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Alberto Dines


FOLHA, 15/3/2002
Um "clássico" em matéria de isenção

O jornalão fez uma opção estratégica: não é de oposição, nem se identifica com alguma ideologia ou partido de oposição. Quer apenas diferenciar-se do resto da mídia que considera "chapa branca". Aparentemente válido: leitores e anunciantes ainda não suspenderam as assinaturas nem cortaram os contratos.

Mas para aqueles que gostam de ler os jornais "de outro jeito" – o público deste Observatório – vale a pena examinar esta edição exemplar num dia rigorosamente insignificante. Um caso de estudo para os anais do "jornalismo de intervenção" que está sendo inventado nos laboratórios da Folha de S.Paulo.

Primeira página: nada de especial já que a prioridade era internacional.

Página 2, opinião: artigo de José Sarney, apesar de chocho, claramente contra o governo federal.

Página 3, opinião: no alto, violento artigo de Saulo Ramos, ex-ministro de Sarney, contra o ministro da Justiça.

Página 4, noticiário político: no alto, "PFL ameaça Serra com CPI do Grampo e cassação de Fortes"; na parte de baixo, três outras matérias dando seqüência às denúncias de grampo e medidas antigrampo. Nada sobre os fatos da semana – a corrupção no Maranhão.

Página 5, ídem: o presidente na defensiva, "‘País perde com tricas e futricas’". Nenhuma palavra sobre as denúncias contra os Sarney que causaram a crise.

Página 6 e 7, intervalo para a isenção – anúncios.

Página 8, ainda notícias políticas: no alto, manchete em oito colunas, no condicional "Maia diz que PFL apoiaria o PT contra Serra". Evidentemente contra o candidato do governo. No meio da página, nada de anormal, embaixo a merecida homenagem da Academia Francesa ao amigo da casa, José Sarney.

Página 9, mais política: "Fundo rende mais após pesquisa do Ibope", título em oito colunas tentando colocar sob suspeição uma sondagem abertamente patrocinada pelo Bank of America. Nenhuma palavra sobre a pesquisa do DataFolha que chegou aos mesmos resultados. No pé da página, escondido em uma coluna, o único registro em toda a edição sobre a devassa no Maranhão: "Projeto suspeito consumiu R$ 24 milhões".

Página 10, a última antes da seção Internacional, os escândalos de Maluf com título inteiramente amortecido pelo desgaste, "Promotores pedem a quebra de sigilos de Maluf e seu filho". Com títulos mornos como esses, Maluf consegue há mais de 20 anos seu atestado de idoneidade.

A matéria mais quente, mais audaciosa e mais surpreendente sobre os graves perigos que rondam a conjuntura política é assinada por Luís Nassif, um dos mais respeitados colunistas de economia, enfiada sem qualquer destaque no segundo caderno. Corajosa denúncia contra os procedimentos da mídia, inclusive do próprio jornal na manipulação do noticiário político [ clique aqui para ler o artigo de Nassif].

Graças à sua proverbial transparência, a Folha está conseguindo emplacar um novo tipo de jornalismo – o "chapa preta".


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