OBSERVATÓRIO NA TV

 

OBSERVATÓRIO NA TV

TVE e TV Cultura, terças-feiras, 22h30

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ASPAS

JORNAL DO BRASIL, 110 ANOS
Fritz Utzeri

"110", copyright Jornal do Brasil, 8/4/01

"Cento e dez anos de JB! Não chego a ser um Wilson Figueiredo, um Oldemário Touguinhó, um Evandro Teixeira ou um Luis Orlando Carneiro, todos tripulantes gloriosos deste velho barco há mais de 40 anos, mas aqui passei quase 24 anos de minha vida. Não é nada, não é nada, mas posso afirmar que assisti a mais de 20% da história deste jornal, para lá de centenário.

Quando cheguei ao JB, era quartanista de Medicina e sabia que estava no caminho errado. Não gostava de Farmacologia, suportava mal a clínica e abominava coisas como Medicina Legal. Preparava-me para uma vida de infelicidade e dava plantão em clínicas de psiquiatria. Naquele tempo ainda não havia o fator massificante das faculdades de Jornalismo e os jornais recrutavam profissionais em todos os campos de atividade. Israel Tabak, por exemplo, é advogado. No JB, o recrutamento de estagiários era feito por Fernando Gabeira, então editor da Pesquisa. Fiz o curso e fui selecionado. As provas pareciam recrutamento para o Baader Meinhoff. Desconfio que o Gabeira já estava selecionando gente para pôr a mão no embaixador americano, o Elbrick. Cheguei a ser sondado para algumas ações. Não dou para revolucionário. Não topei.

Lembro-me do primeiro dia em que entrei na redação da Rio Branco, um ambiente incrível, campeão mundial do desconforto, verdadeira sauna, na qual nunca sabíamos se era dia ou noite, e que cheirava a chumbo e antimônio da composição. Como amávamos aquele jornal! Como nos orgulhávamos dele! No programa Observatório da Imprensa, quarta, na TVE, o velho José (Zé) Silveira definiu, magistralmente, o JB dos anos 60-70: ‘Era cheio de estrelas, mas sem qualquer estrelismo.’

Tremendo, aproximei-me de meu primeiro editor, Aloísio Flores, gaúcho, gente boa que me entregou a prancheta da pauta e disse apenas: ‘Faz isso, ouve alguns médicos aí’. O prêmio Nobel de Medicina acabara de ser distribuído e contemplava pesquisas na área da genética (não sou capaz de lembrar o quê). Fui procurar o meu professor de Genética e escrevi umas duas laudas. Entreguei com medo. Flores olhou e não disse nada. Não dormi. No dia seguinte, quando a matéria saiu – inteira e com destaque! – senti-me no céu e passei horas e horas ‘lambendo a cria.’ Lambo a cria até hoje.

Estagiei quase dois anos. Entrei em outubro de 68, em maio de 69 fui efetivado e descobriu-se que eu não era brasileiro. A efetivação ficou sem efeito e continuei como estagiário. O JB empenhou-se em naturalizar-me e fui finalmente efetivado em maio de 70, já brasileiro, por decreto especial, só concedido a gente considerada ‘relevante’ para o país. Quem assinou o ato foram os ‘três patetas’, ao mesmo tempo em que o brigadeiro Burnier pedia 30 anos de cana para mim, por editar um panfleto no diretório acadêmico que – segundo acusação absurda – procurava dividir as forças armadas. Começava bem na profissão. Sempre entendi o jornalismo como uma atividade perigosa (desconfiar sempre, é o meu lema). Jornalismo sem no mínimo uma certa dose de risco não passa, como diz – de forma magistral – o Millôr, de ‘secos & molhados.’

Assisti ao Observatório da Imprensa do Dines, na TVE. A fase dele no JB foi muito bem representada pelos grandes artífices da reforma do jornal, gente como Amilcar de Castro e o indestrutível Jânio de Freitas. Fora Carlos Lemos, Grisolli, o Castelinho, sinônimo de coluna política equilibrada e fundamentada, Tristão de Athayde, que fazia o contraponto com Gustavo Corção no ‘outro’ jornal e marcava a diferença entre nós e eles, e o Dr. Barbosa (muito se falou dele recentemente e tive a honra de editar o suplemento que o homenageava). Dá para esquecer da suavidade de Marina Colassanti? Da Ana Maria Machado? Do Affonso Romano de Santana? Um dos pontos altos do programa, senão o melhor, foi o depoimento de Evandro Teixeira, contando como fotografou Pablo Neruda logo depois de sua morte, nos dias que sucederam o golpe de Pinochet no Chile.
Naquela época o JB era um Rolls Royce. Walmir Ayala fazia a crítica de arte. No cinema pontificavam nomes como Eli Azeredo, Miriam Alencar, José Lino Grunewald e tantos outros. A música clássica era criticada por uma sumidade como Renzo Massarani, célebre na Itália, pai da Mariana, minha ilustradora favorita. (Onde andas, menina, que não me ilustras mais?) Depois veio a ‘sede nova’ e com ela um processo de queda lento e progressivo, que se acentuaria nos últimos anos.

Mas o jornal ainda fez grandes coisas. Senti falta de muita gente, como Walter Fontoura, que dirigiu a redação por cerca de 10 anos, Paulo Henrique Amorim, Alberto Ferreira, editor de Fotografia. Lutero e Ezio, dois co-autores da histórica página da morte de Allende que ainda estão no JB. Faltou ouvir alguns dos grandes repórteres da casa, a começar pelas ‘meninas do B’ (Norma Couri, Emília Silveira, Maria Lúcia Rangel e todas as outras, como a Iesa, que ainda está lá). E o que dizer de gente como Sérgio Fleury, Israel Tabak (que ainda está no JB), Tarcísio Baltar, Arthur Aymoré? Faltou lembrar dos que partiram: José Gonçalves Fontes (o repórter brasileiro mais premiado da história), Luis Paulo Coutinho, o PC, Paulo Cesar Araújo, Heraldo Dias, meu parceiro em inesquecíveis reportagens, Luis Larquê, Ghioldi Jacinto e Jayce André, Maurício Arcoverde, Peter Matheson, Artur Reis, Odir Amorim, Teixeirinha, além de Humberto Vasconcelos. Drummond, que dispensa considerações, e Carlinhos de Oliveira, que durante muito tempo foi o verdadeiro guru cultural e existencial da Zona Sul.

Entre os vivos não apareceu gente que está aí, brilhando em outras casas, como Arthur Xexéo, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo, Tutty Vasques, perdas que os leitores lamentam até hoje. Foram pessoas assim, centenas delas, que fizeram a grandeza deste jornal carioca, deram-lhe alma, credibilidade e inteligência, linhas mestras que permitiram que o Jornal do Brasil sobrevivesse, mesmo em meio à penúria absoluta, e chegasse aos 110 anos pronto para mais 110, como desejam e esperam os seus leitores. Aos que esqueci peço desculpas, mas é impossível lembrar de todos. (...)"



Alberto Dines responde

Fritz Utzeri deve ter tirado um cochilo no início do programa sobre os 110 anos do Jornal do Brasil. Não ouviu ou, se ouviu resolveu esquecer, o trecho em que este Observador declarou que, por ter trabalhado durante 11 anos e 11 meses no JB, preferiu entregar a realização do documentário aos editores do programa. Assim poderiam produzir e editar o programa com inteira liberdade. A única contribuição foi uma lista de profissionais destacados em todas as fases. Essa lista continha 45 nomes! Se todos fossem ouvidos teriamos um programa de, no mínimo, duas horas contínuas que, para ser gravado e editado, exigiria pelo menos dois meses de intensa preparação. A TVE não dispõe de recursos para um projeto desta envergadura. Nem o próprio JB na sua edição de aniversário conseguiu relacionar todos os nomes que Fritz Utzeri anotou na sua crônica onde impera mais azedume do que vontade de fazer justiça ou rever o passado. Se assim não fosse ele se lembraria que sua entrada no JB e as primeiras promoções como repórter deram-se exatamente no período em que este Observador era o editor-chefe do jornal.

Como também foi dito no comentário de abertura o programa não pretendia ser a historia definitiva do JB mas uma contribuição para esta história, tal como ocorreu com o Correio da Manhã e O Cruzeiro. Alguns dos nomes da lista original recusaram-se a participar. Com outros houve problemas de saúde e agendamento. Mas conseguimos ouvir 22 nomes das diferentes fases do JB dando ênfase àqueles que passaram por diversos momentos. Num programa de 50 minutos apresentamos um documentário de 30; o resto ficou para debates e, sobretudo, para ouvir do novo Diretor de Redação algumas palavras sobre os seus planos futuros. Um depoimento que por falha de edição deixou de ser incluído no programa mereceu um destaque especial no ínicio do programa seguinte.

Para evitar que depoentes da reportagem fossem criticados durante o debate ao vivo, houve o cuidado de não incluir alguns profissionais cujos desempenhos poderiam ser alvo de comentários negativos. A idéia era fazer um programa histórico e, não, promover um ajuste de contas. A.D.


Clique aqui para ler o editorial do programa Observatório da Imprensa na TV (nº 145, de 3/4/01) que tratou dos 110 anos do Jornal do Brasil



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