Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

OBSERVATÓRIO NA TV

 

OBSERVATÓRIO NA TV

TVE e TV Cultura, terças-feiras, 22h30

Você pode participar ao vivo

DDG: (0800) 216-689
Fax: (021) 221-0566

E-mail: obstv@tvebrasil.com.br

Videoconferência: veja instruções em http://www.tvebrasil.com.br/video.htm

 

Editorial do programa nº 108 – 27/6/2000

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Você sabe com certeza o que é uma coluna. É um pilar, vertical e firme, cuja função é sustentar uma estrutura. Os jornais e revistas também têm colunas e funcionam igualmente como sustentação. São as referências no meio do noticiário picado. No Brasil, ainda hoje, quando se fala em coluna, o leitor bem informado logo lembra da coluna do Castello, que trouxe todos os dias durante 30 anos, na página dois do Jornal do Brasil, a análise da movimentação política nacional. Seu autor Carlos Castello Branco, o Castellinho, completaria 80 anos no último domingo. E para que você telespectador tenha uma idéia da importância da coluna do Castello, saiba que hoje a Câmara Federal dedicou-lhe uma sessão especial. Na semana passada foi o Senado da República. Não são muitos os jornalistas que já conseguiram esta unanimidade e essa veneração da parte dos políticos. Este Observatório pretende estabelecer a controvérsia em torno da imprensa mas também está comprometido com a indicação de paradigmas. Grande parte da existência da coluna do Castello desenvolveu-se durante um período conturbado e violento. Foram os anos de chumbo. Mas Castello atravessou-os incólume, sem ferir, sem ferir-se. Porque Castello foi um homem sem ódios. Este é o modelo que precisa ser reavivado.

Mensagens recebidas entre 20/6/2000 e 27/6/2000

Mário Annuza, Rio de Janeiro
Já se disse praticamente tudo a respeito do seqüestrador do ônibus 174. Que ele deveria morrer; que ele já morreu tarde; que ele não deveria nem ter nascido; que era melhor se nunca tivesse existido. Ou seja, a sociedade prefere que bandidos como ele sejam um aborto, para que, abortados, não possam ser homens e não possam ser bandidos. Mas a verdade é que pessoas como Sandro do Nascimento acabam vindo ao mundo; acabam escapando de ser aborto, tornam-se fetos e tornam-se homens. E tornam-se bandidos! Por que se tornam bandidos, esses homens que escaparam de ser gente e escaparam de ser aborto? Afinal, nem todo feto é aborto, nem todo aborto é homem, nem todo homem é bandido. A resposta está em nossa sociedade, que estimula a desigualdade e a ganância, a ambição pelo dinheiro e pelo poder! É a sociedade brasileira a verdadeira culpada, a mãe louca e irresponsável, que transforma um feto em aborto e, quando não consegue, transforma esse feto em menino de rua, cheirando cola e praticando assaltos, até que esse feto termine que nem o Sandro terminou: asfixiado, para que a gente respire aliviado, o mesmo ar que no camburão lhe faltou!

Franco Dany, Montes Claros / MG
Olá, sou universitário de Direito, e assisti parte do seu programa ontem (20/06), quando vocês discutiam sobre o papel da imprensa no caso do sequestro do ônibus no Rio de Janeiro ocorrido na semana passada. Realmente é de grande importância que possamos discutir quais as conseqüências da onipresença da imprensa no nosso dia-a-dia. Concordo com a posição de que não se pode deixar de documentar fatos importantes, de fazer coberturas, investigações, denúncias, visto que hoje, mais do que um serviço à população, é uma necessidade, dada a velocidade das transformações que influenciam a nossa vida. O que não podemos deixar de considerar, são os efeitos danosos que atos impensados e até irresponsáveis podem provocar. Efeitos que além de depreciarem, ameaçam a própria segurança do cidadão. Recentemente, acompanhamos um processo pelo qual as empresas de mídia tiveram as distâncias entre si diminuídas. Ou seja, não existe mais uma ou outra rede em grande vantagem sobre outra. Essa aparente igualdade de condições, provoca uma corrida pelo "exclusivo", pelo "furo de reportagem" que muitas vezes acaba ultrapassando os limites da ética e do bom senso. Questiona-se se não seria um mau preparo da polícia que teria o dever de afastar da área próxima os cinegrafistas e repórteres. Evidente que sim. Mas somado a essa carência técnica dos policiais, existe a pressão da mídia que sufoca aquilo que não lhe é pertinente. Isso é claro, a imprensa, principalmente a tv, conta com um enorme potencial de formar opiniões sobre alguém ou alguma coisa. É tão fácil como transformar um ator de novela em herói nacional ou um empresário em inimigo público nº1. Dessa forma, além de pressionados pelo sequestrador, a polícia contava com uma fiscalização da imprensa, que poderia transformá-los em mocinhos heróis, ou até mesmo em bandidos bárbaros semelhantes ao criminoso. E foi o que aconteceu, dado o fim trágico do caso. Não estamos aqui defendendo a corporação policial, pois reconhecemos suas falhas e sua impotência. Só não podemos esquecer da nossa parcela de culpa, quando abastecemos a mídia sensacionalista, aplaudindo o circo que é feito com as calamidades da nossa sociedade.

Atenciosamente

Sylvio Lincoln
Em meu modesto entender, a cobertura do caso ‘174’ pela mídia eletrônica deixou claro e patente 'ao vivo' que já não mais existe o ‘repórter de polícia’. Daí as informações desencontradas, os disparates, os absurdos divulgados, as posturas assumidas (muitas que continuam a ser repetidas). Faltaram conhecimento e competência, como no caso da ‘Escola de Base’ que parece não ter servido de lição. Parabéns ao advogado Marcio Bastos.

Grato pela atenção

Neyre Marinho
Se o Sandro tivesse atirado na refém, mesmo indicando que estava se entregando, hoje a imprensa estaria criticando a policia pela não iniciativa de mata-lo antes; Não o fez temendo exatamente repercussões como essa, pois oportunidades houveram. Por que a mesma imprensa que cobriu a chacina da Candelária, não cobriu também o não apoio ao menor sobrevivente?

René Natsuo Misumi
A TV deve sim ser livre para transmitir fatos como o que ocorreu no RJ. O que acontece é que, com a presença da mídia, todos os envolvidos no fato deveriam sentir-se mais seguros. Ao que me parece, - o que é muito estranho - os policiais são os que mais se sentem incomodados com a presença da imprensa. Parece não quererem testemunhas para seus atos irresponsáveis, afinal, são igualmente vítimas de uma sociedade podre.

Edgar Lira, Recife / PE
Devemos lembrar que no programa do Faustão foi mostrado um policial tomando uma medida imprudente, pulando no indivíduo que ameaçava a refém, mas, que felizmente deu certo e o mesmo foi condecorado pelo ato (conforme foi visto na TV). Porém, quando indagado ao policial, ele concordou que agira de forma errada. Concordo que a tv deva transmitir diretamente.

Silvia Ribeiro, Niterói / RJ
O que mais chamou a minha atenção no caso do ônibus 174 foi o tratamento dado à violência, sempre associando-a à criminalidade. Ou seja, só os bandidos são violentos. As iniciativas para solucionar o problema da violência sempre se voltam só para este aspecto. Na verdade o ser humano é violento. A diferença é que uns a tem em altíssimo grau, outros só matam barata e formiga, outros desejam a morte de outros. Na idade média, muitas pessoas foram mortas pela igreja. Na ditadura militar brasileira, muitos foram mortos e torturados. Em ambos os casos, os mortos não eram criminosos, eram pessoas que se contrapunham a uma "ordem estabelecida". O estado brasileiro e muitas famílias abandonaram seus filhos há muito tempo. O estado brasileiro é violento, basta ver a forma como a polícia age. Acho que precisamos discutir tudo isto com outros olhos, se quisermos mudar esta história.

Marines
Considero equivocada a abordagem do plano de segurança como empurrado pelos fatos apresentados pela imprensa. Muito pelo contrário, esta era uma "morte anunciada" desde os episódios da invasão dos prédios públicos pelo MST. Foi oportunismo conjugado com cinismo do governo federal, que aproveitou o fato sensacional para colocar o plano que já estava em gestação, ou talvez até pronto.

Selmo Gliksman
É desalentador a preocupação do Sr. Dines em saber se o sequestrador estava drogado ou não e deixar como opção de resposta um possível desequilíbrio do Sandro. No Brasil e nos U.S.A é muito comum a classificação precipitada de um criminoso como se o problema estivesse na droga ou num possível desequilíbrio. Perdemos de vista assim a oportunidade de analisar a responsabilidade da sociedade sobre a violência - da sociedade civil e da polícia - já que a violência da polícia tem de certa maneira o aval da sociedade.

Marcelo Senna, Niterói / RJ
Sobre o policial se sentir herói por matar o sequestrador, é bom lembrar que essa idéia de herói é a de um herói que mata, e não de um herói que salva vidas. A polícia considera heroísmo matar? Isso não é uma distorção básica na filosofia da polícia? Que é apoiada por uma cobertura "de direita" da mídia, como disse o advogado presente no programa.

Se um advogado de direitos humanos chegasse ao lugar e propusesse acompanhar o sequestrador não ajudaria a dar confiança a ele para se entregar, e para ser protegido da polícia? Parece-me que o Sandro sabia que ele não podia confiar na polícia, e por isso a situação dele era tão desesperadora. Não é obrigação da polícia trazer um advogado nesse caso?

Antônio Carlos Pacheco
A imprensa agiu corretamente ao cobrir e transmitir ao vivo o fato. O que vem acontecendo agora, com disgressões e análises sobre o ocorrido, deixa a mídia numa posição menos confortável. Vejamos: como poderia esse fato não ter ocorrido? Bastaria que a polícia aplicasse uma tática diversa da usada no episódio. Por que abordar um ônibus cheio de passageiros, com um bandido dentro que só poderia reagir como reagiu? Não teria sido mais correto seguir o ônibus e esperar que o bandido desembarcasse? Procedimentos análogos por parte da polícia são corriqueiros e parece ser esse o treinamento que os policiais recebem: trocar tiros com bandidos em qualquer lugar, independentemente da presença de pessoas nas imediações. A mídia tem errado assim, depois do episódio, pois não tenho lido nem visto editoriais, artigos ou em reportagens, essa abordagem que, a meu ver, é decisiva para diminuir a violência existente na sociedade brasileira.

Paulo Tôrres, Recife / PE
O que acontece é que a mídia cria heróis em tragédias transmitidas ao vivo como: desabamentos (o bombeiro que salvou a criancinha) no dia seguinte ele vai ao encontro da criancinha e chora. Vira herói e tem seu minuto de fama (até nacional). Só que este é o trabalho do bombeiro, como o do jornalista é mostrar os fatos. O coitado do soldado (ou cabo) Marcelo queria ser um herói e receber uma promoção nacional em salvar a professora. Durante alguns minutos ele foi o herói, achavam que ele tinha morto o sequestrador, depois é que souberam que ele foi o vilão. O problema é este. A imprensa não pode transformar heróis para não despertar outros a tornarem a ser. Os soldados e bombeiros estão cumprindo com a obrigação do seu trabalho, eles tem que fazer isso, salvar; sem querer recompensas de herói. O jornalista está fazendo seu papel, retratando a pura realidade brasileira. Todos querem ser um Thiago Lacerda da vida.

Laura Moreira Alves
Boa Noite, gostaria de expressar minha opinião de que não foi de grande valia as imagens ao vivo passadas no incidente do ônibus. A imprensa estar lá filmando era fundamental, mas reprisar ao vivo no período da tarde, onde a programação de quase todas as emissoras é voltada para o público infantil, não foi interessante pois foram cenas muito fortes e abalantes. A notícia devia ter sido reprisada mas a noite em horários próprios para adultos.

Roberto Abdian, Tupã / SP
Há um componente que deve ser levado em consideração na análise desses acontecimentos de violência. A divulgação com excessivo destaque e sensacionalismo suscita explosões de criminalidade potencial, latente.

Surgem os "clones" dos crimes. As imitações. Reportem-se aos recentes crimes ocorridos em outros países e também aqui no Brasil, que logo em seguida começaram a ser imitados. Esse componente que não pode ser deixado de levar em consideração, é a conveniência ou não de se continuar mostrando da forma que se tem mostrado. Os limites da conveniência e da liberdade de imprensa, devem ser definidos e respeitados.

Marcia Lenah de Roque
Srs. Apresentadores,

Creio que é hora de acabar com a hipocrisia e mostrar ao Brasil e ao mundo a nossa real situação em todo seu caos, não só como um programa, como uma obrigação e dever da mídia, mas sobretudo um direito do cidadão .Apontam a violência em todos seus níveis, mas se acovardam em mostrar a violência na sua raiz, ou seja, o imundo e vil exemplo dos parlamentares e governistas! O que os Direitos Humanos tem feito pelas vítimas desta violência pública? Tem pelo menos pago as devidas indenizações a estas famílias como estão pagando às vítimas da ditadura que dizem ter morrido gritando liberdade, enquanto estas vítimas da democracia tem sido exterminadas pedindo clemência?

Neresgton Netto, Rio de Janeiro
Caros amigos,

A imprensa no Brasil faz o papel que a pagam para fazer. Vender sabonetes, ou comida para cachorro nos intervalos da programação, mesmo que a piece de resistence da programação seja uma chacina ou um sequestro. Não vejo o mesmo empenho da imprensa em destacar que a violência no nosso país é na verdade o pagamento que todos fazemos dos juros da dívida social sempre assumida e nunca paga. Com a nobre exceção do Observatório da Imprensa, o que vejo em qualquer noticiário é o replay de ontem: tragédias, tragédias e mais tragédias, gente propondo cada vez mais polícia e cadeias e se esquecem que algumas gerações de brasileiros estão perdidas pelo descaso e pela falta de tudo. A boiada estourou e não há bala nem cadeia o suficiente para impedir que o brasileiro se sinta infeliz pela ausência de esperança.

Aquele abraço

Jhebal, Rio de Janeiro
Será que a imprensa continua vigilante a tudo que se passa no país e no mundo? Alguma coisa de muito grave está acontecendo com a sociedade brasileira que a sempre vigilante imprensa, que a nova geração de zelosos e corajosos jovens promotores que repugnam a subversão do direito e os crimes lesantes à sociedade, que a respeitável direção da OAB, que as autoridades e associações médicas, bem como todos os membros dos poderes judiciários, legislativos e executivos parecem ignorar, descurar, negligenciar e até mesmo proteger e defender. Queremos falar de procedimentos humanos, voluntários, que põem em risco ou que atentam contra a integridade da saúde de uma população e tipificados como crime. Os profissionais da saúde cuidam do bem estar físico e mental das pessoas. Eles são os chamados clínicos gerais ou médicos especialistas, capacitados e autorizados para o atendimento de seus pacientes, em seus consultórios, ou outros recintos que são apropriados ao exercício da atividade médica. Os médicos psiquiatras são os especialistas habilitados para diagnosticar os distúrbios mentais e emocionais humanos e tratá-los convenientemente. Também os psicólogos estão habilitados a analisar e prover ajuda psicológica aos seus clientes. A prática desses atendimentos médicos, sem a necessária formação acadêmica tipifica crime charlatanismo, exercício ilegal da medicina. Vamos aos fatos:

Estes comentários têm fulcro num programa de televisão: "Fala que eu te escuto", apresentado por membros da IURD, dentre os quais o mais freqüente é um "bispo" Clodomir, cuja limitação intelectual se faz notar, particularmente devido a uma expressão verbal pobre e deficiente, própria dos iliteratos, que entretanto não se pejam de abordar assuntos com quais não guardam familiaridade nem conhecimento mínimo. Sua tediosa argumentação repete à exaustão as mesmas frases, as mesmas palavras, em torno de um surrado argumento. O programa estimula a participação dos espectadores a falarem via telefone sobre os temas que lhes são propostos. As opiniões destes, quando favoráveis às suas posições religiosas aprazem aos apresentadores que rechaçam com visível desconforto o que lhes é desfavorável, oportunidade em que atacam com grande ímpeto, descaso e sarcasmo "inimigos de sua própria crença. A liberdade de culto religioso é garantida pela constituição, onde está o crime? O programa também encoraja os espectadores a exporem, ao vivo, os seus problemas. E estes o fazem, em muitas das vezes, revelando estar vivendo, no momento mesmo em que falam, uma situação de grande dificuldade ou sofrimento. Então passam a relatar seus estados de carência, de necessidade econômica, de instabilidade emocional, de angustia pela perda de ente querido, doença grave na família e todo sucesso funesto que eventualmente estejam experimentando, tudo devidamente acompanhado de um envolvente fundo musical. Há que dramatizar, teatralizar as narrativas, os desabafos que se alongam por intermináveis minutos, interrompidos de quando em quando pelo astucioso apresentador: você acredita em Deus, minha filha? Você acredita na Bíblia, não acredita? Só você é culpada pelo que lhe acontece, Deus não tem nada com isso, Deus não quer o sofrimento de ninguém. O que segue então é um deplorável atendimento "espiritual", diríamos psiquiátrico — e o indefectível e inculcador diagnóstico: —"Minha filha, você tem um mal (força maligna) atrapalhando a sua vida, o seu mal é espiritual. Você precisa de uma "libertação". O que segue é um convite para visitar a igreja, onde os infelizes serão "curados" definitivamente de todos os males e melhor: passarão a ter uma vida próspera e abundante. Quem não percebe nisto o simples interesse de fazer prosélitos? Eu pergunto: que incomensurável dano uma só transmissão televisiva de natureza tão perversamente persuasiva pode causar à saúde mental de uma certa parcela da população vulnerável a essa indefensível agressão mediática, no país inteiro? Quantos novos inculcados, fóbicos, apavorados, "perseguidos pelo demônio" engrossarão os contingentes de desajustados que procuram os serviços de saúde pública consumindo ainda mais seus parcos recursos? Será que não devíamos exercer com mais proficiência a nossa capacidade de indignação contra toda a sorte de logro, de fraude, dos enganadores que pululam em nosso país e que nos envergonham como civilização?



Mande-nos seu comentário

Início do Observatório na TV





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você