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CIÊNCIA E SOCIEDADE
A ausência de Carl Sagan

Ulisses Capozoli (*)

Se estivesse vivo, Carl Edward Sagan completaria 68 anos em novembro próximo. Ele morreu em 20 de dezembro de 1996 deixando um vazio que não foi preenchido.

O século 20 teve muitos homens notáveis na relação entre ciência e sociedade. Nenhum com as características de Sagan. Até porque ele parece ter sido uma representação específica desta transição de tempos.

Fazer uma lista de homens da ciência que se importaram em traduzir conhecimento para o grande público talvez possa parecer abuso da paciência dos leitores. E, mais que isso, certeza de se cometer injustiças. Mas alguns casos podem sugerir como isso aconteceu e ajudar a destacar a singularidade de Sagan.

Einstein foi um homem profundamente preocupado com que as pessoas pudessem dar-se conta da natureza, beleza e necessidade do uso socialmente responsável de ciência. Einstein conhecia bem o potencial de aplicação da ciência para o bem e para o mal. Seu livro Como Vejo o Mundo, uma coletânea de artigos, palestras e opiniões, é evidência disso. Há quase que uma continuação dessas preocupações em Escritos da Maturidade, embora esta segunda obra seja um pouco mais técnica e, por isso mesmo, certamente abranja um universo menor de leitores.

Einstein escreveu uma carta pessoal ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, defendendo o desenvolvimento da bomba atômica. Foi uma reação ao medo de que a Alemanha nazista, eventualmente com a colaboração de Werner Heisenberg, chegasse primeiro a esta arma. O assunto ainda é tema de literatura, com desdobramento no cinema e no teatro, além de investigações na história da ciência.

Ainda que tenha sido um incentivador da bomba atômica, Einstein foi seu primeiro crítico. Premiado com o Nobel por investigações sobre o efeito fotoelétrico, Einstein produziu trabalhos científicos ininteligíveis para a grande maioria das pessoas, com a relatividade Restrita e Geral. Mesmo assim foi um homem conhecido e, ainda hoje, reconhecido por qualquer criança. O que explica sua popularidade?

Seus biógrafos, entre eles Abraham Pais, dizem que Einstein se importou com a humanidade, discutiu seus problemas como cientista e cidadão, tomou partido em questões políticas, econômicas e culturais e, por isso, de alguma maneira integrou-se ao mundo dos mortais, mesmo que a complexidade de seus trabalhos fizesse dele um olimpiano.

Para reconhecer a atualidade das preocupações de Einstein basta ler em Como Vejo o Mundo sobre temas parecem tirados das edições do final de semana: "Entrevistadores", "Sentido atual da palavra paz," "Como suprimir a guerra?" "Pacifismo ativo", "Civilização e bem-estar", "Produção e poder de compra", "Produção e trabalho", "Observações sobre a atual situação da europa", "Para a proteção do gênero humano", "discurso sobre a obra de construção da Palestina", "Carta a um árabe", "Métodos modernos de inquisição", "Fascismo e ciência"...

Cara enfezada

Fred Hoyle, astrofísico inglês morto há dois anos foi outro desses homens notáveis, ainda que menos conhecido que Sagan ou Einstein. Hoyle foi um rebelde do começo ao fim. Sua contribuição foi indispensável para se compreender a origem dos elementos químicos, forjado no interior das estrelas de grande massa. Um grupo de pesquisadores com quem trabalhou foi agraciado com o Nobel por esta descoberta. Hoyle ficou de fora. E, às vésperas de sua morte, disse não esperar ver suas idéias reconhecidas em vida.

Uma dessas idéias é a retomada da Panspermia, teoria segundo a qual a vida não é uma característica exclusiva da Terra, ao contrário. Para Hoyle, da mesma forma que para Svante Arrhenius, físico-químico sueco e também Prêmio Nobel, a vida instalou-se na Terra vinda do espaço profundo. Nada parecido com o que sugerem ufólogos. Um processo complexo, semelhante ao de sementes espalhadas pelo vento, trouxe do espaço interestelar esporos para a Terra e aqui eles se desenvolveram como as semeaduras em solo fértil.

Hoyle escreveu obras de divulgação, produziu ficção científica e fez palestras radiofônicas – uma forte tradição inglesa para popularizar ciência. Foi ele quem cunhou, numa palestra em rádio, a expressão Big Bang para referir-se à teoria cosmológica em vigor.

Georg Gamow, físico russo naturalizado norte-americano, também preocupou-se em informar o público leigo enquanto sustentava discussões acaloradas com seus pares sobre os mais diferentes assuntos. Entre outros, o eco fóssil da explosão (Big Bang) que criou o universo. Esse rádio-ruído cósmico, previsto por Gamow, captado em 1964, rendeu o Nobel para seus descobridores surpresos e involuntários: Arno Penzias e Robert Wilson.

Um de seus livros, Biografia da Terra, sofreu uma bateria de críticas. Gamow acatou o que lhe parecia inteligente e produtivo e, com disposição e humor incomparáveis, retomou o trabalho.

A diferença entre esses três homens notáveis e Carl Sagan é que Sagan, mais que nenhum deles, utilizou a mídia de massas para ensinar ciência. Sua série Cosmos foi feita para a televisão e percorreu o mundo seduzindo corações e mentes.

Hoyle, com cara quase sempre enfezada, não era um tipo para a TV. Einstein morreu antes que a televisão fosse um veículo de massas. Gamow, morto em 1968, também é da fase pré-TV de massa e, além disso, como Hoyle, não era um sujeito bonitão.

Restringir os méritos de Sagan ao seu talento comunicativo, no entanto, é reduzir a importância de sua contribuição para o mundo da ciência e da divulgação. Um livro recém-lançado, parceria entre a Universidade de Brasília e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, O Universo de Carl Sagan, é prova disso, além de boa oportunidade para se retomar o legado deste homem e cientista fascinante.

Aquecimento global

Em Destaques do Programa Planetário Russo, de Roald Sagdeev, cientista russo que emigrou para os Estados Unidos, Sagan é mostrado com toda sua sedução, determinação e crença em unir os esforços da Terra para avançar no espaço, em direção a outros mundos. James Randi, em Ciência e Pseudociência, é outra leitura quase obrigatória nestes tempos de simplificação infantil.

Mas o próprio Sagan, em seu último trabalho em vida, O Mundo Assombrado pelos Demônios – A Ciência Vista como Uma Vela no Escuro, mais que em qualquer outro, revela suas perspectivas. O Mundo Assombrado pelos Demônios certamente é a obra mais amargurada de Sagan. Aí ele expressa, como cientista e cidadão, a frustração pela impotência da ciência em sensibilizar o conjunto da humanidade e prevê a possibilidade de uma religião científica. Uma religião com base em ciência, mas sem ser ciência, disputando espíritos desnorteados à procura de um porto que ao menos pareça seguro.

Einstein, Hoyle, Gamow e, mais proximamente Sagan, demonstraram indignação e desejo de superação de situações como a guerra, onde cada um deles teve uma experiência particular. Sagan é um pacifista na Guerra Fria, o que o coloca junto a uma geração que ainda vive, trabalha e reflete dolorosamente sobre as dificuldades do presente. É o caso do conteúdo da matéria publicada pelo Estado de S. Paulo (21/4, pág. A 26), sobr o chapéu "Guerra ao terror" e título preocupante: "Batalhas que serão bailados de máquinas". A idéia em desenvolvimento é que a destruição e morte, cada vez mais, serão executadas de maneira asséptica. Um guerreiro, independente das razões de sua batalha, estará cada vez mais distante da fisionomia de dor e sofrimento de sua vítima, ferida ou em agonia. Tudo será como num videogame, sem sentimento de culpa, porque inteiramente desvinculado de sua humanidade/desumanidade.

E não só um terçar de armas. Também um jogo de pressão nos bastidores, como o que retirou o diplomata brasileiro José Maurício Bustani (Veja nº 1749, 1/5/02, páginas amarelas) da diretoria geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq). Ou da pressão sobre o atual presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, duramente criticado nos últimos dias pelo secretário de Tesouro dos Estados Unidos, Paul O’Neill. Desde que assumiu, o secretário vem fazendo pressão sobre o banco para reduzir investimentos sociais. O Banco Mundial está longe de ser um bom exemplo de como políticas econômico-ambientais devam ser feitas. Mas as repetidas críticas de Wolfensohn, ao que considera equívocos do banco, parecem ter sido o bastante para incomodar o secretariado de Bush.

Isto sem falar que os Estados Unidos vetam seu próprio representante, o climatologista Robert Watson (Folha de S.Paulo,20/4/02, pág. A16) à reeleição para a presidência do IPCC (Painel Intergovernamental Sobre Mudança Climática). O indiano Rajendra Pachauri foi escolhido com apoio indireto dos Estados Unidos. Watson, um cientista respeitado, lançou repetidos apelos ao governo de seus país sobre o perigo da emissão descontrolada de gás carbônico para o aquecimento global. Transformou-se num indesejável.

Daí a falta que faz um homem com a dimensão de Carl Sagan. Mais que os outros notáveis referidos neste escrito, ele percebeu as necessidades dessa transição de século/milênio. Foi nosso contemporâneo na queda do muro e nos falou da Terra vista à distância em Pálido Ponto Azul, como uma maneira de referir-se ao que de fato interessa: a preservação da humanidade em condições humanitárias. Sagan foi muito mais importante para a mídia que se pode imaginar à primeira vista. Daí o vazio de conteúdo deixado com sua morte.

Carl Edward Sagan tocou em muitas questões. Falou, por exemplo, de ciência e falsa ciência. Mas sem o reducionismo que nestes tempos difíceis confunde inteligências medíocres. Talvez por isso tenha sido duramente criticado após a morte, sob o freudiano pretexto de que "não produziu ciência". Como se vê, a inveja é capaz de qualquer coisa.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil


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