|
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
JORNALISMO CIENTÍFICO
Pautas escondidas sob os escombros
Ulisses Capozoli (*)
O atentado às torres gêmeas do WTC e ao Pentágono literalmente roubou o espaço na mídia de outros assuntos importantes. Ou, frente ao impacto da ação terrorista, os leitores devem ter relegado esse "outro noticiário" a um plano secundário.
Dois desses assuntos merecem atenção, e estiveram em relativa evidência a partir da segunda quinzena de setembro: a conferência organizada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em Brasília, entre os dias 18 e 21, e o caso do aluguel da base espacial de Alcântara, no Maranhão. Os dois casos estão intimamente ligados e, por força do que se convencionou chamar de "globalização", também estão associados aos acontecimentos de Nova York.
O primeiro deles foi bem tratado pelos jornais, ao menos os grandes jornais de São Paulo, além do Correio Braziliense. Historicamente, a abertura de espaços para assuntos desta natureza, na imprensa, costuma estar associada ao fato de se tratar de uma iniciativa oficial. Neste caso, especialmente jornais que dão cobertura ostensiva a tudo o que o governo faz, caso de O Estado de S.Paulo, registram cada palavra do que, no Brasil, se chama de "autoridade" – quase sempre um funcionário de alto escalão, como secretários de Estado.
Generalizar esta crítica, no entanto, seria um equívoco. No caso da conferência envolvendo o "Livro Verde", em Brasília, a atenção foi justificada, embora o conteúdo do material publicado revele, quase sempre, abordagens pontuais e imediatas, perdendo de vista o objetivo principal do encontro.
Este é um dos problemas sérios de uma imprensa que se habituou a tratar do factual, sem considerar o cenário em que se dão esses acontecimentos, como se uma abordagem deste tipo fosse um luxo dispensável. Este tipo de contextualização, o que caracteriza o jornalismo interpretativo, ocorre por várias razões, como vem sendo sugerido nesta coluna. Uma delas, no caso dos jornais que se esforçam para agradar o governo, é exatamente evitar uma análise onde os problemas indesejáveis apareçam. É, literalmente, um esforço para varrer o lixo para baixo do tapete. À primeira vista, pode parecer politicamente correto. Na verdade, ações deste tipo acobertam problemas que devem ser tratados devidamente e, por isso mesmo, no longo prazo, são ações que visam se manter uma estrutura arcaica, injusta e em descompasso com a realidade do mundo dito desenvolvido.
O "Livro Verde", uma publicação recente de quase 300 páginas do MCT, é um esforço para estimular um debate nacional envolvendo política científica e que deve culminar num "Livro Branco" – um conjunto de idéias capaz de nortear uma política científica nacional com uma década de antecedência. Pode parecer luxo para quem, como os brasileiros, estão habituados a resolver tudo na base da emergência.
Salvaguardas tecnológicas
Política científica é um planejamento estratégico e por isso mesmo uma necessidade vital, especialmente para países com o perfil do Brasil, com enorme potencial, inclusive de recursos humanos, para mudar a sorte de sua população. Ao tratar o encontro de forma pontual, os jornais não esclarecem esse cenário de referência obrigatória para quem deseja compreender minimamente o que está acontecendo, aqui e no mundo.
Apenas para se dar uma referência deste cenário:
O Brasil ocupa, atualmente, a 17ª posição como produtor mundial de ciência. Embora seja a décima economia do planeta, o que significa que há um descompasso entre o que se produz e a geração do conhecimento para esta produção, o Brasil vem lentamente escalando esta posição. Entre a comunidade científica há uma unanimidade em reconhecer que essas penosas conquistas devem-se especialmente à fundação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), há exatos 50 anos. A criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), há 52 anos, e a consolidação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), no início dos anos 60 também integram a iniciativa que culminou na criação de cursos de pós-graduação, a principal fonte de criação de pesquisadores científicos no Brasil.
Mas aí também ocorrem problemas, como mostrou a Folha de S.Paulo (20/9/01, pág A11) envolvendo recursos humanos. Por falta de uma política científica estruturada, as universidades e institutos de pesquisas não conseguem absorver os aproximadamente 5 mil doutores que se formam a cada ano. O resultado absurdo é que, ao final de uma longa formação, exigindo investimentos enormes da sociedade, pesquisadores qualificados simplesmente não têm onde colocar em prática tudo o que aprenderam a fazer. A mesma edição da Folha publica protesto de um grupo de quatro jovens doutores brasileiros registrado pela revista científica inglesa Nature, a mais respeitada publicação internacional em ciência. Como se vê, o tratado pontual dado pela imprensa não fecha uma equação que, assim, permanece sem solução.
Além do esforço para a realização da conferência do "Livro Verde", o ministro Ronaldo Sardenberg, do MCT, publicou artigos em vários órgãos de imprensa tentando esclarecer desencontros sobre o aluguel da base de Alcântara, no Maranhão. O assunto tem muitas sutilezas. Uma abordagem simplista não oferece solução e a mídia, na quase totalidade, não compreendeu o que está ocorrendo. Políticos, como o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, o jornalista Hélio Costa (PMDB-MG) também estão "boiando" (Estado de S.Paulo, 15/9/01, pág. H8)
Em resumo, a natureza do problema é a seguinte: o Brasil tenta alugar sua base de lançamento para os Estados Unidos e, para isso, está submetido a uma série de exigências que, de fato, são descabidas. Entre elas, o Brasil se compromete a não investir no seu programa espacial os recursos que deve receber dos EUA pelo aluguel da base. É o equivalente a alguém alugar uma casa e o inquilino exigir que ele não gaste o dinheiro do aluguel, por exemplo, na compra de roupas ou livros.
O Brasil também se compromete a não abrir as caixas com equipamentos a serem lançadas nem mesmo na aduana. Este tipo de exigência costuma estar dentro do que se chama de salvaguardas tecnológicas. Uma outra exigência, no entanto, deixa sob a responsabilidade do Estado brasileiro um eventual acidente com um foguete que, por exemplo, possa desviar-se da rota e cair em zona povoada provocado acidentes materiais e humanos.
Por que o Brasil se esforça para alugar a base mesmo nestas condições? Esta explicação tem faltado, sistematicamente, na cobertura da imprensa. A resposta, neste caso, é que o Brasil deve manter a base em funcionamento, já que investiu recursos não devidamente esclarecidos, mas que não são poucos, na formação de recursos humanos e compra de equipamentos. Se não ativar a base, tudo isso entra em descompasso e as perdas serão enormes.
Pretextos inconsistentes
Por que uma base em Alcântara? Porque esta localidade está bem próxima do equador, onde os lançamentos são favorecidos pela força centrífuga produzida pela rotação da Terra, o que exige menor gasto de combustível, portanto foguetes menores e mais baratos.
Por que um acordo com os Estados Unidos e não com um outro país? Porque os Estados Unidos decidiram proibir o fornecimento de qualquer subsistema produzido por empresas norte-americanas embarcados em cargas úteis de qualquer outro país. Por que esta decisão dos Estados Unidos? Porque os Estados Unidos não têm nenhum interesse em que o Brasil se desenvolva na área espacial, o que não é exatamente um fato novo na história das relações internacionais.
O que o Brasil tenta fazer, então, é contornar essas dificuldades e obter recursos estimados em torno de 30 milhões de dólares/ano para manter o custeio da base e permitir que ela continue em funcionamento. Hélio Costa teme que os atentados que ocorreram em Nova York possam estender-se para a base de Alcântara enquanto área de lançamento de empresas norte-americanas – o que, certamente, é um excesso de zelo.
Quanto à ligação entre a base de Alcântara e a política científica, os fatos ocorreram da seguinte maneira. O Brasil iniciou seu programa espacial em 1961, no governo Jânio Quadros, sob impulso do vôo orbital de Iuri Gagárin. Mas até agora, exatos 40 anos depois, ainda não conseguiu viabilizar o seu Veículo Lançador de Satélites (VLS).
O emperramento do VLS que, em conjunto com o desenvolvimento de satélites e a base de Alcântara, forma a versão mais recente do programa espacial nacional, deu-se por várias razões. Uma delas foi exatamente ausência de uma política científica bem estabelecida. O Brasil desenvolveu inicialmente um programa voltado para fins militares, atrelado ao programa nuclear, que visava a produção de bombas atômicas capazes de ser levadas por mísseis. Nada disso funcionou e, em 1987, o país sofreu um boicote dos membros do clube espacial, que se recusaram a fazer repasse de tecnologia ou subsistemas ao programa brasileiro. O envolvimento do Brasil com o Iraque, fornecendo foguetes militares, com reflexos na Guerra do Golfo, deu o pretexto que o clube espacial precisava para justificar o boicote. Os problemas só foram amenizados, mas não resolvidos, com a criação de uma agência espacial civil, a Agência Espacial Brasileira (AEB).
Se tivesse uma política científica clara, desatrelada de interesses bélicos que prevaleceram durante os sucessivos governos militares, o Brasil teria tido maior flexibilidade para contornar obstáculos futuros. Como uma solução preventiva não ocorreu, a saída, neste momento, é fazer o acordo possível com os Estados Unidos. Talvez os atentados de Nova York e Washington amenizem a posição norte-americana, mas ainda é cedo para se pensar assim.
A pergunta que a imprensa (particularmente o jornalismo científico) deveria fazer neste momento é a seguinte: se o Brasil não tem uma política econômica consistente (ao menor em termos de conteúdo social), não tem uma política agrícola, nem uma política habitacional viável para a maioria da população, como poderia ter uma política científica? Uma resposta possível é que devemos começar por algum lugar; e uma política científica teria o mérito de trazer alguma cientificidade às outras áreas. Caso contrário estaremos sempre incorrendo em problemas como a famosa "inflação do chuchu", ou do "barbeiro", pretextos inconsistentes para inviabilidades produzidas por uma visão de mundo comprometida com um passado que nada tem de humanista.
(*) Jornalista, mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico ( www.abjc.org.br)

|
|