Cinco lições de patologia

Alberto Dines



Primeira Lição: Collor e Requião - perigos da hipnose

Antes que funcionassem os filtros ideológicos, quando Fernando Collor de Mello apareceu como o caçador de marajás, a reação espontânea dos jornalistas foi de encantamento e submissão. Independente do sexo, deixaram-se eletrizar pelo charme e veemência que se irradiava daquele másculo missionário desconhecido. Só que Collor não era propriamente um desconhecido - já tinha um currículo de desmandos que aquela submissão coletiva só viria a agravar. Ninguém deu-se ao trabalho de lembrar.

Não foram três dias ou três semanas. Durante três meses (um quarto de ano), Roberto Requião executou, impunemente, o mesmo solo de narcisismo e truculência diante de uma imprensa estupefacta e siderada. Até que um jornal - o que faz um jornalismo mais esmerado - lembrou-se de olhar a sua vida pregressa. Apareceu então um repertório de prevaricações não muito diferentes daquelas que Requião investiga. E, em seguida, quando a imprensa foi cobrada pela imperdoável omissão, raros foram os veículos que se moveram. Consideraram impertinência (deste OBSERVATÓRIO) interromper a confortável sessão hipnótica.

O mago Requião continuou seu número peripatético como se fosse ele o Zorro da façanha - e não os poderes acionados pela sociedade e o Estado. O
Roda-Viva de 17/3 (TV Cultura) foi exemplo vivo desta passividade de um grupo de jornalistas de escol, a maioria em posição de chefia, bem pagos e protegidos. O relator, arengador provinciano e indigente, mesmo assim conseguiu obliterar a capacidade de questionar daqueles cujo contrato com a sociedade inclui, pelo menos, a cláusula de manter sua individualidade e independência.

Uma imprensa desnorteada e esbaforida que corre como louca atrás de qualquer acusação por mais leviana que seja e se agacha extasiada diante dos caudilhos que a alimentam com migalhas de informações "exclusivas" acaba por conduzir a sociedade, senão ao desastre, mas ao desgaste e impotência.


Segunda Lição: cuidado com os pools - do Sindicato da Mentira ao Sindicato das Denúncias

Nos anos 50, quando o Rio ainda era capital e fervilhava com disputas e crises artificiais, alguns políticos inconformados com a uniformidade da cobertura parlamentar da grande imprensa (inclusive a paulista), apelidaram o pool de comentaristas de Sindicato da Mentira. Uma avaliação mais extensa daquela situação mereceria uma pesquisa acadêmica ou uma reportagem (dá no mesmo) já que alguns dos personagens ainda militam na imprensa e na política.

A remissão vale para registrar que ali gestava-se uma técnica jornalística que, quarenta anos depois, viria a consagrar-se como gênero - o factóide, pseudo-facto que, pela repetição e falta de contestação, substitui-se à realidade.

Hoje, em Brasília, onde não existe uma imprensa verdadeiramente federal, a cobertura gera-se em sucursais sob controle remoto. E como a matriz avalia a eficácia de uma equipe pelos resultados quantitativos, passam a valer os destaques e o número de matérias que esta consegue enfiar em cada edição. Já não conta a qualidade, densidade e a fidedignidade da notícia.

A amizade e o corporativismo fazem o resto: ninguém é "furado", checam-se as pautas, intercambiam-se informações, o coro resulta sem dissonâncias. Alguns profissionais e protagonistas esperneiam, não adianta: a máquina é imbatível.

Neste ambiente gremial - antijornalístico e antidemocrático - movimentam-se impunemente algumas raposas políticas. E, quando surge uma situação relevante - como a CPI dos Precatórios - nem é preciso ser raposa, o sistema aceita qualquer fornecedor - mesmo suspeito. E se tem dotes histriônicos para satisfazer a porção circo que hoje avulta numa função que antes era um serviço público, a coisa termina no Efeito Requião: um político irresponsável, apropriando-se de um formidável acervo de informações que não lhe pertencem para usá-las espetaculosamente em benefício próprio.

Não é todo dia que um jornalista brasiliense escreve o que Fernando Rodrigues constatou na sua coluna comentando as declarações que Requião lhe fizera horas antes sobre a sua candidatura ao governo do Paraná: "...[Agora] vai ser difícil saber se quem fala é o relator da CPI ou o candidato ao governo paranaense.." (Folha, p. 2, 28/3.)

No dia seguinte, Sábado de Aleluia, todos os quatro jornalões (a Gazeta Mercantil só sai nos dias úteis) reconheceram que foram manipulados pelo relator, que lhes passou uma informação falsa sobre as ligações do ex-prefeito Paulo Maluf com o Banco Vetor. "Chegamos enfim a Paulo Maluf!" trombeteara dias antes o boquirroto. Lá nas cercanias de Bagdá, Maluf protestou. Ninguém pediu desculpas aos leitores pela carga de desinformação. Muito menos à vítima. Vale tudo numa CPI conduzida por Requião tendo Espiridião Amin e Vilson Kleinubing como sicários e onde o que importa é a lama no ventilador.

Requião jogou a culpa na fonte (o banqueiro Fábio Nahoum), eximindo-se da grave responsabilidade de não discernir quem é confiável e o que pode ou não pode ser divulgado como definitivo.

Este Observador tem todos os motivos para desconfiar do ex-prefeito Maluf mas, no caso, foi vítima, no mínimo, de uma precipitação irresponsável e, no máximo, de uma difamação.


Terceira Lição: lembrem-se da Republica do Galeão

Não se chamava CPI mas IPM, Inquérito Policial-Militar. Aconteceu há 43 anos quando na pacata Rua Toneleros, em Copacabana, pretendendo silenciar o jornalista e deputado Carlos Lacerda, mataram seu acompanhante, o Major da FAB Rubem Vaz.

Na Base Aérea do Galeão, feudo da Aeronáutica, força visceralmente antigetulista, montou-se um IPM autônomo para descobrir assassinos e mandantes. O objetivo político era derrubar o presidente Vargas. Em apenas 20 dias o IPM conseguiu tudo: descobriu que a ação fora tramada nos porões do Palácio do Catete por membros da sua entourage pessoal.

O IPM foi alcunhado de República pela soma de poderes que articulou, pelo atropelo de todos os procedimentos legais, pela submissão da imprensa, incapaz de chamar a atenção para os exageros que praticava e pelo estado emocional da sociedade, açulada para o justiçamento imediato.

Em nenhum momento das investigações surgiu a mais insignificante prova que incriminasse Vargas. Mas todos os jornais, rádios e a nascente televisão (de Assis Chateaubriand), com exceção da Última Hora, de Samuel Wainer, queriam o linchamento político do Presidente. Que se matou com um tiro no peito, no mais trágico episódio da nossa história política onde a imprensa (e não apenas os editorialistas) teve enorme parcela de cumplicidade.

IPM ou CPI - qualquer que seja a designação do processo para a investigação dos fatos -, este instrumento jamais pode se sobrepor aos trâmites e rituais democráticos, sob pena de converter-se em ação contra a democracia e os direitos humanos.

Situada na Câmara Alta, o Senado da República, instância superior da representação popular, uma CPI tem compromissos com a própria respeitabilidade do regime, não pode funcionar como câmara de tortura, Auto da Fé, patíbulo, paredón, campo de concentração, lager.

Neste sentido, a advertência de D. Paulo Evaristo Arns é um brado de alerta contra os desmandos cometidos por Requião e seus comparsas senadores, cujo passado invalida as respectivas máscaras de probidade e cuja participação na aprovação de algumas emissões irregulares dos papéis públicos deveria estar sendo examinada pela CPI.

Como já o dissemos (Pittagate II, na rede desde a zero hora de 20/3), a paranóia dos justiçamentos sumários que se apossou daqueles que empurram a CPI para a marginalidade jurídica só vai servir aos futuros réus para invalidar as atuais acusações.

Por isso O Globo sapecou esta manchete no domingo da Páscoa (30/3): "Falhas na CPI dificultarão punição dos responsáveis". E complementa: "Ao transformarem testemunhas em réus do processo, não deixarem os advogados de defesa se manifestarem e permitirem a busca e apreensão de documentos sem mandados judiciais, os senadores estão correndo sério risco. As provas obtidas pela CPI com estes métodos podem ser desqualificadas quando o processo chegar aos tribunais." A matéria tem a chancela de alguns ministros do STF.

Num restaurante da Capital, em entrevista à colunista Dora Kramer do JB (22/3), Requião assume as seguintes violações dos códigos:

*... Ladrão tem que ser chamado de ladrão. Ou você queria que eu carregasse no colo aquela gente que desviou milhões...?

*... Se amolecermos com esses picaretas, a sociedade vai dizer que estamos querendo protegê-los...

Requião está sendo julgado neste momento por acusações muito semelhantes às que emprega contra os depoentes na CPI. A diferença é que a ação contra Requião corre num tribunal superior enquanto os envolvidos numa comissão de inquérito estão, no máximo, na condição de suspeitos.

Ninguém chamará Requião de ladrão ou picareta antes que o tribunal emita a sentença confirmadora da instância anterior. Nenhum magistrado ou parlamentar brasileiro diria que é preciso empregar o "pau- de-arara" - no sentido figurado - para quebrar as posturas cínicas dos depoentes, testemunhas ou mesmo suspeitos dos casos que julga.

Elio Gaspari contribuiu decisivamente para descreditar os métodos do relator com a sua matéria "Senador Requião, a conta é da Magda" (Folha e O Globo, 30/3), na qual o jornalista desvenda a leviandade do relator da CPI. Endossou uma informação precária oriunda do Banco Central convertendo-a em prova condenatória contra o banqueiro Fábio Nahoum (uma conta bancária no exterior atribuída a Nahoum é da sua irmã, Magda, que vive no México).

Até o momento em que encerramos esta edição, o relator Requião não escoiceou o poderoso jornalista nem acusou-o de estar a serviço dos suspeitos embora este tenha sido um daqueles que, por precipitação, menosprezaram as primeiras denúncias do escândalo.


Quarta Lição: Viva as Diferenças - suspeito não é culpado

Apesar dos programas de treinamento dentro das redações para ensinar aos jornalistas a utilização das terminologia adequada (sobretudo na área legal), erros graves nesta matéria continuam sendo cometidos diariamente. Prova de que o problema não está na ignorância vocabular mas no sistema de "jornalismo de resultados", espetaculoso e sensacionalista, implantado pelas empresas nas redações.

O rastreamento das ligações dos telefones dos suspeitos no caso dos precatórios oferece um exemplo destas anomalias. Se um bandido ligou para a sua casa, amigo, você pode ser imediatamente classificado como seu cúmplice, a vigorar a lógica imperante na CPI e cercanias. Mesmo que você não tenha atendido à chamada. No caso das repartições públicas, onde as linhas telefônicas são constantemente trocadas, a constatação de uma ou mais ligações converte-se em prova.

Aqui o modismo irrefreado dos infográficos (introduzido pelos "consultores" de Navarra para substituir as insubstituíveis explicações verbais) tem provocado verdadeiras aberrações. Apenas um exemplo: quando divulgou-se que o dono da corretora Boa Safra, Fausto Solano, havia ligado para o telefone do secretário particular da Presidência, para o Cerimonial do Palácio do Planalto e para o Itamaraty, o Jornal do Brasil (26/3) produziu um infográfico - muito pobrinho por sinal - intitulado Ligações Perigosas, onde, pela via visual, sem a menor comprovação jurídica, estabeleceu uma vinculação entre as ligações do Banco Vetor (para Celso Pitta e Wagner Ramos) com os telefonemas da Boa Safra para os altos escalões do executivo.

Já não vale o escrito, vale o desenho tosco, estamos em plena Era Paleolítica.

As capas das revistas semanais (onde a necessidade de dramatizar os fatos torna-as veículos de gigantescos e simplificados infográficos), também contribuem para o clima de pré-juízos e linchamentos que se origina do Circo do Requião. A capa de Veja (edição 1488) vai tornar-se clássica: um pedaço do rosto de Celso Pitta (inconfundível) com o enorme título - O SUSPEITO encimando três acusações:

* Gastando mais do que ganha
* Os favores dos Bancos
* Investigado pela Receita.

As três acusações são, até o momento, infundadas. Um homem público assim incriminado formalmente não é suspeito, é réu. E, no entanto, ainda não conseguiu ser chamado para depor.

Se continuar valendo o clima de terror onde as aparências equivalem a sentenças, o inquiridor Requião pode ser considerado como cúmplice de Wagner Ramos. A prova está na foto de primeira página da Folha onde o relator da CPI dá carona em seu carro ao único réu confesso desta história, Wagner Ramos. Onde já se viu um juiz conviver com um réu? No entanto, a cortesia (ou cumplicidade) passou em brancas nuvens. Neste momento e com estes costumes, Requião pode tudo.


Quinta Lição: vejam O Povo Contra Larry Flynt

Depois, reflitam. Tentem comparar a história deste pervertido editor de revistas escatológicas, convertido erroneamente em ícone da luta para preservar a Primeira Emenda da Constituição dos EUA (que garante a inviolabilidade do princípio da liberdade de expressão) com o seu recente símile na política brasileira: o inquiridor Requião, senador-sub-judice que pretende passar como símbolo da probidade contra a corrupção.

Mesmo considerando que o filme de Milos Forman é uma romantização branqueadora, o espectador medianamente informado sabe discernir que o editor da Hustler é um crápula que nada tem a ver com os princípios que regem o jornalismo, para os quais as sociedades erigem nas respectivas constituições os mecanismos de defesa da liberdade de manifestar-se.

O artigo da Folha reproduzido do New Republic (28/3, p.13 da Ilustrada, é suficiente para desmistificar a atual vitimologia, idolatria transviada daqueles que passam por vítimas. Por tabela, ilumina questões que estão em jogo no caso dos precatórios.

O que falta dizer, sem subterfúgios e eufemismos, é que as boas causas podem ser liminarmente comprometidas pela forma com que são conduzidas mas, sobretudo, pela presença abusiva de figuras que as contraditam e corrompem.

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