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ENTREVISTA
"Houve e há um complô do silêncio"

Segunda e última parte da entrevista de João Carlos
Teixeira Gomes ao programa Observatório da Imprensa na TV


Observatório – Você botou o dedo numa ferida, contou os porões das relações entre um determinado personagem da cena política brasileira e a mídia, e o livro Notícias do Planalto livro tratou também da mesma coisa. Por que um recebeu essas benesses, essa simpatia merecida, e por que você não recebeu?

João Carlos Teixeira Gomes – É verdade. Alberto Dines foi a primeira pessoa que chamou atenção para o "complô do silêncio", uma expressão que ele usou com muita propriedade e adequação. Houve e há um complô de silêncio. Eu queria citar rapidamente dois episódios desagradáveis. No segundo dia do lançamento nacional do livro, a Folha de S.Paulo publicou uma matéria dizendo que "desafeto de ACM lança biografia". Eu não sou desafeto de ACM nem sou profissional do anti-carlismo. Eu mandei um e-mail para o Otavio Frias Filho – não me lembrava na hora da seção Painel do Leitor –, e eu tinha convicção de que se tratava de um escritor também, um jovem jornalista com compromisso democrático. Eu vi umas avaliações dele sobre ACM publicadas em sua coluna; eu tinha certeza que, se não na íntegra, pelo menos parte da carta seria acolhida. Não foi.

A Folha de S.Paulo, que disse que eu era um desafeto de ACM e eu pedi que reparasse essa grave incorreção, não publicou a carta nunca. [N.R. – A mensagem à Folha foi finalmente publicada no Painel do Leitor de segunda-feira, 26/2, um mês depois de ter sido enviada.] E, recentemente, o Jornal do Brasil colocou trechos do meu livro em confronto com o livro do jornalista Loyola, que ataca o senador Jader Barbalho. Ora, isso dava a entender que meu livro estava realmente num circuito de briga pela presidência do Senado. Uma coisa torpe. Então eu fiz uma carta também, lembrando inclusive que a Dora Kramer tinha falado uma expressão que não me pareceu correta, que ela não queria participar do programa [OI na TV, de 6 de fevereiro] para "não se envolver na guerra suja". A minha guerra é uma guerra limpa, não tem nada de guerra suja. Eu denuncio o sr. Antonio Carlos Magalhães porque fui um jornalista perseguido durante a ditadura, pela ditadura particular que ele implantou na Bahia e implanta até hoje. O Jornal do Brasil bloqueou também a carta, não publicou. Minha carta dizia que o meu livro não tem nada a ver com guerra suja, é uma guerra limpa, de advertência democrática. São esses os fatos.

Observatório – Por que os intelectuais baianos, como João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado, às vezes fazem elogios ao ACM?

J.C.T.G. – João Ubaldo Ribeiro não faz elogios a ACM. Ele tem dito, inclusive com ênfase, que politicamente está sempre em oposição a ACM e não votará em ACM. Mas há a idéia de que os intelectuais baianos apoiam ACM. Eu diria que ele tem manipulado muito as festas populares do carnaval em relação aos artistas que precisam da infra-estrutura oficial, porque o carnaval da Bahia deixou de ser espontâneo há muito tempo. É uma criação bonita, popular com os trios elétricos. Hoje, é uma grande máquina de fazer dinheiro, uma grande manipulação política. Isso estabeleceu realmente uma vinculação meio espúria e às vezes até repugnante, sobretudo entre artistas com projeção nacional e ACM.

Sobre Jorge Amado, é um problema difícil de precisar porque é um homem cuja obra é um hino à liberdade, e realmente transigiu muito com toda a trajetória tirânica de ACM na Bahia. Ele é que devia explicar. Hoje está afastado de tudo, não freqüenta mais estes lugares, sobretudo não está muito bem. Eu não gostaria de falar sobre isso. Mas João Ubaldo tem deixado claro que ele nunca se vinculou ao projeto político de ACM.

Quanto aos artistas também é um fato difícil de explicar – homens independentes, brilhantes e talentosos que de certa forma estão dando o seu aval a um tirano que, se chegasse ao poder absoluto no Brasil, governaria contra a Constituição e contra os artistas e jornalistas de modo geral.

Observatório – Uma questão que tem muito a ver com o jornalismo e jornalistas que estão hoje trabalhando nas redações do Brasil. Muitos ganham mal e têm de ter mais de um emprego. E você, no seu livro, conta uma experiência que teve. Você era diretor do Jornal da Bahia e foi trabalhar em um órgão ligado à Secretaria de Turismo do município, justamente no momento que o ACM era prefeito biônico de Salvador. Como que é a relação do jornalista que é diretor de um jornal trabalhando para um órgão público? Há interferência ética? Você acha que é correto, dado o problema financeiro que o jornalista vive ainda hoje, principalmente no Nordeste?

J.C.T.G. – Fui trabalhar num órgão de turismo, é um fato, que eu digo inclusive no meu livro, do qual me arrependo. Eu fui trabalhar porque o jornalista Flávio Costa, que foi secretário da Manchete, estava na Bahia como chefe da sucursal e tinha sido redator-chefe do Jornal da Bahia. Nós começamos juntos no Jornal da Bahia, havia uma grande estima [entre nós]. Eu tinha feito uma viagem a Portugal e fiquei impressionado com o que vi em matéria de turismo, inclusive nas [então] colônias africanas de Portugal. E escrevi, quando voltei, um artigo pregando a recuperação do Pelourinho. Flavio tinha uma diretoria e me convidou porque conhecia minha capacidade de trabalho. Havia uma identificação muito grande entre nós dois e, vendo aquele meu artigo, ele resolveu me convidar. Mas com pouco tempo eu senti que na verdade ele queria me envolver como redator-chefe do jornal. Não era o diretor de Turismo que estava ali. Eu não ia às reuniões que ele fazia, já tentando aliciar um grupo de jornalistas em função do seu interesse político. E por isso me demiti. Eu tomei a iniciativa de me demitir, o que é narrado com todos os detalhes no primeiro capítulo do livro. Não foi uma boa experiência, eu não recomendaria a jornalistas que seguissem este caminho. Eu interrompi imediatamente e as conseqüências foram de perseguição sistemática também por isso. Fixei naquele momento a minha independência.

Observatório – Explique uma coisa: como é, de repente, a TV Globo na Bahia muda de retransmissora. Como é que funcionou isso?

J.C.T.G. – Isso é um dos episódios mais vergonhosos da vida pública brasileira. O Waldir Pires tinha ganho as eleições na Bahia (quando dizem que ACM é muito popular, é preciso pensar nisso) com quase 2 milhões de votos de diferença. Foi uma reação cívica da Bahia. A Bahia não queria mais ACM, não queria mais o carlismo. Então, o que faz ACM? Convence a Globo de que havia a restauração, no Nordeste, da dobradinha Waldir Pires – Miguel Arraes e alicia a Rede Globo para tomar, da TV Aratu, a programação da Globo que havia 18 anos era transmitida por essa emissora. Para conseguir isso, ele, ACM, usou o cargo de ministro, num ato de corrupção espantosa. Uma coisa curiosa: porque esse caso é muito citado, fica como uma coisa natural; porque é citado, desaparece a gravidade do fato. ACM usa o cargo de ministro para inviabilizar a permanência de Mário Garnero a frente da NEC, uma multinacional japonesa de grande expressão, que era dirigida no Brasil pelo Mário. Bloqueia o pagamento de importâncias fundamentais à sobrevivência da NEC, sob a gestão de Garnero. Consegue inviabilizar financeiramente a empresa, passa a empresa portanto à Rede Globo e, em troca, recebe o favorecimento da programação da Rede Globo na Bahia. Ele passa a utilizar sua emissora como instrumento de revanche política, agredindo dia e noite o governo do estado, o governo da mudança. Foi um fato da maior gravidade ocorrido na vida pública brasileira e que fica por isso mesmo. Quando se fala isso [tem gente que comenta]: "Ah, mas isso já era conhecido". Se é assim, não se escreverá mais livros sobre Hittler, porque tudo sobre Hittler já se sabe. Se é assim, Hitler estava absolvido também, porque os fatos são repetidos e aprofundados pelos pesquisadores. ACM repete freqüentemente que tudo isso já é conhecido. Porque isso tudo é conhecido ele está absolvido? Absolvido o quê? Ele nunca se defendeu efetivamente. Joga em cima do esquecimento, da memória e da cobertura que a imprensa que continua dando a ele.

Observatório – O senador ACM hoje posa como o dono da moralidade e da compostura, cobrando das outras pessoas a compostura e a moralidade. Como você vê isso, já que seu livro mostra justamente o contrário, que ele não é o dono da moralidade nem da compostura?

J.C.T.G. – A primeira denúncia mais profunda do Jornal da Bahia contra ACM foi quando ele praticou um ato de corrupção administrativa favorecendo uma firma da qual era acionista. Foi por isso que ele tentou me meter na cadeia e não conseguiu. [O pedido dele] foi considerado tão absurdo que os militares [o] recusaram por 4 a 1. É evidente para todo o Brasil que o ACM está usando a bandeira da moralidade pública porque ele ainda tem pretensões, apesar de estar tão idoso e com uma lesão cardíaca muito grave. É um milagre médico a sobrevivência dele com essa adrenalina toda. Ele está num processo de aliciamento da opinião pública porque as acusações que pesam sobre ele na Bahia, sobre a construção da sua fortuna – e que foi o questionamento da Veja em relação ao Jader – ele não consegue explicar.

Quanto à moralidade, eu queria narrar para o Brasil em episódio inacreditável: na Bahia, em determinado momento, ACM recebeu de um político que era do grupo dele uma cueca de presente, uma cueca samba-canção. Eles eram aliados, e ele recebeu a cueca, guardou, não sei se usou. Tempos depois, ele rompeu com esse político, que era o filho do governador João Durval Carneiro, um homem sério, que rompeu politicamente com ele porque não agüentou as pressões. ACM devolveu a cueca e mandou um deputado dele exibir na Assembléia Legislativa. Ele, o governador do Estado, mandou que a cueca que ele recebeu de presente de um deputado fosse exibida em todos os ângulos! Foi uma sessão de chacotas, de risos, uma desmoralização de um Poder Legislativo como nunca aconteceu.

Agora, como presidente do Senado, ele tinha de conduzir o processo sucessório de uma maneira equilibrada, como juiz. O que ele faz? Como coronel do PFL, ele tenta induzir o partido adversário, o PMDB, a escolher o candidato que ele queria.



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