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GLOBO CABO
O tamanho da bagaça
Luiz Egypto
Não obstante as nítidas diferenças editoriais existentes entre as empresas jornalísticas das famílias Marinho e Frias, uma inusitada aproximação entre os grupos Globo e Folha foi consumada em grande estilo, ano passado, com o lançamento do diário Valor Econômico – um investimento de 50 milhões de dólares dividido igualmente entre as partes.
Aquilo que parecia um exemplo categórico de coesão do cartel da mídia começou a fazer água no primeiro semestre de 2001, quando uma bem-sucedida incursão do grupo Globo no mercado paulista de jornais conquistou para seus domínios o Diário Popular, então controlado por Orestes Quércia; e, de quebra, o ótimo título Diário de S.Paulo – para o qual há planos de relançamento em grande estilo, o que significará enfrentamento direto com Folha e Estadão no mais rico mercado editorial do país.
Mais uma, para fechar o nariz-de-cera: no contrato de constituição do Valor está previsto que um dos sócios pode execer opção de compra da outra parte – e o chamado "mercado" dá como certo que, no devido tempo, as Organizações Globo farão valer seu poderio econômico para controlar integralmente o jornal.
Diga-se, pois, que, em nome da concorrência, o idílio entre os dois conglomerados de mídia tem seu fim escrito nas estrelas. E um exemplo lateral (e não por isso menos eloqüente) das diferenças entre ambos pôde ser colhido na impressionante divergência de enfoque entre as matérias da Folha e do Valor [quinta-feira, 16/8] sobre o balanço financeiro semestral da Globo Cabo, companhia controlada pelos Marinho e que provê infra-estrutura para TV paga e acesso à internet [veja Aspas nesta rubrica].
A começar pelos títulos: "Globo Cabo tem prejuízo de R$ 389 milhões", na Folha e "Globo Cabo prevê chegada ao lucro", no Valor. E a continuar pelas aberturas dos textos:
Folha – "O balanço financeiro da Globo Cabo, divulgado ontem, mostrou um prejuízo acumulado de R$ 389,3 milhões no semestre. O desaquecimento da economia atingiu em cheio a empresa, que começou o ano na expectativa de repetir a taxa de crescimento de assinantes de 12% exibida no ano passado e agora já admite fechar 2001 com o mesmo número de assinantes do ano passado (1,4 milhão) ou até menor."
Valor – "Com a operação na qual a Globo Cabo incorpora a Globotel, acionista que concentra os ágios pagos pela empresa desde a sua criação, em 1994, a companhia de cabos alivia sua contabilidade. Com o negócio, ela garante que, já no próximo trimestre, seu patrimônio líquido passe a positivo em cerca de R$ 318,2 milhões. Entre abril e junho, ela acumulou um patrimônio negativo de R$ 133,84 milhões."
O fato – que a Folha chamou no título e Valor escondeu no quarto parágrafo da matéria – é o tamanho do prejuízo da companhia no primeiro semestre deste ano: 389 milhões de reais. Ou algo como 155 milhões de dólares em perdas, o que é muito dinheiro em qualquer lugar do mundo.
A Folha foi ao ponto. Valor dourou a pílula.

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