventam essas asneiras para vender programas e equipamento informático aos empresários desnorteados.

O infográfico é acessório complementar, ferramenta para esclarecer aspectos técnicos da informação. Vale no máximo um parágrafo e, mesmo assim, para redatores preguiçosos.

A charge, caricatura, cartoon ou cartum, ela sim é a síntese de idéias, emoções, indignações, prazer e alívio. Vale por um jornal inteiro. Dificilmente será desenhada por um computador ou programável com auxílio de um software. O que não impede a ajuda tecnológica na sua reprodução, transmissão, re-elaboração e multiplicação para efeitos de animação.

A charge de Chico Caruso ainda pode ser suplantada por outra até o final do ano. Mas serviu para rediscutir o traço no processo cada vez mais mecanizado de fazer jornal. Lembra o caráter insubstituível do papel. Traz de volta a velha mística da criação na rotina de fechamento de uma edição. Re-introdução alegre do debate sobre o jornalismo humanista.

Aos interessados recomenda-se o recém-publicado compêndio Caricatura, (Editora Artes e Ofícios, Porto Alegre, 1999, encadernado, 289 pp. fartamente ilustrado, prefácio de Paulo Caruso) de autoria do artista-jornalista-professor Joaquim Fonseca.

 

Veja vingativa

É uma das cinco maiores revistas semanais do mundo. Algumas de suas atitudes e tiradas ficariam muito bem na Voz de Pinheiros, Tribuna da Marginal ou Zangão dos Jardins. Caso da ferroada, paroquial e mesquinha, no cineasta Cacá Diegues publicada na edição de 3/11/99 (pág. 175). Pura represália, de baixíssimo nível, à entrevista do diretor ao Jornal do Brasil reclamando, entre outras coisas, da postura provinciana do semanário da Abril.

Não faz jus aos padrões vigentes na maior editora de revistas do país. Muito menos ao esforço, visível a olho nu, para requalificar a publicação.

Recaída feia.

 

Rio sem reportagem de polícia

A tentativa de assalto ocorreu em pleno expediente bancário. Numa rua quase central do Rio. O episódio (com a tomada de um refém, negociação com a polícia e captura do assaltante) durou cerca de uma hora. Mesmo assim os dois jornalões cariocas não conseguiram fotografá-lo. O Globo publicou na primeira página o sensacional flagrante de uma repórter-fotográfica da Folha mas ofereceu uma boa história [veja "Dossiê Rolha", no Imprensa em Questão desta edição]. O Jornal do Brasil nem isso – nem foto nem história (pelo menos na edição nacional que circula em São Paulo). O Estadão também deu o caso muito bem, com boa foto da capa da própria equipe.

Alguma coisa está acontecendo ao jornalismo carioca e não é coisa boa. Já comentamos um episódio acontecido no centro do Rio em que os cariocas foram furados pela imprensa paulista.

A reportagem fotográfica é umas das vantagens competitivas da mídia impressa. Foto funciona no papel. Internet dá flashes, oferece bancos de dados, pesquisa, mas não conta histórias. Foto funciona no papel. Num país onde a polícia é caso de polícia, o jornalismo policial precisa ser urgentemente resgatado. E a fotografia tão aquinhoada pelos avanços tecnológicos não pode ser desprezada.

Lembrem-se de Letizia Battaglia, a grande repórter-fotográfica italiana, que com a sua diligência, seu espírito público e sua câmera ajudou a desbaratar a máfia siciliana.

Ex-capital federal, ex-coração jornalístico do país, com os seus vespertinos e a sua vibrante imprensa popular, o Rio merece um jornalismo de rua à altura de suas tradições. O problema não é empresarial. Mas de brio profissional.

A história de Letizia Palermo está magistralmente contada na New York Review of Books, edição de 15 Julho de 1999, pp.49-52. Disponível na internet em <www.nybooks.com>

 

Dia dos mortos
e dos muito vivos

 

Luiz Egypto

Vai longe o tempo em que as emissoras de rádio embalavam o Dia de Finados com músicas fúnebres e cantos gregorianos, secundados por sessões ininterruptas da Vida de Cristo ou produções assemelhadas, nos cinemas. Era uma jornada soturna, sinistra: apavorante para as crianças e para os adultos oportunidade da indefectível visita anual aos cemitérios.

No México não é assim, mas esta é uma outra história. Se lá a festa continua, malgrado os novos tempos, aqui a festa apenas começou, exatamente por conta desses tempos novos. A Rede Globo que o diga.

Sentindo nos calcanhares o crescimento dos índices de audiência da concorrência, embora ainda hegemônica na TV aberta a Globo resolveu temperar com maiores doses de pragmatismo o seu inegável talento de conquistar públicos. Armou um megashow – quero dizer, megamissa – em São Paulo, no Dia de Finados, e prepara-se para incluir em seu cast, sob generoso contrato, o fenômeno canoro-saltitante que vem transformando em realidade os sonhos de popularização do movimento Renovação Carismática, da Igreja Católica.

O padre Marcelo Rossi é um produto da mídia, não obstante a profunda fé que intimamente deve professar. Um produto sui generis, note-se; pois se da mídia é fruto, dela depende para alimentar sua vocação de pop star ao mesmo tempo em que a ela oferece generosas contrapartidas na atração e fidelização de audiências. Um círculo de alimentação contínua, um moto-perpétuo alavancador de atenções ampliadas, de produções de sucesso, de difusão de uma certa fé católica e de... negócios.

As 600 mil pessoas reunidas em torno do Santuário do Terço Bizantino, no bairro de Santo Amaro, na capital paulista – "uma das regiões mais violentas de São Paulo", como anotou o Jornal Nacional do mesmo dia 2 – significa um fato jornalístico relevante. É certo que anabolizado pelas presenças de Roberto Carlos, Chitãozinho e Xororó, Sandy e Júnior, Sérgio Reis, Agnaldo Rayol, além de Padre Marcelo. Resistir, quem há de?

Entre 8h e 11h20, a transmissão ao vivo da produção global intitulada "Eu creio na vida" atingiu picos de 32 pontos no Ibope, ou pouco mais de 2,5 milhões de pessoas sintonizadas na emissora. Um êxito.

À noite, o Jornal Nacional dedicou praticamente todo o primeiro bloco à cobertura do, digamos assim, evento, quando ofereceu um exemplo acabado do melhor jornalismo-espetáculo – infotainment, como preferem os moderninhos. Imagens aéreas e closes emocionados e "emocionantes"; plasticidade nas tomadas e um tom narrativo sempre confortador na informação distribuída ao público – "menos de 200 pessoas foram atendidas pelo serviço médico", a aglomeração e o desconforto justificavam o "sacrifício pelo prazer de participar" da oração coletiva. Nenhuma palavra sobre os riscos latentes naquela aglomeração, que de tão evidentes provocaram a antecipação em 40 minutos do encerramento do, vá lá, ato religioso. "Por favor, não venha mais para cá. Tem muita gente e você não vai conseguir chegar perto. Veja pela TV, também é ao vivo", advertia o padre Marcelo, por volta das 10h30, conforme apurou a Folha de S.Paulo [3/11/99]. Os grifos são propositais, claro. E no JN, tome padre Marcelo, rei Roberto, padre Marcelo, o bispo, padre Marcelo, o público, dupla sertaneja, padre Marcelo... Poderia ser de outra forma? Não? Valha-nos Deus!!



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