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OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
AIDS NA ÁFRICA
Dança à espera da morte
Rosane de Bastos
As notícias sobre ciência e saúde publicadas pela imprensa geralmente não dizem a que vieram. O caso mais recente, que suscitou várias reportagens, impressas e eletrônicas, é mais um exemplo da confusão que esse tipo de assunto gera na cabeça dos leitores. O espetáculo, desta vez, girou em torno da aprovação de uma medida que permite aos doentes de Aids do continente africano receberem medicamentos a preços mais baixos.
Nos textos encontravam-se números e porcentagens que dão à África uma espécie de orgulho por abrigar 70% dos aidéticos do planeta – 25,3 milhões dos atuais 36,1 milhões de pessoas contaminados pelo vírus HIV. O lamentável, nesses casos, é que a mídia brasileira torna-se uma mera repetidora de informações, sabe-se lá com que grau de confiabilidade, atém-se mais a fontes oficiais, transcreve falas entre aspas e, certamente, deixa o leitor atento à beira de um ataque de nervos.
Uma das matérias, veiculada pelo jornal O Globo [20/4/01], logo no título avisa: "Vitória dos doentes de Aids". Aborda, no início, o embate entre o governo sul-africano e 39 indústrias farmacêuticas que vendem medicamentos para o tratamento da doença na região, as quais tinham entrado com um processo contra o governo local por serem desfavoráveis ao barateamento das drogas. Enquanto na Corte de Pretória, capital da África do Sul, ocorria uma reunião decisiva, a matéria mostra que, do lado de fora, assim que soube do
recuo dos empresários, "uma multidão comemorou a vitória dançando e cantando".
Na metade do mesmo texto, informa-se que os 4,7 milhões de infectados pelo vírus da Aids na África do Sul – pasme! – não terão garantia de tratamento. "Além disso, ainda que os preços sejam reduzidos, continuam fora do alcance [os remédios] dos sul-africanos e de seus vizinhos no continente", está escrito. Mas e a festa, a dança, a contradição? No último parágrafo, o repórter escreve que as ONGs Médicos Sem Fronteira e Oxfam anunciaram que "pela primeira vez, o direito à vida foi colocado à frente do direito do lucro" [???].
Impressas ou pela internet, essas notícias apenas confundem o leitor, mas seguem a existir como se fossem urgentes, simplesmente porque pipocam quando determinados eventos são realizados – a exemplo do encontro de ministros da Saúde da África, representantes de ONGs e de portadores do vírus da Aids, dias 26 e 27 de abril, em Abuja, capital da Nigéria, para debater o problema. O fato mereceu o mesmo enfoque pobre de sempre.
Um dos textos, produzido pela Reuters e publicado pela Folha de S.Paulo [23/4/01] sob o título "Aids impulsiona epidemia de tuberculose na África, diz ONU", realçou que também aumentam os casos de tuberculose na África e estes deverão duplicar em dez anos, principalmente entre os aidéticos, mais suscetíveis a doenças oportunistas. Mas os dados são apenas superficiais e sequer ouviu-se pelo menos um pesquisador ou um profissional da área de saúde. Os relatórios são as fontes mais citadas.
Depois de ser inundado com informações dessa natureza, o leitor deve ficar com a sensação de que leu, ao invés de uma notícia, uma espécie de romance, em que os povos africanos não receberão os medicamentos para sobreviver à Aids, mas simplesmente mantêm o seu ritual milenar, em que cantam e dançam, sempre do lado de fora, à espera da confirmação da morte. Com direito, agora sim, a toda encenação orquestrada pela mídia, com o provável título: "Vitória da ignorância sobre a vida".
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