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CIÊNCIA & TECNOLOGIA
Os rumos do jornalismo científico
Luciana Christante de Mello (*)
Um sujeito cai de pára-quedas no Brasil, vai até o balcão de informações mais próximo e diz: quero conhecer a ciência brasileira. Como posso obter informações gerais sobre o assunto? Digamos que ele aprendeu português em Macau e que tenha dúvidas se a capital brasileira é Buenos Aires ou Rio de Janeiro. No entanto, assina a National Geographic e a Scientific American desde que se entende como gente. A recepcionista o orienta a procurar uma banca de jornal e pedir pelas seguintes revistas: Ciência Hoje, Pesquisa Fapesp, Scientific American Brasil, Galileu e Superinteressante.
Na banca, feliz da vida, ele examina os exemplares. E se impressiona. Ciência Hoje comemora 20 anos. Pesquisa Fapesp destaca os 40 anos da instituição. Scientific American inaugura a versão brasileira. Galileu e Superinteressante com mais de uma década de mercado. O sujeito dá um suspiro e pensa: acho que esse país tem futuro. Quando, na internet, ele descobrir o Jornal da Ciência, vai ficar confuso.
A breve ficção serve para mostrar que os esforços têm compensado. O jornalismo científico brasileiro é uma realidade, de boa qualidade e prognóstico favorável e veloz. O surto de divulgação científica no Brasil impressiona por se disseminar em um contexto tomado por notícias que mexem com nosso bolso, nossa segurança, nossas mediocridades. Até que enfim notícias que mexem como nosso cérebro! Aplaudo de pé. Mas essa pequena estória é também um mote para expressar preocupações e fazer algumas críticas construtivas à condução desse processo.
Por que não me iludo
Sou consumidora voraz de divulgação científica. Entretanto, se não fossem meus 11 anos de universidades públicas (USP, Unicamp e agora Unifesp), acho que minha idéia do panorama brasileiro de C&T seria um pouco distorcida. E para melhor. Se levasse em conta apenas as revistas citadas, poderia pensar que as universidades públicas vão de vento em popa.
Quando leio a revista da Fapesp fico orgulhosa de ter sido bolsista da instituição, de ver o trabalho sério que lá é feito, mas fico convencida que o estado de São Paulo é uma grande Harvard, circundada por continente africano. Quando leio o artigo do ministro Sardenberg na edição de estréia da SciAm Brasil não me iludo com sua retórica porque sei dos últimos cortes no orçamento de sua pasta. Quando leio a Ciência Hoje quase acho tudo perfeito, não fosse pela visita que fiz a sua redação há dois anos e por saber do esforço de algumas pessoas para manter a publicação há tanto tempo e com tanta qualidade.
Por que poupar os leitores de saber sobre o estado de penúria vivido pelas instituições de ensino e pesquisa no Brasil? Por que as denúncias, as críticas e os apelos aparecem apenas em editoriais de jornais, no Jornal da Ciência ou em outros veículos de circulação mais restrita e audiência intelectualizada? Um exemplo ilustra esta situação. O editor da SciAm Brasil – jornalista que respeito muito – escreveu no número de estréia que "no último ano, 6.300 doutores foram diplomados e pelo menos 100 mil novos pesquisadores estão sendo formados". Certo. Mas o restante da informação ele escreveu aqui neste Observatório: "O problema (...) é que não há emprego para estes novos pesquisadores, criando uma situação em que o país tem todo um custo para a formação e, quando o pesquisador está formado, não há trabalho para ele – que, em muitos casos, vai definitivamente para o exterior, caracterizando a fuga de cérebros".
Crise de nervos ou lavagem cerebral
Só que a situação é ainda pior. A fuga para o exterior é o melhor dos mundos para um recém-doutor sem emprego. A grande maioria, no entanto, ou fica pulando de pós-doutorado em pós-doutorado enquanto puder ou tiver nervos para isso, ou acaba se submetendo à lógica medíocre e mercantilista do ensino superior privado, que só faz crescer no país. Além disso, conseguir uma vaga de professor numa universidade pública também não resolve todos os problemas. E se muitos cientistas conseguem manter ética e serenidade preservadas, outros tantos se corrompem, transformando seus laboratórios em escritórios de consultoria privada (vide a proliferação de fundações) ou saindo do regime de dedicação exclusiva, às vezes formalmente, mas nem sempre.
Sou testemunha de que, neste surto de divulgação científica, as intenções são as melhores e os cérebros envolvidos privilegiados. Entendo que para cativar a audiência tenha se optado por falar dos valores, das belezas e das conquistas da ciência no Brasil, em vez das mazelas, da agonia e do desespero. Mas além de prestar contas à sociedade sobre o investimento público, é preciso mobilizar a população em defesa da ciência brasileira, antes que seja tarde demais. Infelizmente, nada melhor do que a tragédia para mobilizar as massas e invocar o espírito de solidariedade. E não é preciso deixar a beleza e o fascínio em segundo plano, talvez seja uma questão de equilíbrio apenas. Ocultar as dificuldades, restringindo a discussão aos intelectuais, pode não ser boa estratégia. O momento exige urgência. Para reforçar meu ponto de vista, puxo dois exemplos da história que me parecem pertinentes.
Meio ambiente
O primeiro é o movimento ecológico. Os termos ecologia e meio ambiente só passaram a ser populares mesmo a partir da década de 1980. Hoje a questão ecológica é ensinada desde o jardim de infância, está nas revistas, nos jornais e na televisão. Para quem acha difícil justificar a existência de universidades públicas, imagine o que era tentar explicar a importância da floresta amazônica há 30 anos. Uma imensidão de mato, cobras e índios, lugar onde o progresso não havia dado sua graça. O fato é que hoje as pessoas, bem ou mal, têm consciência da importância da Amazônia e de vários outros ecossistemas, não só do ponto de vista ecológico mas também do econômico. Manifestam indignação em relação aos exploradores irresponsáveis. Sem falar do extraordinário número de ONGs que surgiram para esse fim. O jornalismo ambiental teve tudo a ver com isso.
A divulgação da ecologia, que não deixa de ser um capítulo do jornalismo científico, sempre esteve ligada ao conceito de preservação. E surgiu não só porque o meio ambiente é uma coisa fascinante, mas principalmente depois que se começou a perceber que os ecossistemas estavam seriamente ameaçados.
O espaço que o meio ambiente ocupa na pauta jornalística é enorme, inclusive na televisão, veículo que realmente fala às massas. A lógica é basicamente a mesma. As maravilhas da natureza versus a ameaça de destruição: vejam como isso é maravilhoso, talvez seus filhos não cheguem a conhecer. A simplificação não diminui a inteligência dos que estão envolvidos na causa. O fato é que o maniqueísmo sempre seduziu o ser humano. E parece que funciona. Pelo menos o Ibama todo mundo conhece, já o CNPq... Sei que estou me aventurando em área que não domino, mas será que não podemos tirar alguma lição desse case?
Surto dos anos 20
O outro exemplo tem a ver com o surto de divulgação científica ocorrido na década de 1920. Isso mesmo. Para quem não conhece esta história, vale a pena ler o interessantíssimo artigo publicado por Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani na revista História, Ciência e Saúde, disponível na biblioteca eletrônica Scielo [Moreira, I. C.; Massarani L. "A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 1920", História, Ciência e Saúde, vol. 7, no 3, nov 2000/fev 2001, disponível em http://www.scielo.br].
Segundo os autores, a década de 1920 foi um dos períodos mais férteis da divulgação científica. Liderado por cientistas, o movimento carioca pretendia criar condições para o desenvolvimento da ciência básica no País. Além dos meios impressos (revistas e livros), o rádio e o cinema foram usados como veículos de difusão do conhecimento científico às massas. Assim como hoje, o surto teve paralelo no exterior. Segue um trecho do livro A vulgarização do saber (1931), de autoria de Miguel Osório de Almeida, um dos líderes do processo:
"A vulgarização científica bem conduzida tem, pois, por fim real, mais esclarecer do que instruir minuciosamente sobre este ou aquele ponto em particular. Mantendo constantemente as inteligências em contato com a ciência, ela virá a criar um estado de espírito mais receptível e mais apto a compreender. Ela se destina mais a preparar uma mentalidade coletiva, do que realmente a difundir conhecimentos isolados."
Mas o movimento não se sustentou e esmaeceu na década de 1930, embora seu principal objetivo tenha sido alcançado. Nessa época surgiram o Instituto Manguinhos e as primeiras faculdades de filosofia, ciências e letras.
Os autores citam como possíveis razões para a extinção do surto de divulgação científica da época os seguintes eventos: a) a implantação do Estado Novo, que passou a controlar diretamente a educação e a comunicação, b) o refluxo similar que ocorreu também no cenário internacional e c) o esgotamento da geração que iniciou o processo. Os cientistas que lideraram o movimento agora estavam muito ocupados nas instituições que ajudaram a criar. E as novas gerações, surgidas em novo contexto, tinham também novas necessidades e expectativas profissionais. Logo, foram atraídas para as faculdades de ciência.
Conjunturas à parte, é possível dizer que, se por um lado o movimento carioca teve êxito, por outro, parece ter dado um tiro no pé. Evidentemente, a situação que vivemos é diferente, em certo sentido inversa, mas certamente guarda semelhanças. O medo é que, quando pudermos falar de uma massa consciente sobre a importância da ciência, nossas instituições já tenham chegado a um grau de degradação irreversível. Aí, não vai dar mais para divulgar a ciência brasileira, quem sabe apenas a ciência paulista, o que pode ser consolador, mas não oculta nosso fracasso. Enquanto surto, o futuro da divulgação científica não está garantido. Melhor se fosse (também) um sintoma do estado de saúde de nossas instituições de ensino e pesquisa, cujas funções estão seriamente comprometidas, mas ainda não sucumbiram e – tomara – possam se recuperar.
(*) Farmacêutica, ex-aluna do curso de Jornalismo Científico da Unicamp <christante@bol.com.br>
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