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ECONOMIA
Economistas erraram feio,
jornalistas mais ainda
NO DOMINGO 24/1/99, a Folha de S.Paulo saiu com um insólito editorial de primeira página anunciando o apocalipse e atrelando-se de corpo e alma à tese do currency board – moratória, dolarização e outras irrelevâncias. Quatro meses depois, no domingo 16/5/99, sob a manchete quase eufórica "Economia mostra recuperação", a rapaziada da Barão de Limeira batucou o seguinte:
"Ao contrário do que previam economistas, o PIB do Brasil não vai cair 6% nem a inflação chegará a 70% ao ano. O país não só escapou do desastre como 1999 pode vir a ser um ano de crescimento econômico. Os analistas erraram feio ao deduzir que a história se repete e que o Brasil enfrentaria uma crise igual à da Rússia..." etc., etc., etc.
Imperioso dar o nome aos bois – quais foram os economistas que erraram? Quais os opinionistas políticos travestidos de entendidos em economia berraram que o fim se aproximava? Qual o jornal que mais valorizou os Dornbush e Krugman da vida com suas exaltadas previsões catastróficas? Todos os economistas e "analistas" erraram ou apenas os eleitos pelo Folhão? Que é feito de Mangabeira Unger, indigitado autor da proposta do currency board?
Antigamente, quando um jornal fingia que esquecia o que escrevera, dava para enganar. Leitor tem memória curta para felicidade dos jornalistas, poucos se animavam a verificar nas bibliotecas o que o jornal tinha dito antes. Agora, com as edições on line e os serviços de busca, fica ligeiramente mais difícil virar a casaca. Verifiquem o que disse a Folha entre 14 de janeiro e o princípio de março. E o que disse naquela edição.
Compostura, senhores. Pode-se brincar com a conjuntura mas não com a tecnologia.
Sucesso rural com
cara de Marlboro
A REVERSÃO DO QUADRO CATASTRÓFICO com uma melhoria do PIB teve duas heroínas: a queda nas importações e a safra agrícola – sobretudo a de grãos, que promete ser recorde.
Os dados do IBGE foram anunciados na quinta-feira (14/5/99) e ganharam manchete dos jornais de sexta, sábado e domingo. E destaque na Veja. Com menos de 24 horas para fazer uma matéria algo mais encorpada do que a dos requentados jornalões do domingão, o semanário sapecou uma capa no melhor estilo Marlboro: rodeio com caubói de chapelão, garrote malhado (ao menos poderia ser um zebu!), laço no ar. E na matéria, o velho "estilo country de jornalismo": louraças tipo Adriana Galisteu, aviões, carrões, duplas caipiras milionárias, o "jeito de ser" rural – jeans justos, botas, fivelas vistosas – e quadros estatísticos. Tudo foto de arquivo, daquelas que de tão usadas vão sozinhas para a gráfica.
Onde estão os pequenos e médios agricultores? E o agribusiness do Norte-Nordeste? E os assentamentos dos agora-com-terra? Não tem mais bóia-fria? E enxada, suor? Onde está a terra, a generosa mãe-natura que não aparece neste asfalto pintado de verde?
Com estas incursões rurais, como medo de encarar a roça, Veja merece outro nome: Óia.
A mídia adorou o
consumismo importado
DURANTE QUATRO ANOS E MEIO, a partir da quase paridade real-dólar, nossos jornalistas viveram a euforia do vinho francês na venda da esquina. Aumentava o desemprego mas a ninguém ocorria lançar uma cruzada nacional para conter a importação dos supérfluos.
Ficou clássica a chamada da primeira página da Folha de S.Paulo no primeiro domingo depois da desvalorização do Real – vinho importado e viagens ao exterior vão ficar mais caros! A doidivanas Maria Antonieta, se jornalista fosse, produziria uma avaliação prospectiva mais grave (ver remissão abaixo).
Agora, quando despencam as importações com a valorização do dólar, jornais e jornalistas contentam-se em registrar os releases do IBGE e outras agências. Mesmo na esfera do vinho francês ninguém deu-se ao trabalho de verificar que, quatro meses depois da mudança cambial, o consumidor continua pagando os mesmos preços. Em outras palavras, importador e distribuidor ganhavam os tubos. Agora, um pouco menos.
E onde é que estão sendo substituídas as importações? Como foi que os grandes supermercados dobraram produtores e atacadistas? Dentro das redações, na base do telefone, é impossível descobrir.
CACCIOLA NA CPI
Investigação furada
só ajuda a malandragem
SALVATORE ALBERTO CACCIOLA deu um baile – nos senadores-inquiridores e na mídia. Aproveitou seus talentos histriônicos e a bateria de holofotes montada na CPI dos Bancos para fazer exatamente tudo o que tinham feito com ele: juntou meias verdades com meias mentiras, rebateu alguns coices, lustrou tudo com o charme ítalo-carioca e devolveu o bumerangue acionado pela mídia a partir das "testemunhas" apresentadas por Veja.
Não nos interessa o caso em si. Interessa aqui apenas a leviandade de acusações infundadas montadas em "fontes" que depois se revelam suspeitas e precárias. Com este tipo de "jornalismo investigativo" qualquer malandro ganha atestado de bons antecedentes. O nome certo seria "jornalismo de canos furados", porque baseado em vazamentos.
Reparem na última edição de Veja (nº 1598): depois de três semanas sem testemunhas-bomba, o semanário volta a atacar com informantes anônimos denunciando uma suposta rede de empresas de Cacciola no Uruguai (págs. 50-51). Pode ser verdade. Mas pode não ser. As denúncias do ex-diretor do Marka que não queria ser identificado só terão valor jornalístico ou legal se a revista tivesse despachado alguém para checá-las em Montevidéu. Mas no Brasil jornalismo investigativo não investiga, recebe dicas e manda bala.
E por que o ex-diretor do Marka não quer ser identificado? Tem culpa no cartório?
A questão das fontes suspeitas e dos vazamentos desacompanhados de investigação deveria preocupar jornalistas e editores responsáveis. A fonte não tem compromissos com a sociedade. A fonte pode estar sendo movida pelas melhores ou piores intenções. Cabe ao veículo jornalístico estabelecer a diferença. Uma denúncia só é válida quando acompanhada de evidências. Ou pelo menos de indícios.
O resto é panfletagem,
Outro dado curioso sobre o circo Cacciola na CPI: as suas críticas à mídia foram publicadas fragmentaria e seletivamente. Cacciola atacou Veja duramente – apenas O Globo publicou o ataque (14/5/99, pág. 24). Cacciola revelou que O Globo e O Dia tinham aplicações no Banco Marka, embora não exista nada de ilegal fazer aplicações no mercado de capitais. O certo seria que veículos responsáveis que costumam falar em nome da mídia publicassem essas críticas na íntegra. É o mínimo que poderiam fazer em respeito aos seus leitores.
Respeito aos leitores é romantismo. O negócio é tascar. E fazer barulho.
Debray, um midiólogo
que briga com a notícia
DEPOIS DE FAZER UMA SÉRIE DE BURRADAS dos dois lados do Atlântico ao longo de 30 anos, o francês Regis Debray, agitador, autor, filósofo e, ultimamente crítico de mídia, pisou na bola novamente: resolveu mostrar que a imprensa européia está errada ao apoiar os bombardeios da Otan e que Milosevic não é o que dele se diz.
Despachou-se para a Sérvia, lá ficou dez dias para mostrar os erros da imprensa européia (não confundir com a CNN e as agências de notícias americanas que comandam o nosso noticiário) e, na edição de 13/5/99 do Le Monde, publicou uma longa carta ao presidente Chirac (tentando repetir Émile Zola) instando-o a mudar sua política com relação à ex-Iugoslávia.
Para ele, Milosevic é um democrata, não fez limpeza étnica e os aviões da Otan destruíram 300 escolas. No mesmo jornal, Debray foi questionado no dia seguinte e acabou reconhecendo que não checou as informações do governo sérvio e que das 300 escolas destruídas só viu três. O Liberation chamou um grupo de profissionais para verificar as acusações de Debray (informações a partir de matéria da Folha de S.Paulo, 16/5/99, pág. 1-24).
Condenar os bombardeios da Otan e a guerra em geral é uma coisa. Ser pacifista hoje não é apenas uma questão moral, é compromisso com a sobrevivência da humanidade. Mas colocar-se a serviço de um ditador e aceitar suas informações é, no mínimo, leviano.
Acontece que Debray não é apenas um militante político. Como qualquer intelectual francês , é cartesiano, racional e "científico". Não contente, resolveu criar uma nova ciência, a "médiologie" (em português seria midialogia) dentro da "Association pour le Développement de la Recherche en Médiologie" que edita Les Cahiers de Médiologie, do qual é diretor e já está na sua sexta edição.
Debray, na realidade, é um "media-critic", um "media-watcher" ou, para quem não entendeu, observador da imprensa ou da mídia. A plumagem pseudo-científica vai por conta da incontrolável tentação pós-moderna para as "imposturas intelectuais" (para usar o título da obra de Alan Sokal e Jean Bricmont, Imposturas Intelectuais, Record, 1999).
Simpatizar com Milosevic é direito seu. É também um indicador da sua antiga inclinação totalitária. Mas observador não se engaja em facções, não toma partido. Sua função, especialmente quando se assume como "cientista" (portanto eqüidistante) é observar o desempenho da mídia – no terreno ou junto dos destinatários. Ao converter-se em cruzado, desqualifica-se como observador.
Vargas Llosa, premiado,
condena o ‘amarelismo’
EL PAÍS É UM DOS MELHORES JORNAIS do ocidente, verdadeira instituição cultural. Uma das iniciativas deste magnífico jornalão em formato tablóide é o "Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo". Agora, na sua 16ª edição, foram concedidos cinco prêmios e o peruano Mario Vargas Llosa ganhou o prêmio máximo por um texto publicado em 8/11/98 naquele jornal e em outros 22 jornais latino-americanos (entre os quais o Estado de S.Paulo) intitulado "Novas Inquisições".
Ao receber o prêmio, declarou Vargas Llosa:
"...[o jornalismo de escândalos] é uma deformação planetária. A informação que busca divertir e entreter na base de recursos escabrosos, de mexer na intimidade e brincar com vidas privadas alimentando a morbidez, pode ter conseqüências trágicas... O amarelismo não se acaba com leis que possam reprimir a liberdade de expressão. Esse é um fenômeno que só se extirpa através de mudanças culturais..."
O amarelismo, citado por Vargas Llosa, origina-se de uma antiga expressão do jargão americano, "yellow press" (imprensa amarela, designação dos tablóides sensacionalistas de Nova York, que no fim do século passado encartavam um suplemento em papel amarelo com as historietas em quadrinhos). No Brasil "imprensa amarela" foi convertida em "imprensa marrom" em 1960, no Diário da Noite (Rio), num pitoresco episódio do qual participei junto com o jornalista Calazans Fernandes, já contado em diversas ocasiões.
Amarelismo ou marronsismo, não importa: o quadro só se reverte quando o jornalismo voltar a ser atividade intelectual.

A mídia também flutua... junto com o dólar
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