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OBSERVATÓRIO NA TV
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GRAMPOS, ACM, JOCA & MÍDIA
Renata Lo Prete
"Distraídos no Senado", copyright Folha de S. Paulo, 25/02/01
"Na final da Copa de 98, os jornalistas esperaram sentados por uma notícia que viria em hora e local previamente combinados. Mais tarde se soube que ela havia acontecido antes do jogo, longe do estádio e dos olhos da imprensa. Guardada a diferença de assunto, o fenômeno se repetiu na semana passada em Brasília.
Repórteres e colunistas voltaram sua atenção -e pediram a do leitor- para o discurso que Antonio Carlos Magalhães faria no Senado, o primeiro depois de perder a presidência da Casa para o inimigo Jader Barbalho.
Veio a terça-feira, ACM falou e, no dia seguinte, os jornais concluíram que não havia motivo para preocupação. O senador repetira ‘denúncias velhas’ e, exceto por uma rápida menção ao dossiê Caribe, ‘poupara’ o presidente Fernando Henrique Cardoso. ‘Morno’, o discurso chegara a ‘tranquilizar’ o Planalto.
Único a destoar do coro, o ‘Valor’ informou em sua capa que FHC estava, ao contrário, muito irritado. Não com o que foi dito na tribuna, mas com o encontro realizado de véspera entre ACM e procuradores da República.
A chamada parecia senha para o que chegou, no dia seguinte, à versão online da ‘IstoÉ’. Enquanto a tônica dos jornais foi a ausência de surpresa do discurso, o site da revista divulgou o teor da conversa no Ministério Público.
Nela ACM atirou para todos os lados (até, involuntariamente, em si próprio). E nada de poupar FHC: ‘Os dados que vocês receberam do Eduardo Jorge estão incompletos. O que pega Eduardo Jorge são os sigilos bancários de 94 e 98. Se pegar o Eduardo Jorge, chega ao presidente’.
A diferença entre a desinformação de 98 e a da semana passada é que, no primeiro caso, o imponderável jogou um papel importante. Já o bate-papo de segunda-feira não pegou ninguém desprevenido. Todos souberam que ele ocorreu.
‘ACM fala com procuradores e discursa hoje contra PMDB’, chegou a registrar a Folha, em título, na terça-feira. Aparentemente, o jornal não se interessou em descobrir o que ele falou com os procuradores.
Resta entender por que tantos deram de barato que a notícia sairia do evento sob holofotes, não do encontro a portas fechadas.
Além da dificuldade para escapar do roteiro predeterminado, chama atenção, na atitude da imprensa, a pressa em dar ACM como morto, sem dúvida a análise que mais interessa ao governo.
É certo que seu isolamento atingiu dimensões inéditas (assim como o arco favorável a Fernando Henrique, que neste caso inclui até o PT), mas nada garante que ele não possa causar mais estrago.
Vale lembrar que FHC se viu obrigado a tirar do cargo, junto com os dois ministros carlistas, o responsável por um órgão (DNER) em que ACM vive a apontar corrupção. Sem falar na possibilidade de ressurreição do caso Eduardo Jorge.
Jornalismo obcecado por eliminar ACM informa tão mal quanto jornalismo deslumbrado pela figura do senador.
Plínio Bortolotti
"Como ACM se tornou poderoso", copyright O Povo (CE), 18/02/01
"O jornalista João Carlos Teixeira Gomes, no livro Memória das Trevas, uma Devassa na Vida de Antonio Carlos Magalhães, traça um perfil sombrio do senador baiano, apresentando-o como um homem sem escrúpulos e que não mede conseqüências para se manter no poder.
O jovem jornalista baiano João Carlos Teixeira Gomes viu o nascimento de um dos homens mais poderosos do Brasil, Antonio Carlos Magalhães, também conhecido pelas iniciais ACM e pelo epíteto de Toninho Malvadeza. Pelo que hoje conta João Carlos, aos 64 anos, no livro Memória das Trevas, uma Devassa na Vida de Antonio Carlos Magalhães, o parto não foi bonito. Segundo ele, a vida de violências de ACM começou ainda na adolescência, quando sua turma se reunia para fazer arruaças. Seguiu na mesma batida ``atingindo tíbias e perônios'' no início da sua carreira política como deputado, e depois como prefeito de Salvador e governador da Bahia, nomeado pelos militares.
Em 1969, a vida de João Carlos cruza-se com a de Antonio Carlos. Este, prefeito biônico de Salvador; aquele, chefe da redação do Jornal da Bahia. ACM não admitia a linha independente do jornal; João Carlos não cogitava transigir. Suspensão da publicidade governamental e pressão contra os anunciantes privados foram algumas das armas usadas contra o Jornal da Bahia. A perseguição contra o diário durou seis anos, com lances violentos, como o enquadramento de João Carlos na Lei de Segurança Nacional.
O prefaciador de Memória das Trevas, Gilberto Felisberto Vasconcellos, assim define o livro: ``Trata-se de um corajoso depoimento sobre a gênese e a consolidação de um doge, ágrafo e truculento, que sempre usou de todas as armas para se manter no poder’.
O POVO - Uma das críticas que vem sendo feita a seu livro, pelo senador Antonio Carlos Magalhães, é que ele estava a serviço da candidatura de Jader Barbalho na disputa pela presidência do Senado. Como o senhor encara isso?
João Carlos Teixeira Gomes - Em outubro de 1999 saiu uma entrevista minha na revista Caros Amigos, em que eu já fazia uma síntese do livro e anunciava que ele estava concluído. O livro é anterior à briga de Jader Barbalho com Antonio Carlos Magalhães. Acontece que houve dificuldades editoriais e o livro saiu agora, justamente porque somente a Geração Editorial, de São Paulo, de um editor que também é jornalista (Luiz Fernando Emediato), se dispôs a fazer a publicação, porque sentiu a importância do livro. Eu entendo que o Antonio Carlos Magalhães está fazendo essa acusação, tentando desqualificar o livro e desviar a atenção dos leitores, e também porque deve ser usual da parte dele patrocinar matérias contra os inimigos.
OP - Outra crítica que se vê é que seu livro perderia a força pelo fato de o senhor ser um desafeto histórico do senador. Que por isso perderia a objetividade.
JCTG - Não sei se você já leu as memórias de (Charles) de Gaulle (general do Exército francês, um dos comandantes da resistência à ocupação da França pelos nazistas, eleito duas vezes presidente de seu país), de (Winston) Churchil (primeiro ministro do Reino Unido entre 1940-45), sobre a Segunda Guerra mundial. Eles traçam um retrato muito ruim do nazismo e de Hitler, seus inimigos mortais. Eles perdem a credibilidade no depoimento histórico deles? Antonio Carlos foi realmente um adversário cruel, que tentou de todas as formas destruir o Jornal da Bahia e me colocar na cadeia, numa época em que jornalista preso podia ser torturado e morto. Mas o livro trata de fatos concretos, que agora passam a ser do conhecimento do Brasil todo.
OP - Lendo o livro, fica-se com a impressão que, mesmo como uma antítese, a sua vida sempre esteve entrelaçada com a de ACM. Como isso se reflete psicologicamente na vida do senhor?
JCTG - O livro transcende o relato da briga.
OP - De qualquer maneira sua vida é marcada por esse confronto.
JCTG - Se você acha que foi pouco isso, em plena ditadura dos militares; um ditador tentar destruir o jornal em que eu trabalhava e me colocar na cadeia com base na Lei de Segurança Nacional. Se você tivesse um confronto contra um prepotente do Ceará, defendendo a liberdade de expressão e a sobrevivência de seu jornal, isso não marcaria profundamente a sua vida? Claro que sim.
OP - O seu livro foi muito pouco divulgado na chamada grande imprensa...
JCTG - É verdade.
OP - O senhor atribui isso a um suposto controle que ACM teria sobre os meios de comunicação?
JCTG - Eu acho que ele tem, para certos jornalistas, a importância de uma fonte de notícias porque ele conhece os bastidores do poder. Ele vive preparando dossiês contra os desafetos, que só usa quando tem o interesse contrariado, e portanto são instrumentos de chantagem política. Por outro lado, ele é também um aliciador de jornais e jornalistas. E a tradição de prestar favores para obter favores em troca, na carreira dele, é bastante conhecida. O caso (da multinacional japonesa) NEC (do Brasil), em que ele fez um empresário paulista, Mário Garnero, transferir a empresa para as mãos da Rede Globo, é bastante conhecido. Isso beneficiou muita gente da imprensa. Então, ele usa, inclusive os cargos que ocupa, para uma atitude de corrupção da imprensa no Brasil. Por exemplo, em relação à Veja, na Bahia, ele facilitou a instalação de um hotel para a editora Abril. Várias empresas jornalísticas do Sul disputavam lista telefônica, telefonia móvel.
OP - Como foi esse episódio do Observatório da Imprensa, um programa de crítica à mídia, que deixou de ir ao ar quando discutiria o seu livro?
JCTG - Na verdade, eu gostaria que você dirigisse essa pergunta mais a (Alberto) Dines (jornalista, editor do programa) que a mim. Pela informação que eu tenho, o Dines ficou preocupado com a posição do Fernando Barbosa Lima, um querido amigo dele de longa data, e um homem sempre identificado com as causas da liberdade de imprensa, porque ele, no mesmo dia em que o programa iria ao ar, estava assumindo a direção da TVE. Então, eles tiveram uma conversa. E houve uma pressão da TVE da Bahia, dizendo que não iria passar o programa, e o Dines se sentiu na obrigação de preservar o amigo de uma possível retaliação, ou de uma possível represália em virtude de o programa ir ao ar. Mas há a possibilidade desse programa vir a ser apresentado (NR, o jornalista Alberto Dines assume total responsabilidade pelo fato de o programa não ter ido ao ar. Suas explicações estão na internet, no sítio www.observatoriodaimprensa.com.br, de 7/2).
OP - No seu livro, o senhor traça um perfil tenebroso de ACM, mas não aborda, com mais profundidade, possíveis casos de irregularidades na formação do patrimônio do senador.
JCTG - Olha, se você leu o livro com atenção, vai verificar que o episódio da Magnesita (empresa da qual ACM era acionista, quando governador, e que teria recebido favorecimento fiscal, que foi objeto de manchete do Jornal da Bahia, em 16-17/7/1972) significou uma denúncia de corrupção administrativa....
OP - Eu li, mas digamos, seria essa uma denúncia tão grave?
JCTG - Os senhores gostariam, certamente, que eu revelasse no livro o número da conta que Antonio Carlos tinha nas Ilhas Cayman, com aplicações feitas pelo seu grande amigo e parceiro Ângelo Calmon de Sá (ex-proprietário do Banco Econômico, que faliu em 95). Isso evidentemente, eu não poderia apresentar. É um problema da Receita Federal. Só quero lhe lembrar que existe com o procurador-geral da República um dossiê que compromete seriamente a trajetória de idoneidade moral do senhor Antonio Carlos Magalhães na vida pública. Esse processo está barrado, como também o da Pasta Rosa (sobre supostos financiamentos de campanhas políticas feitas pelo Banco Econômico), denunciado claramente na imprensa, com declarações muito contundentes de uma juíza que estava acompanhando o processo. Por que esses processos não vão adiante, eu não sei. Outra coisa que eu gostaria de destacar: sabe-se que o senhor Antonio Carlos é um dos homens mais ricos do Brasil. Na área dos homens públicos, egressos de uma família de classe média simples e, de repente, tem essa fortuna. Ele enriqueceu como político, e deve explicar à opinião pública. Isso é um pressuposto claro de uma trajetória de corrupção.
OP - O Jornal na Bahia ficou sob fogo cerrado de ACM durante seis anos, de 1969 a 1975. Qual foi o momento mais crítico que o senhor e o jornal viveram?
JCTG - O meu enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Foi preciso contratar um advogado do Rio, um grande jurista, Heleno Fragoso, porque os advogados da Bahia estavam intimidados. Eu não tinha defesa, eu poderia ir para a cadeia, pegar até nove anos. Foi um momento crucial da luta do Jornal da Bahia com Antonio Carlos Magalhães.
OP - O senhor acha que é somente a intimidação e o medo que fazem com que o povo baiano continue apoiando ACM?
JCTG - Esse apoio é preciso ser entendido no contexto de uma opressão que se instaurou com a ditadura de 64 e com o domínio dos meios de comunicação que ele passou a ter quando conseguiu a programação da Rede Globo. Você pode ter uma idéia que esse domínio de Antonio Carlos sobre a consciência do baiano não é tão poderoso se se lembrar que Waldir Pires (PSDB) o derrotou em 86 (na disputa pelo governo do Estado), com quase dois milhões de votos de diferença, e que ele não conseguia fazer o prefeito da capital até a pouco tempo. O Waldir deixou o governo da Bahia antecipadamente, frustrou as expectativas que levaram os eleitores baianos a o elegerem com uma votação histórica.
OP - Aí não se incluiria também essa imagem que o senador passa a ser uma defensor intransigente da Bahia?
JCTG - Eu tenho uma frase, em que digo o seguinte: ele não gosta da Bahia, ele gosta do poder que a Bahia lhe dá. Quando ele não está no poder, sabota a Bahia de todas as maneiras. Você acha que se ele gostasse da Bahia, realmente, concordaria em que um deputado propusesse a mudança do nome do Aeroporto 2 de Julho, uma data que registra um fato histórico (ocorrido em 1823), mudando para o nome do filho dele (após a morte do deputado federal Luís Eduardo Magalhães)? Isso é um absurdo, toda a Bahia rejeita, e fala com medo, a voz pequena.
OP - Há um episódio, que o senhor toca no livro, sobre a morte de um genro de ACM, que foi apresentada como suicídio, mas houve contestação com relação à causa da morte.
JCTG - Outra coisa importante para frisar. A contestação não foi da oposição da Bahia, mas da mãe do morto. Eu comento no livro de uma forma alta, elevada. Eu também faço uma referência muito breve sobre o suicídio de uma jovem filha do Antonio Carlos, quando o Waldir ganhou as eleições. O que eu disse no livro é o seguinte: o rapaz, Juca Valente, estava em conflito com a esposa, filha de Antonio Carlos, chamada Tereza, e levou a moça ao Palácio de Ondina (sede do governo baiano, em 24/1/1975). Entrou vivo no Palácio e saiu morto. Foi encontrado nas escadarias do prédio onde morava com um tiro, que segundo a investigação imediata da polícia da Bahia, tinha sido conseqüência de suicídio. A família do morto não aceitou. A mãe ficou indignada e nomeou o advogado, José Carlos Baleeiro, que fez uma investigação profunda, com exames de balística realizados pelo Exército, e chegou à conclusão que a versão do suicídio era uma tremenda farsa da polícia baiana. Ele tentou investigar mais profundamente mas o processo foi tão nebuloso, que o advogado não pode desvendar o mistério."
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