01/07/2003 2/2

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MÍDIA & UNIVERSIDADES
A boa hora de uma parceria
(*)

Luiz Carlos Franco Junior (**)

Numa era em que as mudanças sociais ocorrem com a velocidade dos bits, em que as barreiras de comunicação caem quase que à velocidade da luz, a parceria entre os meios de comunicação e a universidade tornou-se fundamental. E se as descobertas são rápidas, o parceiro ideal para a divulgação delas é o rádio.

Mas será que as emissoras brasileiras estão preparadas para este tipo de notícia ? Será que as universidades estão aptas a transmitir os seus conhecimentos para os veículos de comunicação ?

É importante ressaltar que a parceria entre universidades e rádios tem sido incentivada em vários países desenvolvidos e é, sem dúvida, a grande responsável pelo desenvolvimento tecnológico de várias áreas do conhecimento.

Um exemplo clássico desta parceria é a BBC de Londres, que possui programetes específicos de ciências, que são distribuídos para vários países cobertos pela rede britânica de notícias. Porém, em nosso país, ainda perduram enormes barreiras a serem removidas para que essa parceria se torne realidade e presente.

Programa de rádio x divulgação das universidades

As notícias de Ciência e Tecnológica necessitam de tratamento diferenciado. No início da ciência moderna, os cientistas buscavam público para seus experimentos, queriam reconhecimento, testemunhos cognitivos. Hoje, a ciência tem um sistema próprio de comunicação interna, circula entre pares e os pesquisadores montam redes de relações que não atingem o público leigo. Mas como transformar esses detalhes técnicos em notícia para a grande massa ? Nesse momento é que surgem os ruídos de comunicação, que desgastaram significativamente o início desse processo de parceria entre universidade e o rádio.

Não foram poucos os cientistas que desqualificam a mídia como instrumento de legitimação social e tiveram uma visão negativa da popularização da ciência. Depois, as assessorias de imprensa estão organizadas em formatos que pouco atendem às necessidades do mercado de informação. Abrigam profissionais com pouca vivência e trânsito no mundo da ciência e da notícia e que, por isso, desenvolveram discursos fora da realidade.

Tem-se, assim, na comunidade científica, um quadro pouco favorável à comunicação entre as duas comunidades. Considerando esses fatos, é fácil entender porque a ciência e a tecnologia ocupam menos de 3% do total de espaços destinados à notícia pelas emissoras de rádio; e, de outro, fica evidente a necessidade de capacitação de recursos humanos para atender à demanda da mídia por informações de natureza científica e tecnológica.

Num artigo publicado pela Universidade de Taubaté exemplifica muito bem esse dilema. O texto coloca mais uma questão: a capacitação interna precisa levar em conta que o desafio é menos técnico e mais estratégico. Ou seja, não adianta refinar as técnicas de comunicação sem se questionar o modelo de gestão das informações. É preciso introduzir a cultura do planejamento, que passa, entre outras coisas, pelo conhecimento profundo da natureza dos veículos, pela mobilização interna de toda a comunidade de pesquisadores, pelo estabelecimento do sentimento de urgência e, principalmente, pela construção de um discurso de "venda" do produto Ciência e Tecnologia.

Por isso, inúmeras universidades perceberam esse grave problema e reestruturaram os sistemas de comunicação interna com ênfase na gestão estratégica. Em pouco tempo, proporcionaram um aumento significativo na mídia, das pesquisas produzidas na universidade. Mas isso não é tudo: empresas públicas e privadas, pela força de agendamento do material publicado, procuraram essas universidades para o estabelecimento de parcerias em questões bem pontuais, como agricultura, apicultura, biologia molecular e meio ambiente.

Hilary Rose, reconhecida pesquisadora britânica, cunhou uma metáfora muito sugestiva para referir-se à divulgação de pesquisas científicas pela mídia: longe de portar-se como mera observadora, a imprensa promove e alimenta a valorização de uma pluralidade de Moisés (cientistas) autoritários, que descem da montanha portando (a verdade) as tábuas da lei.

É difícil ler o que os grandes jornais diários publicam sobre "ciência" sem pensar nesta imagem: muitos jornalistas (deliberadamente ou não) promovem os cientistas como portadores da verdade indiscutível sobre a natureza -certamente ainda influência do nosso imaginário sobre ciência, proveniente da Igreja Católica medieval, que consagra santos (os gênios), milagres (descobertas) e lugares sagrados (laboratórios).

Quantidade x qualidade

As informações citadas neste espaço provêm da base de dados "Olhar sobre a mídia" mantida pela Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), com o objetivo de monitorar a publicação de matérias sobre saúde reprodutiva e sexualidade nos quatro principais jornais brasileiros (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e, do Rio e Janeiro, Jornal do Brasil e O Globo). No livro lançado pelos pesquisadores em 2001, foram analisados os dados de um período de dois anos.

A Comissão acumulou recortes de 4.636 matérias, que ocupam o considerável espaço de 332 mil cm/coluna, equivalente a mais de 1.100 páginas de jornal, distribuídos por categoria temática. A conclusão mostra outro detalhe muito importante da relação entre Ciência e Tecnologia e a mídia.

"A tradução do texto científico em linguagem jornalística resulta muitas vezes em excessiva simplificação, essencialismo e sensacionalismo, distorcendo títulos e conteúdos, ignorando muitas vezes as calorosas controvérsias no meio acadêmico divulgadas nos periódicos científicos. Transformam-se, assim, verdades provisórias em descobertas definitivas. Por traz do tão alardeado objetivo científico, o que se observa freqüentemente é a divulgação apressada e às vezes leviana de noticiário científico questionável sob muitos aspectos.

As matérias jornalísticas analisadas, além de ignorarem a produção das ciências sociais sobre saúde reprodutiva, deixam transparecer possíveis distorções de gênero, tanto na escolha quanto na retradução das notícias, ao mesmo tempo que reforçam a visão estereotipada de "ciência" como espelho da realidade. O que pode nos levar a supor que a mídia, além de reconhecer apenas uma das vertentes explicativas da "natureza", ainda provoca distorções nas imagens que reflete".

O interesse genuíno da opinião pública pela ciência já foi constatado no Brasil desde 1987 com a pesquisa do Instituto Gallup. Num universo de 2.892 pessoas entrevistadas, 70% mostraram interesse por C&T. Disseram que as informações veiculadas na mídia eram insuficientes e defenderam a ampliação dos investimentos em ciência do Produto Interno Bruto (PIB), para 5%, bem mais do que os países desenvolvidos, que aplicam cerca de 2 a 3%. Ainda hoje, esses recursos ainda representam 1,2 % do PIB.

Dentro deste cenário, o fato é que a mídia vem fazendo a sua parte. Nos jornais, nas revistas, nas emissoras de rádio ou de televisão surgem freqüentemente novos espaços para a divulgação dos avanços da ciência e da tecnologia. O que ocorre é que esses espaços não são ocupados de uma forma crítica e analítica. Limitam-se, apenas, a reproduzir o produto, sem sequer mostrar seu processo com os erros e acertos que fazem parte de qualquer pesquisa. Este comportamento termina por produzir uma visão mítica e limitada da ciência e em poucos programas encontramos uma reflexão sobre os caminhos e perspectivas da ciência e da tecnologia.

Contraponto: utilização das notícias de rádio na sala de aula

Antes da criação de programas específicos no rádio para a divulgação de Ciência e Tecnologia, foi preciso romper o abismo que separava as universidades das emissoras. Partindo do princípio de que comunicação e educação ocorrem no processo de troca de informação e na interação entre os indivíduos, o trabalho com os veículos de comunicação de massa começou nos últimos anos a ser desenvolvido em sala de aula e ficou comprovado que ele contribui para a complementação do conteúdo estudado nos livros didáticos, além de enriquecer o aprendizado.

De acordo com o educador Paulo Freire, a comunicação e a educação são conceitos muito próximos. Freire enfatiza essa proximidade no livro "Pedagogia do Oprimido", quando cita:

"A dialogicidade é a essência da educação como prática da liberdade (...) e o diálogo nada mais é do que uma forma de comunicação". (p. 101)

A relação entre a educação e a comunicação também se dá no âmbito histórico. O comunicador e professor Edson Gabriel Garcia comenta em seu artigo "Comunicação e Educação: campo e relações interdisciplinares":

"(...) são campos com visibilidade dos seus respectivos corpos sociais. Ainda que o corpo social tenha mobilidade histórica e possa ter uma mesma época chaves de compreensão e leituras diferentes, os discursos, os gestos e os comportamentos de educadores e comunicadores ancoram-se em bases diferentes" (p.3).

O Rádio, como veículo de comunicação de massa, nesse contexto, pode servir para abrir a discussão dos assuntos em sala de aula e atualizá-los, já que os livros didáticos não apresentam a temporalidade dos noticiários. Apesar de não obedecerem a um padrão pedagógico, os meios de comunicação contribuem para uma educação mais reflexiva, que vai além do estipulado pelos padrões do MEC (Ministério da Educação e Desportos).

Os valores éticos são a base de sustentação de princípios como a democracia e a liberdade. Isto refletiria diretamente no conceito de igualdade entre os homens. O comunicólogo e professor da USP, José Miguel Wisnik, entende que a mídia é uma "poderosa fábrica de construir e desconstruir contextos". Segundo ele, somos levados a crer - pela boa fé - no conteúdo, por exemplo, do jornal impresso como sendo a realidade dos fatos.

Outro erro muito comum cometido pelo jornalista é avaliar a descoberta científica pelo seu potencial de apelo sensacionalista como notícia. Mesmo com equívocos constantes, o ideal é que a mídia não seja excluída dos resultados dos estudos e descobertas. Neste momento não basta apenas verificar as notícias no aspecto quantitativo, pois é preciso aprofundar um pouco mais a análise e fazer estudos de conteúdo, avaliar a qualidade do que é comunicado, e esses estudos ainda precisam voltar para as fontes.

Aí surgem outros obstáculos. Os estudos de Ciência e Tecnologia muitas vezes são contatos em anos.. décadas de pesquisa que precisam ser resumidos, traduzidos e entendidos em poucos segundos de espaço dado nas emissoras de rádio.

Para aqueles que acreditam que o problema de comunicação entre universidades e a mídia é por culpa, única e exclusiva, dos veículos, recorro ao trabalho do professor Fernando De Maria, jornalista e professor do curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília.

A universidade comunica mal

Responsáveis pela formação da metade dos doutores e de cerca de 1/3 de mestres no país, as universidades públicas paulistas (USP, Unesp e Unicamp) não têm uma política de comunicação externa eficaz voltada para os anseios da imprensa especializada em Ciência e Tecnologia nacional. Com isso, a produção científica realizada nestas instituições acaba não chegando, de forma eficiente, às mãos dos jornalistas deste segmento jornalístico, restando a eles optar, muitas vezes, pelas informações provenientes de agências de notícias internacionais.

Esta é uma das conclusões da minha dissertação de mestrado, defendida e aprovada na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo (Umesp), em 3 de fevereiro. Sob o título "Dos laboratórios universitários à mídia (A divulgação científica nas universidades públicas paulistas)", o estudo aponta falhas existentes no processo de comunicação que prejudicam a divulgação da produção científica nestas instituições.

O objetivo do trabalho foi o de descrever e analisar as estruturas das assessorias de comunicação das três instituições, avaliando pontos positivos e negativos, ouvindo, em especial, jornalistas de Ciência e Tecnologia, ou seja, os primeiros receptores das informações científicas. Com as deficiências apontadas percebe-se que a sociedade, financiadora destas instituições, é quem mais perde, pois muitos dos estudos poderiam ser de conhecimento público caso fossem mais bem divulgados.

Um dos pontos mais criticados pela imprensa segmentada é a falta de contatos das assessorias com a imprensa, para tentar "vender" uma reportagem. Ao contrário das organizações particulares, nas públicas os contatos das assessorias com as redações é praticamente inexistente. Outro ponto abordado é a falta de segmentação das informações. As assessorias costumam enviar seu material de divulgação sem critérios pré-estabelecidos. A segmentação das informações de acordo com as características do veículo e do jornalista inexiste. Com isso, um assunto que pode ser útil a um repórter de Economia acaba sendo encaminhado a outro, de Cultura, por exemplo. E assim, o cesto do lixo é, invariavelmente, o receptor da informação.

Reconheço a preocupação que as instituições estão tendo para aprimorar suas deficiências, criando grupos de trabalho para difundir internamente estudos, palestras e projetos, como é o caso da Universidade de São Paulo (USP). No entanto, a falta de profissionais e a escassez de recursos dificultam atingir plenamente os objetivos.

O setor de comunicação de cada instituição tem suas peculiaridades. A situação é complexa na Unesp (Universidade Estadual Paulista), devido a seu caráter multicampi (são 15 unidades espalhadas pelo interior), sem que haja um profissional de imprensa em cada um destes locais. O setor de imprensa fica na sede da universidade, na capital.

A USP, a maior universidade da América Latina, dispõe de dois setores para tratar da comunicação - a assessoria de imprensa do reitor, que trata somente das questões inerentes à direção da instituição - e a CCS (Coordenadoria de Comunicação Social), responsável pelo Jornal da USP, a Revista USP, a Rádio USP, a Agência de Notícias USP, a TV USP e o Banco de Dados/Espaço Aberto, além da Central de Informações e da participação no USPOnline, hoje sob responsabilidade da professora Cremilda Medina.

Sob coordenação da professora da ECA (Escola de Comunicação e Artes) Margarida Kunsch, foram criados grupos de divulgação em cada unidade de forma a fomentar com informações a produção científica das unidades. A medida permite um contato maior entre cientistas e jornalistas. Apesar de ainda não ser o ideal, é melhor do que era há uma década, por exemplo.

Os jornalistas de Ciência e Tecnologia, no entanto, reclamam da estrutura de comunicação da universidade, considerada "caótica". O trabalho conclui que falta à CCS maior integração com a ECA/USP, para que os alunos participem dos produtos de comunicação da universidade.

A Unicamp foi a menos criticada pela imprensa especializada. Em especial porque os profissionais lá atuam em conjunto há anos. Além disso, a universidade está em Campinas, uma cidade de grande porte onde estão sucursais dos principais veículos de comunicação do país. A Unicamp é uma fonte obrigatória para todos os jornalistas de Campinas, ao contrário da USP, que é uma fonte importante como qualquer outra para a imprensa.

Em meu trabalho, com 190 páginas, foram entrevistadas 33 pessoas, em forma de questionário semi-estruturado, incluindo assessores-jornalistas, cientistas, jornalistas, reitores das três instituições e representantes dos cientistas. Também foram ouvidos representantes de organismos ligados ao setor de Ciência e Tecnologia, como o secretário estadual, José Aníbal, e o diretor presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que abordou as estratégias de comunicação adotadas pelo órgão para melhor difundir a ciência.

Da imprensa especializada foram entrevistados os jornalistas Alfio Beccari (editor da Galileu), Flávio Dieguez (editor da Superinteressante), Daniel Hessel (editor de C&T da revista Veja), Marta San Juan (editora de C&T da revista Época), Hélio Gurovitz (editor de Mundo Digital, da revista Exame), Rita de Cássia Camacho (editora do jornal Diário do Grande ABC), Lígia Formenti (repórter de Saúde e C&T de O Estado de S. Paulo) e Peter Moon (editor de C&T da revista IstoÉ).

(*) Publicado originalmente no sítio Science.net (www.sciencenet.com.br), edição nº 45, junho de 2003

(**) Jornalista da Rádio Auriverde, Bauru (SP)

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