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ENTREVISTA
"ACM não tem respeito pela imprensa"

Entrevista de João Carlos Teixeira Gomes, autor de
Memórias das Trevas, ao programa Observatório da Imprensa na TV


O jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, 64 anos, foi o entrevistado do programa Observatório da Imprensa, transmitido ao vivo pela Rede Pública de Televisão na noite de terça-feira, 20 de fevereiro. Autor do livro Memórias das Trevas – uma devassa na vida de Antonio Carlos Magalhães, Teixeira Gomes deixara de participar do mesmo programa, duas semanas antes, pelos motivos explicitados em comunicado disponível neste sítio às 20 horas de 6 de fevereiro [clique aqui para ler a íntegra da nota].

A suspensão do programa, naquela data, suscitou versões – devidamente amplificadas pelo cartel da mídia – de que teria havido "censura" por parte do Observatório; que, assim, teria sucumbido às pressões de ACM. Mas a história foi bem outra. O relato completo do ocorrido, inclusive a posição do próprio autor "censurado", está no DOSSIÊ PERFÍDIA, publicado na edição 108 do OI [clique aqui para ler as matérias do dossiê].

No programa de 20 de fevereiro, João Carlos Teixeira Gomes foi entrevistado por Alberto Dines e Florestan Fernandes Jr., do Observatório da Imprensa, e Tales Faria, diretor da sucursal da revista IstoÉ, em Brasília, além de responder a perguntas de telespectadores. O autor falou das dificuldades que enfrentou para publicar seu livro, sobre a cobertura que se trabalho mereceu na mídia e a respeito do personagem central – ACM. A seguir, seu depoimento. (L.E.)


Observatório – Quais dificuldades que teve para publicar este livro. Você bateu na porta de diversas editoras. Como foi essa história?

João Carlos Teixeira Gomes – Foi uma decepção muito grande para mim porque afinal de contas eu não sou um autor neófito. Eu tenho uma tradição em publicações em nível nacional, inclusive com dois livro marcantes, me perdoe a modéstia, mas a modéstia no caso não teria razão de ser... A biografia do Glauber Rocha, que é considerada a melhor publicada até hoje, e um livro básico sobre Gregório de Mattos, um grande poeta satírico do século 17 na Bahia, publicada pela Vozes. Este teve uma trajetória brilhante e vai ser até reeditado pela Geração Editorial.

Às vezes me parece que os jornalistas do Rio e de São Paulo não podem compreender como um jornalista que não quis sair da Bahia por opção, eu amo a minha terra profundamente, pode escrever um livro de 765 páginas narrando fatos que transcendem inclusive o episódio da luta contra Antonio Carlos Magalhães, que é marcante. Isto porque dentro da ditadura militar havia uma ditadura específica na Bahia, que era muito cruel e dramática, querendo destruir o jornal em que eu trabalhava.

Observatório – Como foi a história das editoras?

J.C.T.G. – As editoras bloquearam o livro sob as mais variadas e inconsistentes alegações.

Observatório – Dê nomes.

J.C.T.G. – Em primeiro lugar, a Objetiva, porque eu consegui um contato com o Roberto Feith, que me recebeu cavalheirescamente, uma pessoa muito educada, e me pareceu, naquele momento, que tinha manifestado um real interesse e me encaminhou para uma assessora chamada Valéria Mota. Essa moça parece que tem umas tendências para a crítica literária e não percebeu o significado e o alcance do livro. Talvez seja uma pessoa com uma visão mais profunda dos fatos políticos, que deu uma de crítica literária dizendo que eu tinha um estilo ágil, mas que o livro estava recheado de relatos e documentos... O que o livro é rico é justamente por isso, para dar um suporte de veracidade a tudo que é narrado! E aí ela me descartou, por carta. Não me agradou aquele comportamento, não achei correto. E várias outras editoras, como a Record, que me parecia ter uma tradição nesse particular em relação à ditadura. A Nova Fronteira, minha editora, com três livros publicados – o Carlos Augusto Lacerda nem me disse particularmente por que vetaria o livro. A L&PM, do Rio Grande do Sul, me mandou uma carta simples.

Eu mandei releases para essas editoras todas. Houve uma, chamada Garamond, que queria podar, mutilar o livro. Eu disse não, não posso mutilar o livro porque seria a mutilação da minha vida. Não é apenas o episódio de Antonio Carlos que me interessa narrar. As editoras mais importantes do Brasil, com exceção da Rocco, vetaram o livro.

Observatório – O lançamento do seu livro coincidiu com a campanha no Senado e houve acusações de ter sido financiado pelo senador Jader Barbalho. O que você tem a dizer sobre isso?

J.C.T.G. – Isso é uma coisa grotesca e ridícula. Eu trouxe aqui um documento para a opinião pública brasileira. Está aqui a revista Caros Amigos de 30 de setembro de 1999. Eles fizeram uma ampla entrevista comigo, na capa, com 4 a 5 páginas internas – "O jornalista que enfrentou ACM". E aqui já está claramente no texto a informação de que o livro já estava pronto. Está aqui (lendo a revista): "Desde que deixou o jornal em 1977, depois de dirigi-lo por 20 anos, João Carlos projetou o livro que agora acaba de escrever – Memórias das Trevas – em que aborda principalmente o episódio Jornal da Bahia vs. ACM".

Setembro de 1999. Nós estamos em fevereiro de 2001. Esse livro inclusive foi mandado, em meados do ano, também para a Geração Editorial. E foi muito curioso isso porque o Luiz Fernando Emediato, que além de ser um editor é um jornalista muito sensível, não tinha visto e o livro recebeu a numeração 526. Então, diante das dificuldades que essas grandes editoras nacionais estavam colocando para sequer analisar mais profundamente o conteúdo do livro, eu fui à São Paulo. Pedi uma audiência com o Emediato, fiz questão que ele me recebesse e mostrei a importância do livro. Ele se convenceu disso e tudo se harmonizou com o próprio momento histórico que o Congresso estava vivendo. Ele sentiu. Ele teve o faro do editor, que é jornalista também, da extrema pertinência de publicar o livro naquele momento. Essa é a história simples do livro. O sr. Antonio Carlos Magalhães quis desqualificar o livro e criou essa história talvez porque já tivesse presumivelmente financiado aquelas matérias contra o Jader Barbalho na revista Veja. Duas matérias sucessivas que se propunham a explicar e questionar a fortuna de homens públicos que enriqueceram sem explicar. E eu pensei que haveria uma continuidade envolvendo o próprio Antonio Carlos Magalhães – que nunca explicou à Bahia como enriqueceu. É um fato muito questionado e a Bahia está esperando até hoje que ele explique.

Observatório – Por que o ACM não fez o caminho mais curto? Em vez de começar uma briga tão longa com você, por que ele não foi direto a redação do jornal quando começou essa briga e não fez como os políticos costumam fazer: pedir a tua cabeça?

J.C.T.G. – Antonio Carlos é uma aliciador vingativo que não tem o menor respeito pela imprensa, a não ser quando ela se coloca a serviço de seus interesses. Isso passou a acontecer no Brasil de uma forma aviltante: órgãos de comunicação poderosos, tradicionais, se colocaram a serviço de um coronel urbano, porque ele é isto. A tradição do coronelismo e do cangaço é do latifúndio, é rural. Na Bahia houve uma exceção ao Brasil todo, [pois ali essa tradição] passou a ser urbana. Antonio Carlos não é um sedutor, é um aliciador. Ele é um irracional em determinados momentos. Eu acho muito curioso quando dizem que o ACM é um homem hábil, um PhD em política. Quando a [nossa] briga começou, ele começou a agredir o jornal que denunciou um processo de cisão da Arena estimulado por ele mesmo, como prefeito [de Salvador] para chegar ao governo do estado [da Bahia]. Ele poderia ter envolvido a direção do jornal naquela época. Não tinha nem a projeção que depois adquiriu. Fui realmente contra ele. Fui inclusive enquadrado na Lei de Segurança Nacional por um processo iniciado por ele, na época em que jornalista condenado era jornalista torturado e morto nos porões da ditadura. Tão irresponsável ele foi por denúncia não assinada, minha. Era denúncia editorial do jornal. Então, ao invés de ele procurar a direção do jornal e tentar me isolar naquele período, ele atacou a família do diretor do jornal, num programa de televisão, da mesma forma como ele faz hoje no Senado. Como presidente do Senado, ele desmandou porque deveria exercer uma magistratura no cargo. Ele devia ser eqüidistante de paixões e conduzir um processo com independência e distanciamento.

Ele atacou a família do diretor do jornal, chamando todo mundo da família – pessoas tradicionais do interior – de sonegadores de impostos. Isso marcou a cisão irreversível. O diretor do jornal ficou sem condições morais de recuar da briga, que se desenvolveu num crescendo pelas perseguições. ACM investiu contra os anunciantes do jornal e também bloqueando a publicidade oficial, que ele considerava um prêmio para premiar o jornal que fosse submisso. Ele não entende publicidade com o um instrumento de divulgação dos atos oficiais, mas como um prêmio para os jornais submissos.

Observatório – E como foi o desfecho da história?

J.C.T.G. – O jornal minguou, começou a diminuir o número de páginas, foi uma coisa muito triste, mas a solidariedade do povo baiano foi fantástica. As pessoas compravam dez jornais. O jornal sobreviveu pela compra avulsa em bancas, porque não tinha publicidade, e foi obviamente ajudado por outros setores que tinham interesse em não deixar que um jornal brilhante como era o Jornal da Bahia, na época um dos mais importantes, se extinguisse por uma perseguição odienta. [Clique em Próximo Texto para ler a segunda parte desta entrevista]



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