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Alberto Dines
EMBARGOS, BOICOTES,
PESSOAS
NÃO-GRATAS & AUTOFAGIA
Lista roxa – de despeito
O jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, acaba
de receber o Prêmio Maria Moors Cabot deste ano, o mais importante
do hemisfério (o Pulitzer destina-se apenas ao jornalismo
americano).
A Folha festejou devidamente o prêmio, pois, embora
pessoal, estende-se também ao veículo [veja remissão
abaixo]. Não se trata de concurso de reportagens destes
que os departamentos de marketing organizam para promover as respectivas
empresas. É um laurel sério, que existe desde 1939,
e, como o Pulitzer, é concedido pela Escola de Jornalismo
da Universidade de Columbia, Nova York, uma das prestigiosas do
mundo e a melhor dos EUA.
Então por que nenhum jornal ou revista noticiou a premiação
de Rossi? Não é um feito do jornalismo brasileiro?
Não valoriza uma instituição que, neste momento,
passa por tantos apuros?
Puro despeito. Rivalidade paroquial, descortesia, incivilidade.
O Partido da Mídia, embora dominado pelo espírito
de horda, é movido pela autofagia. E não perdoa o
sucesso alheio.
Este Observatório já comentou o traço
perverso, injusto e – por que não? – desonesto da nossa imprensa
quando Mino Carta recebeu uma consagração em Roma.
Passou em brancas nuvens mesmo em alguns veículos onde o
jornalista trabalhou [veja remissão abaixo para nota de
5/11/97].
No caso do último Maria Moors Cabot, o procedimento tacanho
e generalizado fica mais evidente porque nos seus 62 anos de existência
o prêmio já foi concedido a 20 brasileiros, representando
os nossos mais importantes veículos, alguns deles já
fora de circulação, outros brilhando nas bancas. Quando
receberam a consagração certamente a badalaram mas
quando o Outro é o vencedor, as batatas.
Leia também
Listas
negras ainda estão ativadas – A.D. [rolar
a página]
Aspas
– Clóvis Rossi premiado
Lista negra – do rancor
O escritor Lima Barreto permaneceu durante algumas décadas
na lista dos nomes impublicáveis do Correio da Manhã.
O Estado de S.Paulo só designava Ademar de Barros,
como A. de Barros. A lista das não-pessoas, das não-entidades
e dos nomes vetados que não podem aparecer é uma das
nódoas da imprensa brasileira. E continua sendo praticada
com o mesmo ranço de hostilidade dos tempos dos pasquins.
A última vítima deste ressentimento
é o nosso primeiro jornalista, o próprio Patrono da
Imprensa Brasileira, Hipólito da Costa. Justamente
no momento em que é duplamente homenageado, 193 anos depois
de "inventar" a imprensa brasileira.
A primeira cortina de silêncio em torno de Hipólito
tem a ver com este Observatório da Imprensa, que,
junto com o Labjor da Unicamp são os responsáveis
pela parte editorial da edição fac-similar do Correio
Braziliense (29 volumes mais dois complementares).
Como represália ao trabalho de crítica
da mídia desenvolvido pelo Observatório, suas
atividades e realizações (ou de seus responsáveis)
não podem ser noticiaoas; devem ficar no limbo da desconhecimento
público. Exceto o Jornal do Brasil e o atual
Correio Braziliense (diário do Distrito Federal, co-patrocinador
do projeto), os demais jornalões e revistões do país
fizeram questão de ignorar e minimizar este feito editorial:
o lançamento de uma esmerada coleção de 31
volumes, com tiragem de 3.500 exemplares a serem distribuídos
gratuitamente a bibliotecas e universidades de todo o país,
não chega a constituir algo tão desprezível
que mereça as cinco linhas escondidas que os mais generosos
dentre os mais rancorosos ofereceram ao projeto.
Pitoresco foi o comportamento de Valor (repetindo aliás
a técnica adotada quando fingiu
que não escondia o livro Memória das Trevas, uma
devassa na vida de ACM, de José Carlos Teixeira Gomes.
Agora, como Pilatos, Valor lava as mãos: publicou
matéria sobre Hipólito da Costa e o seu Correio
Braziliense mas o título, subtitúlo e referência
bibliográfica relacionam-se com outra
obra! A menção à reedição
organizada por este Observatório está escondida
– mereceu o mesmo espaço de um pequeno ensaio publicado num
manual acadêmico sem informações originais.
Valor tenta disfarçar que não adota a lista
negra mas só fez ressaltar a persistência da tradição
inquisitorial. [ Veja-se, a esse respeito,
a cobertura que este Observatório deu à antologia
de textos de Hipólito organizada por Sergio Goes de Paula,
com remissão abaixo.]
O clima de preconceito e ressentimento numa instituição
que não pode ser contaminada pelo preconceito e pelo ressentimento
escancarou-se nas exéquias dos restos mortais de Hipólito
da Costa, no Museu da Imprensa Nacional (Brasília, 4 de julho).
A solenidade foi presidida pelo vice-presidente da República,
homenagem do Estado brasileiro à Imprensa brasileira. E novamente,
com a honrosa exceção do Correio Braziliense,
co-anfitrião, a cerimônia foi inteiramente ignorada
pela grande imprensa.
Desta vez o alvo do desprezo não foi este Observatório,
nem certamente o grupo Associados que edita o CB (cujo presidente
até há pouco era também o presidente da Associação
Nacional de Jornais). O perverso procedimento não está
previsto nos manuais de redação mas é conseqüência
de um código oral, devotamente obedecido: em matéria
de imprensa só devem ser valorizados os eventos "da
Casa". Qualquer "Evento Folha" merece amplo destaque,
assim como o fascículo "Clique e Descomplique",
do Globo, que está completando um mês com matérias
diárias no espaço reservado a notícias.
Hipólito da Costa tratava os adversários com o maior
respeito. O paradigma que deixou aos pósteros não
inclui este voluntarismo nem o espírito de vendeta – entronizados
por alguém que certamente não gosta de Hipólito.
Leia também
O
senhor do tempo – L.E. –
entrevista com Sergio Goes de Paula, autor de Hipólito
de Costa (Editora34)

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