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ASPAS
Otavio Frias Filho

"Gladiador", copyright Folha de S. Paulo, 17/8/00

"‘No Limite’ já seria uma ocorrência –catastrófica ou transfiguradora– na televisão brasileira, às vésperas de seus 50 anos, pelo debate que suscitou. O programa faz parte de uma rede de similares que se espalhou pela TV no mundo todo. Como lembrou Ricardo Valladares, na revista Veja, faz parte também de toda uma mentalidade que vai dominando o entretenimento.

Que mentalidade é essa? Ela ressoa o diagnóstico de Guy Debord, que previu em 1968, num livro célebre, a conversão da vida em formas de espetáculo. A fronteira entre ficção e realidade caiu. Telejornais usam simulações e dramatizações; programas como ‘No Limite’ ou as ‘pegadinhas’, uma praga internacional, usam recortes da vida real como se fossem ficção.

Para sacudir o sonambulismo da indústria cultural, que se repete ao infinito, é preciso doses crescentes de ‘realidade’ e choque. Essa ânsia chega ao paroxismo numa época narciso–voyeurística como a nossa, em que o desejo de olhar pela fechadura de uma revista Caras qualquer se junta ao desprezo pelo anonimato, à volúpia dos famosos 15 minutos de outro profeta dos anos 60.

Tal situação virou alegoria no filme ‘The Truman Show’ (1998), em que um homem nasce, cresce e vive numa vila pré–fabricada onde cada minuto de seu dia é televisionado para o mundo todo, sendo ele o único que não sabe disso. Foi usada em ‘A Bruxa de Blair’ (‘The Blair Witch Project’, 1999), um documentário ficcional apresentado como verídico. E há Trumans ‘reais’ que se exibem 24 horas por dia na Internet.

Uma sociedade assim força os indivíduos a se diferenciar, a afirmar sua autenticidade (essa é a ideologia da mídia publicitária), mas apenas nas aparências. Pois as medidas da performance bem–sucedida se estreitam num figurino cada vez mais padronizado, que é o mesmo para países, empresas e pessoas. Diversificação padronizada é um palavrão que nos definiria bem.

Mas seria um erro, talvez, ver tanta novidade na novidade. Os idealizadores de ‘Survivor’ (Sobrevivente), matriz de ‘No Limite’, nada acrescentaram a uma antiga invenção romana, o circo dos gladiadores. Retiraram, até, os aspectos mais cruentos, capazes de ferir nossa sensibilidade moderna. Mas ambas as diversões se nutrem do mesmo sentimento, o sadismo latente em todas as audiências.

O aspecto moral que incomoda em ‘No Limite’ não é só esse. É o quanto existe de real na desesperada luta pelo prêmio que caberá ao sobrevivente –o mais apto, o mais esperto, o menos leal, o ‘político’ mais matreiro. E o quanto sua luta de todos contra todos funciona, sem querer, como metáfora da receita de vida que governantes e sábios prescrevem hoje para toda a humanidade.

Claro que a ‘vida real’ sempre teve esse conteúdo de guerra de todos contra todos, mas poucas vezes o modelo foi apresentado de forma tão asséptica, como algo dado e natural, divertido, até. Dá o que pensar sobre que tipo de adultos serão as atuais crianças: mais egoístas ou menos hipócritas? Bem antes disso ficará claro se esses programas vieram para ficar.

Embora a tendência que eles encarnam pareça irreversível, até a ‘realidade’, por mais fervilhante, cansa. Mesmo produzida, falta–lhe trama, fantasia, acabamento. É possível que os gladiadores da TV não passem de modismo e que o respeitável público venha a concordar, sem saber, com Oscar Wilde, para quem a vida não imita a arte, ela procura imitar Shakespeare da melhor forma que puder."


Armando Antenore

"O negro (no limite) e o branco (sem limite)", copyright Folha de S. Paulo, 13/8/00

"Fez–se justiça, afinal. Marcus, o vilão de ‘No Limite’, rapazola bem–nascido que cultiva sotaque carioca dos mais caricatos, está fora da disputa. Falastrão, chamou de crioulo um parceiro de equipe, o negro Amendoim, ele também carioca e falastrão, mas de origem humilde, síntese de um Brasil que, sem dinheiro ou colégio, vai se descolando como pode.

Pois Marcus pagou a língua atrevida. Virou alvo de comentários zombeteiros, amealhou 10 mil e tantos votos no site Ovo Neles, sofreu ameaças de processo por racismo e acabou eliminado da competição há uma semana. Cortaram–lhe a cabeça sob as asas da lei –ou melhor, do regulamento que norteia o embate.

Dois grupos de seis pessoas se enfrentam em uma praia do Ceará. Suam, passam fome, improvisam abrigos com folhas de palmeira, atolam nas dunas de areia. A equipe que perde determinadas provas se reúne e dispensa um dos seus integrantes. Amendoim, o singelo, já levara a pior no dia 30. Agora, sobrou para Marcus, o impiedoso.

O Maracanã, lotado (são 43 pontos de audiência), aplaudiu. Gozou a catarse –tanto maior porque:

1) o programa cria situações que lembram tramas novelescas;

2) a edição das imagens tratou de realçar o lado sombrio de Marcus, suas gafes, seus caprichos, suas contradições;

3) o olhar muitas vezes jornalístico das câmeras dá a impressão de que, no vídeo, desfila a pura verdade, o real.

De alma lavadinha, decido, então, autopsiar os cadáveres. E noto, seduzido pelo trocadilho, que Amendoim, 42 anos, casado, quatro filhos, morador da Rocinha, vive de fato no limite. Oscila entre a exclusão social e o universo diminuto dos incluídos. Marcus, 27 anos, garotão de praia, boa–pinta, solteiro, engrossa a nata do Rio. Não sabe o que é exclusão. Tem de tudo, só não tem limites.

Criado pela avó, Amendoim não conheceu o pai e mal pôde contar com a mãe, alcoólatra. Cresceu engraxando sapatos e vendendo, claro, amendoins. Ainda criança, se aproximou de um veterinário que vacinava cães da Rocinha. Um dia, o médico o levou para o Flamengo. O garoto tentou, de início, o futebol. Saiu–se melhor no atletismo.

A carreira esportiva permitiu–lhe estudar e viajar. Chegou a morar na Alemanha, formou–se em letras e hoje ensina inglês. Globalizou–se, mas não deixou a Rocinha. Pôs um pé no mundo e manteve o outro no morro, onde é líder comunitário. Equilibra–se lá e cá.

A Rocinha, curiosamente, também se equilibra. Encontra–se no limite entre a favela e os bairros de classe média. Habitações precárias, tráfico de drogas, um punhado de vielas e 26 valas com esgoto a céu aberto provam que a Rocinha é, sim, uma favela. No entanto, há por ali telefones celulares, computadores, TVs pagas, agências bancárias, videolocadoras e academias de ginástica, como em Ipanema.

Até o vocativo que Marcus empregou contra Amendoim se situa no limite. Crioulo pode soar ofensivo. Mas, igualmente, pode exprimir cordialidade –’ô, meu rei; ô, gente fina; ô, crioulinho’.

Logo no primeiro programa, Amendoim passava protetor solar quando alguém de sua equipe comentou: ‘Olha, ele está ficando branco!’. Estava mesmo. Na Globo, fazendo as vezes de artista, Amendoim tinha a chance de abocanhar R$ 300 mil e se sentir enfim incluído em uma seara que não é a dos crioulos. Só que não agradou. Foi excluído pelos parceiros sob a alegação de que lhe falta iniciativa, de que não consegue escutar os outros.

Por ironia, argumentos semelhantes serviram para suprimir Marcus. Acusaram–no de alheio, de não demonstrar companheirismo. Advogado, o jovem abandonou a profissão há um ano. Tornou–se representante de uma empresa que comercializa equipamentos de fitness. Já morou nos EUA e deseja, agora, cursar a faculdade de educação física. Desde o começo do programa, portou–se como um sem–limite. Dormia enquanto os colegas de equipe davam duro. Criticou a baiana Hilca por estar acima do peso. Insinuou–se para a gaúcha Pipa (‘essa mulher eu pegaria’). E descartou, pouco antes da votação que iria afastá–lo, a possibilidade de o eliminarem: ‘O grupo me adora’.

Expulso do jogo, Amendoim expressou mágoa e complexo. O veto na praia cearense trouxe–lhe de volta a lembrança de outras tantas exclusões. ‘Aprendi que a vida aqui não é diferente da vida na civilização’, explicou no site da Globo. ‘As pessoas reagem da mesma forma. Rejeitaram–me porque sou negro.’

Marcus –que se julgava intocável– arranjou motivo gaiato para o fracasso. ‘O voto que me derrubou foi o da Pipa. Ela, casada, estava com um problema: ‘Ah, a gente aqui; você, um cara bonito...'‘ Narciso achou feio o que não é espelho. Viu na exclusão mais um pretexto para continuar se engrandecendo. ‘Saio de cabeça em pé.’

Mesmo na derrota, o de cima sobe, e o de baixo desce, como bem diz a canção. Fez–se justiça, afinal?"


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