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GRAMPOS, ACM, JOCA & MÍDIA
Emerson Lopes Silva
"‘A vida privada de ACM não me interessa’", copyright Revista Submarino (www.revistasubmarino.com.br), 21/02/01
"Em 19 de janeiro de 2001, uma sexta-feira, foi lançado em todo o país ‘Memórias das Trevas - Uma Devassa na Vida de Antonio Carlos Magalhães’ (Geração Editorial), livro do jornalista e escritor baiano João Carlos Teixeira Gomes. A repercussão foi mínima, se comparada a ‘Notícias do Planalto’, do jornalista Mário Sérgio Conti, sobre a relação da imprensa com o ex-presidente Fernando Collor. Apenas algumas notas em colunas sociais e de política e poucas matérias em revistas e jornais, polemizando uma acusação proferida por ACM, segundo quem o livro teria sido financiando pelo PMDB para prejudicá-lo nas disputas políticas em torno da sucessão da presidência do Senado (o partido de ACM, o PFL, perdeu a disputa na semana passada para o senador pelo Estado do Pará, o peemedebista Jader Barbalho).
Em entrevista à Revista Submarino, João Carlos Teixeira Gomes fala sobre sua briga com o poderoso ACM. O autor comenta também sobre o porquê de não ter abordado em seu livro aspectos mais obscuros da vida de Antonio Carlos Magalhães, preferindo tratar de fatos que, embora polêmicos, já eram, uns mais outros menos, de conhecimento público.
Revista Submarino - A editora Geração Editorial diz que ‘Memórias das Trevas’ narra a biografia obscura do (até então) presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães. Mas, no seu site, a editora já acrescenta que ‘é na verdade a autobiografia do jornalista e escritor baiano João Carlos Teixeira Gomes’, perseguido por ACM. E, em entrevista recente, o sr. o define como um livro de memórias. Qual a melhor definição? Por que a indefinição?
João Carlos Teixeira Gomes - Defino ‘Memórias das Trevas’ como um livro de memórias cujo fato mais relevante é o meu episódio com Antonio Carlos Magalhães, que durou seis anos. Minhas relações com ele deram-me condições de analisar suas ações políticas e, a partir delas, lutar pela liberdade de imprensa. Acho que pode ter havido problemas no processo de divulgação, até porque um livro de 766 páginas não é fácil de ser lido em três ou quatro dias.
Revista Submarino - ‘Memórias das Trevas’ foi recusado por várias editoras como a Casa Amarela e outras, como a Vozes e a Nova Fronteira, que já haviam publicado obras suas. Que justificativas o sr. recebeu?
Teixeira Gomes - A Casa Amarela tem até hoje o primeiro original do livro, mas ela não tinha dinheiro para o projeto. Quanto à Vozes, esta nem me respondeu. Já a Nova Fronteira, que havia anteriormente publicado ‘Glauber Rocha, Esse Vulcão’, biografia que escrevi sobre meu amigo e cineasta, alegou simplesmente que não havia interesse em publicar.
Revista Submarino - A importância de ‘Memórias das Trevas’ está relacionada com a ‘falta de memória do povo brasileiro’, citada pelo sr. no livro?
Teixeira Gomes - Você tocou em um ponto interessante. Não há muitos depoimentos desta natureza no Brasil. Gilberto Felisberto Vasconcellos, no prefácio do livro, diz que não conhece obra de maior envergadura no jornalismo nacional. Eu não ousaria dizer isto, mas, com certeza, é uma obra de valor ímpar.
Revista Submarino - O senhor acha que o livro influiu na recente briga ACM x Jader Barbalho na eleição para presidência do Senado?
Teixeira Gomes - Não teria a pretensão de achar isso. Não creio que o livro tenha tido alguma influência direta nesta questão. Porém, deve ter despertado o interesse de políticos pela sua leitura. Acho que ele surgiu em um momento importante.
Revista Submarino - O subtítulo ‘Uma devassa na vida de ACM’ dá a impressão de que a obra traria ao público novas revelações sobre a vida do político baiano. Porém, salvo detalhes de sua experiência pessoal com ele, o que temos no livro são fatos já relatados, ou documentados em veículos de comunicação, portanto informações já divulgadas.
Teixeira Gomes - O livro reúne, pela primeira vez, vários fatos graves e insólitos. Não era meu propósito colocar sangue no livro. Apenas narrei fatos de minha trajetória com alguém que representa um coronelismo urbano. Além do mais, Antonio Carlos Magalhães sempre quis transformar contendas pessoais em acusações familiares, o que não é do meu feitio.
Revista Submarino - Por que o sr. não se aprofundou em questões nebulosas como a morte do genro de ACM, ou a morte de sua filha, a boca pequena citados como reveladores de sua truculência? Não havia interesses relacionados a questões de manutenção de poder nestes episódios?
Teixeira Gomes - Há muitos aspectos como, por exemplo, a inexplicável fortuna de ACM que até hoje ele se esquiva de explicar. Eu não tive condições de ir até as Ilhas Caiman para investigar. Outros fatos, como a morte de seu genro, são tratadas de forma pouco aprofundadas, pois, ao meu ver, dizem respeito a questões familiares de ACM. Quanto à morte de sua filha, apenas cito porque o governador Waldir Pires cancelou sua solenidade de posse em respeito à sua morte. Poderia também falar dos excessos de seu filho, Luis Eduardo, mas acho que não me dizem respeito.
Revista Submarino - Mas quais são os limites de privacidade de uma pessoa pública?
Teixeira Gomes - Na minha perspectiva, só olho as atitudes dele como homem público, como político. Sua vida privada não me interessa.
Revista Submarino - Como o sr. vê a cobertura da imprensa em relação ao seu livro?
Teixeira Gomes - Acho que a imprensa do Rio e de São Paulo ficou com um pouco de inveja por causa do prefácio de Gilberto Felisberto Vasconcellos, que exaltou ‘Memórias das Trevas’. Talvez porque ele é a prova de que um jornalista baiano pode escrever um livro de quase 800 páginas com informações importantes. Isto mostra que o Brasil tem uma imprensa ágil em todo seu território e talvez prove também que a dita grande imprensa é a menor imprensa do país, pelo menos do ponto de vista ético.
Revista Submarino - Por quê?
Teixeira Gomes - Com exceção do ‘complô do silêncio’ (em referência ao silêncio de grandes veículos e editoras como Folha de S.Paulo, Editora Abril, O Estado de S. Paulo e Editora Globo), amplamente divulgado pelo site Observatório da Imprensa, do jornalista Alberto Dines, alguns veículos traduziram com eloqüência a força do livro em notas e colunas. Mas houve molecagens como adulteração do meu nome para João Gomes, José Teixeira, José Carlos, por exemplo, com o propósito de desqualificá-lo. Há também casos incompreensíveis, como o da colunista Danuza Leão, que me chamou de narciso por ter achado que no livro há mais fotos minhas que de ACM. É natural ter fotos minhas em meu livro de memórias! A ela respondo que posso ser até muito vaidoso, mas nunca fiz uma operação plástica.
Revista Submarino - O sr. tem alguma explicação para o fato de seu livro ter vendido cerca de 25 mil exemplares, conforme alega a editora, sem o apoio da mídia e sem uma ampla campanha publicitária?
Teixeira Gomes - Acredito que este fato resulta do desejo de mudança e renovação dos quadros políticos por parte de formadores de opinião como universitários, intelectuais e professores. Tenho a impressão de que estes foram os grandes divulgadores do livro pelo método do boca-a-boca.
Revista Submarino - Qual a impressão que o sr. tem sobre os comentários de ACM sobre ‘Memórias das Trevas’? As possíveis represálias judiciais até agora não aconteceram.
Teixeira Gomes - Apesar de Antonio Carlos Magalhães dizer que a obra foi financiada pelo PMDB, acredito que, em um momento raro, ele teve uma postura realista, porque sabia que não havia como contestar o que foi publicado. Acho que meu livro o colocou em xeque. ACM tem relações discutíveis e suspeitas com empresários de comunicação e com grandes jornalistas do Rio e São Paulo. Mesmo assim, a força do livro transcendeu o boicote da grande imprensa e suas deturpações, por exemplo."
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