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BIOTÉCNICAS
Os "filhos da ciência" na TV brasileira
Fátima Oliveira (*)
A novela global Barriga de aluguel abordou, na década de 1990, os populares "bebês de proveta" e uma de suas decorrências sociais, jurídicas e éticas mais complexas ainda hoje, o empréstimo ou aluguel de útero. Laços de família (2000), também da Rede Globo, abordou o transplante de medula óssea como uma das possibilidades de cura para a leucemia, contando a história de uma mãe que geraria um bebê tão-somente para tentar salvar a vida de outra filha. É a arte imitando a vida, pois casos semelhantes têm ocorrido em diferentes partes do mundo.
Em 2002 estamos telespectando, com um misto de fascinação e medo, a O clone – outra novela do "padrão globo de qualidade", cenário onde as discussões sobre a clonagem humana giram no entorno de Léo, um clone humano, oriundo da clonagem tipo Dolly (cujo nome, em "homenagem" aos seios da cantora country americana Dolly Parton, não é uma lisonja, mas a personificação da misoginia). Irreal e virtual – como era de se esperar, só mesmo em novela –, escapou da possibilidade de não vir a ser um embrião clonado, já que é dado científico que só muito excepcionalmente uma célula clonada torna-se um embrião: para fazer Dolly, foram usadas 227 células, porém só 27 se transformaram em embriões. Mas Léo também escapou da "síndrome das crias", nascendo, aparentemente, sem "defeito de fabricação" – estima-se que apenas de 1% a 5% dos embriões clonados tornem-se adultos saudáveis e, em geral, quando adultos, manifestam alguma anormalidade. Dolly parecia saudável, mas já está toda entrevada, com artrite!
Lamentavelmente, Barriga de aluguel, mesmo tendo, de certa maneira, tornado populares as discussões sobre os bebês de proveta, não veiculou opiniões críticas sobre a temática e nem mesmo expôs a necessidade de a sociedade exercer controle social e ético sobre tais práticas. Naquela época as Clínicas de Reprodução Humana Assistida estavam se consolidando no Brasil, e a Fivete (Fertilização In Vitro e Transferência de Embriões) – tecnologia básica das várias que hoje compõem a "fabricação" dos chamados "filhos da ciência" – chegou ao imaginário de amplas massas populares, como convém a uma nova tecnologia em medicina em franco processo de expansão. Isto é, em busca do "mercado". A novela citada passou ao largo de polêmicas e vazios científicos, sobretudo dos riscos e problemas para a saúde da mulher e do bebê, temas até hoje carecendo de maiores estudos, mas conseguiu firmar a visão de que se trata de um procedimento inócuo, tão simples quanto beber um copo d’água de fonte sabidamente limpa.
Ledo engano.
Em Laços de família, o centro da trama não era uma ampliação do conhecimento e da consciência sobre o câncer, como parecia à primeira vista, mas uma apologia, subliminar, da manipulação de células-tronco, que têm a capacidade de se desenvolver e se especializar. Hoje, não há dúvida: Laços de família pode ser considerada uma introdução ao debate posto em O clone – que a novela não tem conseguido realizar.
Omissão até no superficial
Clonagem humana versus "clonagem terapêutica" – conceitualmente, o uso de células-tronco para, hipoteticamente, "fabricar" de órgãos completos a substâncias para doenças graves, mas que traz em seu bojo a sedimentação do mercado da "medicina de aprimoramento", com o uso de "produtos" das células embrionárias. Tudo também com vistas ao estabelecimento de uma proposta eugênica, a produção de seres humanos com pedigree, cujo alicerce doutrinário é racista.
Mas o que temos em O clone que torna a novela omissa e sem ética em relação à responsabilidade como espaço privilegiado de divulgação científica? Simplesmente o fato de que, segundo as pretensões da autora, Glória Perez, a novela enfocaria, em meio a entretenimento, um debate científico e ético visando aumentar a compreensão das pessoas comuns sobre tais "coisas novas". Levemos em conta, ainda que breve e pontualmente, que a referida novela aborda as potencialidades da junção de duas novas biotecnologias: FIV (Fertilização In Vitro) e clonagem. E deixa, nas entrelinhas, a possibilidade de que a ambas poderia ser agregada mais alguma coisa que as tornaria, isoladamente ou em conjunto, explosivas: a manipulação da molécula da vida – o DNA! Como dá para imaginar, "né brinquedo, não!" Quem tiver a curiosidade de acompanhar a novela, ainda que esporadicamente, perceberá que o que está sendo veiculado está longe da intenção.
O que causa espanto é o fato de O clone sequer tem conseguido explicar, com propriedade, questões básicas da genética, como o estudo da hereditariedade, atualmente com dois campos, o clássico ou mendeliano e o molecular; das NTRc (Novas Tecnologias Reprodutivas conceptivas), que fabricam "bebês de proveta"; e o que é mesmo clonagem – um processo de reprodução assexuada (ou reprodução que prescinde do "sexo") que ocorre na natureza (vide gêmeos univitelinos), mas também uma biotecnologia através da qual são produzidas cópias de células ou de genes. Enquanto biotecnologia, a clonagem pode ser clássica ou tradicional (1952) – necessita do gameta feminino e do masculino (óvulo fecundado por espermatozóide); e clonagem tipo Dolly ou de última geração (J. B. Gurdon, 1962/Reino Unido – pesquisa com girinos; e Ian Wilmut, 1996 – pesquisa com ovelhas), que não necessita do gameta masculino, pois usa o núcleo de uma célula somática "adulta" (diferenciada) que contém a totalidade do patrimônio genético que possibilita gerar um novo ser.
Ora, veicular informações sobre clonagem humana num meio de comunicação de massas, como a TV, deveria presumir pelo menos a preocupação de indicar, em algum momento, que o criador de Léo pode ter cometido um crime, e não apenas uma infração ao código de ética da comunidade científica. Albieri cometeu um crime ou só infringiu uma norma ética? Ele é um cientista brasileiro, de um país onde a clonagem humana, pela Lei nº 8.974, de 5 de janeiro de 1995, a chamada Lei de Biossegurança, é proibida. Para alguns, até criminalizada, embora haja diferentes interpretações de vários e renomados juristas. Além disso, tramitam no Congresso Nacional cerca de sete projetos anticlonagem humana.
Não caberia à Globo focalizar, mesmo que superficialmente, tais assuntos?
Erro de programação
Sendo os canais de TV no Brasil concessões públicas, sem desrespeito ao processo e à autonomia de autoria (liberdade de expressão) de uma obra, mas em nome da divulgação e da popularização da ciência da maneira séria a que temos direito, caberia em O clone que as modernas biotécnicas (clonagem, engenharia genética, genômica e proteômica) aparecessem, mesmo em obras de ficção, como elas de fato são no momento. Isto é, que ocupassem na novela o lugar que lhes cabe, como bem disse Ian Wilmut, co-autor do livro Dolly, a segunda criação:
"De fato, não deveríamos ver a clonagem como uma tecnologia isolada, unicamente direcionada para a replicação de animais de criação ou pessoas. Ela é a terceira personagem de um trio que começou a ser desenvolvido inicialmente na década de 1970. Cada uma das três, por si, é notável; juntas, conduzem a humanidade a uma nova era – tão significativa, como o tempo mostrará, quanto a transição de nossos antepassados da era do vapor, do rádio, da energia nuclear (...) O ponto em questão a ser tratado aqui é que a união das três tecnologias – a engenharia genética, a genômica e a clonagem – forma uma combinação realmente poderosa (...) De maneira geral, os comentaristas estavam certos em observar que, em princípio, qualquer coisa que possa ser feita com ovelhas também poderia ser feita com gente; mas, em sua grande maioria, não perceberam que a clonagem, per se – a mera replicação –, é somente uma fração do que em princípio poderia ser feito." (Professor Ian Wilmut e Dr. Keith Campbell, Objetiva, 2000).
Sendo a clonagem uma biotecnologia que conceitualmente é uma réplica, a clonagem clássica de embriões humanos coloca em cena inúmeras preocupações éticas e nenhuma novidade técnica, posto que é conhecida desde 1952. Mas Albieri produziu um humano, o Léo, via clonagem tipo Dolly, superando assim inúmeros paradigmas científicos e éticos, pois na era pré-Dolly consideravam-se éticas a clonagem clássica e a manipulação genética de células somáticas humanas, pois se acreditava que era o limite do aceitável e do possível, já que os "deuses da ciência" não estavam criando seres humanos sem o concurso dos gametas. A chegada de Dolly rompeu tais barreiras científicas e éticas. Mas em O clone as únicas celeumas são de origem religiosa, e se movem mais no veio dos raros debates filosóficos rasteiros, e de péssima qualidade, entre ciência e duas religiões (católica e muçulmana), como se apenas elas fossem as detentoras do monopólio da verdade e da ética, do que com a intenção de levar ao público leigo, diversificado e plural, o que é mesmo a clonagem, seus usos, abusos e problemas!
Agindo assim, a Globo – uma concessão pública, não custa relembrar – toma o partido da clonagem humana, sufocando e não possibilitando o debate sobre questões científicas irrefutáveis no campo da biossegurança, como os "monstrinhos genéticos" criados pela clonagem tradicional, que causam polêmicas científicas e éticas infindáveis desde 1980, época em que a Granada Biosciences, dos EUA, interrompeu testes com clones de embriões bovinos, após centenas de implantes em vacas, porque 1 em cada 5 bezerros era maior que o normal e 1 em cada 20 era gigante. Durante o primeiro semestre de 1999, em meio a previsões precipitadas, hipóteses em busca de confirmação e um dado da realidade, reacenderam-se as discussões sobre a clonagem em humanos, calcadas em evidências fortes de que há ainda muita ignorância sobre os efeitos da clonagem a curto e médio prazo. A longo prazo ninguém se arrisca a fazer previsões.
Tudo veio à tona com a morte precoce de Marguerita, a vaca francesa tipo Dolly – aparentemente normal ao nascer, morreu de anemia com apenas sete semanas de vida. A autópsia revelou que o baço e os nódulos linfáticos não se desenvolveram normalmente. Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França, cujos estudos são considerados pelos meios científicos os mais consistentes da era pós-Dolly, levantaram a hipótese da ocorrência de um erro na reprogramação genética – um dos possíveis problemas da clonagem tipo Dolly, efeito que só a observação mais longa e cuidadosa poderá comprovar.
O direito de cobrar
Fora aquele "ar", lindamente zen... sorriso infantilizado e olhar enigmático, que não constituem defeitos, apenas puro charme, o fato de Léo ter se tornado, de longe – já que de perto ninguém é normal –, um adulto normal, omite que a clonagem em geral gera mais "monstrinhos genéticos" do que seres saudáveis.
Como sabemos, e não é segredo, a clonagem ainda é uma biotecnologia insegura. Mas, na telinha da Globo, aparentemente, o único porém que Léo apresenta enquanto clone, a meu ver, é que o DNA dele é um baú de lembranças! Concretamente, ele "vê coisas" das quais se lembra... sem saber de onde, de quando e nem por que, o que explicita que o DNA (só dos clones?) guarda memória de vidas passadas, dado ainda não comprovado pela ciência, embora se saiba que o DNA é imortal, posto que é eterno e elo de ligação entre todos os seres vivos.
Aqui cabe um reparo: não comprovado pela ciência não significa que não exista, todavia, no caso em discussão, mesmo sendo uma obra de ficção. Num momento em que o debate sobre clonagem humana é acirrado, não custava nada, em nome da função social da mídia, O clone não misturar "alhos com bugalhos", ou seja, saber científico comprovado com especulação mística. Prestaria relevante serviço de utilidade pública se conseguisse se limitar a tornar público o que é hoje a clonagem e o que ela não é.
Barriga de aluguel, Laços de família e O clone têm, em comum, o mérito de serem produções artísticas que no item contemporaneidade temática são impecáveis. De fato, abordam assuntos atuais que precisam ser popularizados – única maneira de dar poder às pessoas comuns para que elas possam, com todos os setores da sociedade, definir o que desejam e esperam da ciência. A TV, sem dúvida, é um lugar adequado para divulgar e popularizar questões candentes das biociências e estimular o debate filosófico, político, enfim, bioético, sobre os saberes e poderes inerentes a elas. Portanto, TV e outras mídias têm o dever de exercer função social, e nós temos o direito de cobrar que elas sejam éticas, pois só assim podem se constituir no que deveriam ser: também um caminho que possibilite mais cidadania.
(*) Médica, diretora da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos; integrante da Comissão de Cidadania e Reprodução e da União Brasileira de Mulheres; conselheira do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher; integrante efetiva do Comitê de Especialistas em Bioética e Biodireito da Universidade de Alfenas (MG); coordenadora da Rede de Informação sobre Bioética: bioética & teoria feminista e anti-racista. Co-autora de: Fundamentos da bioética (Paulus, 1996), orgs. Christian de Paul de Barchifontaine e Léo Pessini; Tecnologias Reprodutivas: gênero e ciência (UNESP, 1996), org. Lucila Scavone; Ciência e Tecnologia em debate (Moderna, 1998), org. Márcia K.; Questões de Saúde Reprodutiva (Ford/Fiocruz, 1999), orgs. Karen Giffin e Sarah Hawker Costa; Livro da Saúde das Mulheres Negras: nossos passos vêm de longe (Editora Pallas, 2000), org. Evelyn White, Jurema Werneck e Maísa Mendonça; e Bioetica y Genética (Ciudad Argentina, 2000), org. José Maria Cantu e Salvador Dario Bergel. Autora de: Engenharia genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995); Bioética: uma face da cidadania (Moderna, 1997); Oficinas Mulher Negra e Saúde (Mazza Edições, 1998); e Transgênicos: o direito de saber e a liberdade de escolher (Mazza Edições, 2001). E-mail: <fatimao@medicina.ufmg.br>
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