|
ASPAS
Alberto Dines
"Mosca azul, casulo e borboleta", copyright Jornal do Brasil, 2/12/00
"Não tem sido inspirador o espetáculo político nacional, mais para teatro de revista do que para teatro grego. Faltam narradores capazes de estimular enredos empolgantes, não há encenadores dispostos a acender emoções da platéia e o próprio palco - enorme, desguarnecido, com holofotes que tornam tudo opaco e falso - ajuda a criar a sensação de mesmice e vazio. Carência maior está no elenco: imperam canastrões. Estamos ruins de atores, players (como se diz nas refinadas rodas do poder).
Na atual temporada, vedete é a mosca azul. Operosa, onipresente, infalível e incansável, domina um espetáculo fadado a alongar-se pelos próximos dois anos. Imperceptível (a não ser com binóculos), faz dos outros marionetes. Decepcionante sob o ponto de vista dramático, porque de uma protagonista esperam-se visibilidade e presença. O resultado equivale a uma pantomima sem gestos ou monólogo sem palavras. E como só entra em intrigas pífias, caracteres rastejantes e desfechos previsíveis, a mosca azul vai se tornando símbolo de uma dramaturgia medíocre, nada edificante.
O tedioso clima de intermezzo foi sacudido na tarde de quinta-feira por uma explosão de afeto e emoção como há muito tempo não se via neste Brasil engessado pelo ceticismo e pela frieza.
Pela ordem de entrada em cena: um político estóico, lutando contra pertinaz doença mas pleno de vitalidade, um casulo com a respectiva borboleta, uma narradora anônima, ousada porém despretensiosa, e uma pequena platéia não muito diferente do coro grego que se comove e se envolve na própria trama a que assiste.
O governador Mário Covas, convalescendo no Incor de São Paulo da segunda batalha contra o câncer, para evitar boatos e especulações que dominaram o noticiário a seu respeito nos últimos dias, resolveu inesperadamente visitar a sala de imprensa do hospital e conversar com os jornalistas. Mostrar-se àqueles que mostram o que acontece. Covas só surpreende quem não o conhece: santista, sangue espanhol, manso e, ao mesmo tempo, imprevisível. Racional e religioso, engenheiro e engenhoso. Sua coragem não é física, é moral. O que faz dele um devoto e um bravo.
Ao lado da mulher, D. Lila, e da equipe médica, Covas leu para os jornalistas uma carta que no hospital recebeu de uma eleitora, carioca, que acompanhava o marido lá internado.
Pequena fábula, inspirada e delicada, sobre alguém muito bem intencionado que resolveu ajudar uma borboleta a esgueirar-se do casulo. E, sem dar-se conta das implicações da despropositada intervenção, abriu mais o casulo recém-rompido. E fez nascer uma borboleta, murcha e fraca, incapaz de superar os desafios e provações que a vida arma para testar, fortalecer e animar todos os seres.
Chorou o narrador enquanto lia. Choraram os médicos treinados para não chorar, choraram os jornalistas instruídos para não intervir e não chorar. Choraram os ouvintes e telespectadores dessa suave e - por que não? - sublime catarse na sala de imprensa do Incor.
Covas, o durão, teimoso, rigoroso, áspero, sofrido, transbordando de ternura fez a Paulicéia desvairada e apressada parar. Para enxugar as lágrimas.
Espantada com a novidade, a mosca azul foi pousar em outro lugar."
Volta ao índice
Circo da Notícia – próximo texto
Circo da Notícia – texto anterior

|
|