OFJOR CIÊNCIA

HISTÓRIA & RIO+10
Futebol, ambiente e auto-estima

Ulisses Capozzoli (*)

Destaques ao noticiário esportivo e às turbulências político-econômicas dos últimos dias tiraram das primeiras páginas o espaço que caberia ao comitê internacional que visitou o Brasil na semana passada para debater a Rio+10, reunião marcada para ocorrer na África do Sul, entre agosto e setembro próximos.

Representantes dos países industrializados e o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, comprometerem-se a encaminhar uma pauta de sugestões colhidas no Brasil capazes de revitalizar o Fundo Ambiental Global, mecanismo de financiamento de decisões adotadas durante a Eco-92, no Rio, e que, na maior parte dos casos, não foram além das palavras.

É compreensível que a imprensa tenha dedicado maior espaço à possibilidade de o Brasil conquistar o "penta", ruidosamente comemorado a partir do encerramento do jogo com a Alemanha, que a temas mais herméticos e de soluções mais difíceis.

Mal posicionado no ranking internacional quanto aos riscos potenciais que ofereceria a investidores/especuladores internacionais, o Brasil tem refletido, no cotidiano de sua população, um indisfarçável sentimento de inferioridade por uma pretensa incapacidade de acertar o passo. Daí a importância da conquista do pentacampeonato de futebol. As jogadas de genialidade que encantaram até mesmo os adversários do Brasil são um bálsamo à nossa auto-estima em baixa.

Mas a criatividade não é uma habilidade isolada. Se podemos reverter as situações mais adversas entre as quatro linhas do gramado, não há razão para pensar que sejamos incapazes de encontrar soluções para dificuldades em outras áreas. Até porque, ao menos no Brasil, o futebol integra profundamente a cultura, constelação de valores que dá identidade ao mundo.

Em outros países a magia do futebol não encanta tanto quanto aqui. No Brasil, o reino mágico do futebol é o único que leva cortadores de cana, colhedores de laranja, mecânicos e borracheiros, especialmente negros, da vida dura e sem perspectiva de futuro, ao estrelato planetário, com direito a uma corte de bajuladores e ganhos de fazer inveja a um sultão.

No ambiente de comemorações da conquista, certamente vale a pena retomar as questões envolvendo a Rio+10, e isso por várias razões.

Uma delas é que o Brasil pode fazer uma série de negociações em escala global capazes de melhorar a sorte de sua população. A oferta de água potável, um dos ítens da Agenda 21, o conjunto de medidas que deveriam ser implementadas a partir do encontro do Rio, é uma questão estratégica, estreitamente ligada à saúde pública.

Outro desses itens envolve a biodiversidade, recurso em que a potencialidade brasileira é enorme, além da mudança climática onde, como outros países marginalizados, o Brasil tem muito a perder, sem ser um dos vilões do efeito-estufa. Esse é o mecanismo de aquecimento atmosférico responsabilizado pelas alterações do clima.

Ainda assim, talvez a melhor de todas as razões para a imprensa retomar as questões envolvendo a Rio+10 esteja num trabalho que está chegando às livrarias por esses dias: Um Sopro de Destruição – Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil Escravista (1786-1888), do historiador José Augusto Pádua, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado pela Jorge Zahar Editor.

O trabalho de Pádua, da mesma forma que a conquista do pentacampeonato de futebol, também traz alento à auto-estima nacional.

"Iniciativas isoladas"

No Brasil, a mídia tem tratado as preocupações ambientais como um eco retardado de movimentos que apareceram na Europa ou nos Estados Unidos. Mais remotamente, na Europa, cita-se Rousseau e von Humboldt e, nos Estados Unidos, mais recentemente, autores como Henry Thoureau e Rachel Carson.

A verdade, como documenta Pádua, é que desde meados do século 18 o Brasil dispõe de um número razoável de observadores preocupados com a deterioração ambiental. Em boa parte dos casos, esses críticos identificam na exploração danosa dos recursos naturais os efeitos de uma ordem social arcaica e irracional: o escravismo introduzido aqui pela mentalidade ibérica, no qual a ciência e a tecnologia sofreram severas restrições para vingar.

Uma nova abordagem do escravismo atrai a atenção de um número crescente de pesquisadores universitários, retomando, com impressionante atualidade, o pensamento crítico de homens como José Bonifácio de Andrada e Silva, o "Patriarca da Independência", e Joaquim Nabuco.

Na imprensa, raramente se vê, a não ser em eventuais articulistas, referência a essa ordem estrutural. Como previu Nabuco, o escravismo paralisaria, pelo seu legado anacrônico, o desenvolvimento nacional por séculos a fio, se não fosse devidamente identificado e denunciado como prática – além de inaceitável do ponto de vista social, profundamente irracional como alternativa de produção.

Nos dez anos que consumiu em pesquisas que lhe valeram uma tese de doutorado e, posteriormente, a redação de Um Sopro de Destruição, Pádua consultou em aproximadamente 150 textos, produzidos por mais de 50 autores, as conseqüências sociais que estavam por trás e seriam influenciadas negativamente pela erosão dos solos, esgotamento de minas, queima das florestas e, surpresa, para quem a mudança climática é coisa recente: alteração do clima, neste caso lastreada na teoria do "dessecamento".

A teoria do dessecamento, relacionando derrubada de florestas com redução de mananciais e queda da umidade, remonta à Antigüidade grega, ainda que tenha sido retomada na Inglaterra no início do século 18.

Nas origens do que identifica como "viés cientificista e pragmático", Pádua interpreta que mesmo um José Bonifácio de Andrada e Silva tem idéias "fortemente enraizadas no chamado iluminismo luso-brasileiro".

Duas constatações a esse respeito foram evidentes, avalia o pesquisador. "Em primeiro lugar, a crítica ambiental brasileira não tinha sido inaugurada por aquele pensador [José Bonifácio]. Desde as últimas décadas do século 18, outros autores tinham começado a escrever sobre o tema, utilizando um enfoque teórico semelhante ao que podemos encontrar em sua obra".

Em segundo lugar, sustenta Pádua, "esses autores não escreveram a partir de iniciativas isoladas, mas como parte de um grupo bastante coerente em suas características intelectuais e sociais".

Interessante perceber, como faz Pádua, que a gênese desse grupo está ligada tanto à reforma do ensino superior português, a partir de 1772, com abandono da escolástica medieval e aproximação da ciência moderna, como à criação da Academia Real das Ciências de Lisboa, sete anos depois.

Males da destruição

Interessante também dar se conta da influência de um ministro de mente arejada, como foi o ministro da Marinha e dos Domínios Ultramarinos, Rodrigo de Souza Coutinho, mesmo no curto espaço de tempo confinado entre 1796 e 1801. Ou a influência que teve no Brasil o pensamento do naturalista italiano Domenico Vandelli, que se fixou em Portugal durante o governo do Marquês de Pombal.

Nomes pouco conhecidos como dos geógrafos Januário da Cunha Barboza, Raymundo da Costa Mattos, Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva, dos médicos Francisco Freire Alemão, Emilio Joaquim da Silva Maia, ou naturalistas como Guilherme Capanema, José Saldanha da Gama e João Silva Coutinho, além de artistas como Manoel de Araújo Porto-Alegre, passando por especialistas em agricultura, caso de Carlos Taunay, Nicolau Joaquim Moreira e fazendeiros e políticos como Miguel Calmon du Pin e Almeida, Luiz Pedreira do Couto Ferraz e Tomás Pompeu Brasil integram a lista dos autores investigados por Pádua.

Alguns desses homens, previne o pesquisador, aceitaram a idéia de que era possível mudar a exploração agrícola sem abrir mão do trabalho forçado. Outros, como José Bonifácio, Nabuco e André Rebouças entenderam que enquanto sobrevivesse o trabalho escravo não haveria uma relação de equilíbrio entre homem e ambiente.

Para se avaliar a precocidade de algumas idéias, Pádua registra que, em 1876, André Rebouças lançava, pela primeira vez, a idéia da criação de parques nacionais no Brasil, especialmente o de Sete Quedas e Ilha do Bananal, como fonte de atração turística.

Pádua traça um interessante percurso de propostas social e ambientalmente avançadas e da resistência que enfrentaram frente a interesses imediatistas ou à pura inação. Mostra que, "o que aqueles pensadores estavam testemunhando, de fato, era a evolução de um processo histórico cuja continuidade redundou na perda de quase 100 milhões de hectares da mais rica floresta tropical, já que hoje restam apenas 7% da cobertura original da Mata Atlântica".

No encontro do Rio, na semana passada, foi reforçada a idéia, destacada por Thomas Lovejoy, do Banco Mundial, de "que a pobreza é tão responsável pela devastação ambiental quanto a devastação ambiental leva ao aumento da pobreza".

José Gregório de Moraes Navarro, autor de Discurso sobre o melhoramento da economia rústica no Brasil, publicado em 1799, foi um magistrado que atuava no interior de Minas Gerais, no final do século 18, de quem não foi possível levantar nem mesmo o ano de seu nascimento e morte. Seus escritos, no entanto, apontam na direção que recentemente seria tomada pelo físico-químico inglês James Lovelock, o criador da Teoria Gaia, idéia de que a Terra é um imenso organismo vivo, controlando a sua própria homeostase.

O trabalho de Pádua mostra que temos tradição em relação ao pensamento ambientalista, embora esse legado seja apenas precariamente conhecido. Não aprendemos agora os males da destruição ambiental, embora continuemos impotentes numa solução aceitável para os novos padrões de cidadania.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciências, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil