JORNALISMO CIENTÍFICO
Amazônia, ambiente e educação
Ulisses Capozzoli
Com a concordância que tomo a liberdade de pressupor, da parte de eventuais leitores, vou adotar um tom mais íntimo neste escrito. Me explico para não parecer cabotino. Alguns assuntos não têm como ser tratados pela maneira algo impessoal como escrevemos no jornalismo.
Estou retornando de mais uma viagem pela Amazônia. Domingo (2/11), pela manhã, vi o Sol nascer como uma rubra esfera de fogo sobre a selva, às margens do Rio Negro, próximo ao arquipélago das Anavilhanas, 80 quilômetros a oeste de Manaus.
É uma imagem poderosa para nós, confinados ao artificialismo das grandes cidades. Um pouco antes de o dia nascer, na transição indefinida da noite, a selva ainda pulsava com o ruído estranhamente eletrônico de uma infinidade de criaturas noturnas. Zumbidos, coaxar, assobios em diferentes freqüências. Estalidos metálicos de morcegos.
Com a aproximação do dia a sonoplastia se altera. O som de aves, o roçar de asas acompanhados de gorjeios, gritos estridentes e o ruidoso matraquear de araras e papagaios enche o ar. A noite se refugia no oceano verde da floresta até que o Sol se enrubesça mais uma vez no poente. Então, então todo o ciclo será retomado.
Passado turbulento
O Rio Negro, com suas águas escuras como o café ralo, desliza quase imperceptível para o Leste. Essas águas, que lembram um mar interior, escorreram de uma vasta extensão da floresta.
Uma porção vem da Venezuela, escapando da atração do Orinoco, onde Cristovão Colombo, numa de suas viagens, imaginou estar entrando no Paraíso. Outra desliza da Amazônia colombiana, camuflada como guerrilheiros, numa rede de fios.
O Solimões nasce bem no Oeste, nas cordilheiras nevadas
do Peru, ruidoso como os rios das montanhas. Lá se chama
Marañon. Ao largo de Manaus, as águas dos dois gigantes
se encontram, mas não se confundem por um longo trecho, formando
o Amazonas, o maior rio da Terra.
O Negro é um rio maduro. Pode parecer sereno por aqui. Mas a noroeste, nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira, é pontilhado de rochas que impedem a navegação de maior calado. Entre as pedras, forma corredeiras rápidas e sonoras.
Na altura de Carvoeiro, o Negro recebe as águas do Branco. O Rio Branco desce de Roraima, passa por Boa Vista e, como seu nome sugere, é um rio jovem no sentido que ainda não escavou definitivamente seu leito.
As cabeceiras do Rio Branco estão em áreas ainda hoje misteriosas como o Monte Roraima, onde sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, ambientou seu memorável Mundo Perdido.
O Rio Maú, que ainda esconde diamantes, é um dos formadores do Branco. Povoados com nomes como "Puxa Faca" falam mais que muitas palavras do passado turbulento dessas localidades. Turbulência que ainda não acabou, em particular pelo conflito de terras entre índios de "brancos", como os não-índios são identificados no Brasil, um legado de John Wayne.
Em outras regiões o Branco seria notável pelo volume de suas águas. Na Amazônia, não fosse pela proximidade de Boa Vista, passaria despercebido.
Diamante bruto
Andei por todas essas regiões nos últimos anos.
Enquanto o Sol se levanta, tingindo de vermelho uma massa compacta de nuvens, imagens do Maranõn me vêm à memória.
Estava perdido nos Andes, numa noite quase gelada, retornando de Yungay. No início da Copa do Mundo de 1970, essa localidade, que já reuniu 30 mil moradores, foi engolida em minutos por uma avalanche que desceu das montanhas, precedida de um sismo.
Na Europa ou na América do Norte seria manchete da mídia. Perdida nos Andes, Yungay acabou como nota de pé página. Na visita que fiz o local, por volta de 1997, já havia árvores imensas em pontos que um dia foram agências bancárias, praças de mercados, moradias e leito de ruas.
O efeito-estufa, sabe-se agora, esteve envolvido com a tragédia de Yungay, ao deixar solta uma calota de gelo sobre uma estrutura rochosa num dos cumes andinos.
O valor da vida humana varia de acordo com a latitude e longitude embora, à primeira vista, estas sejam apenas coordenadas geográficas.
Um táxi velho, com problemas de refrigeração do motor, empacou nos Andes, teimoso como uma mula. Muitos metros abaixo o Marañon tocava sua música. A música das águas despencando das alturas.
Tudo que tínhamos era um isqueiro com pouco fluído e uma desbocada chave de fenda. Um maldito fusível havia se soltado e quando, por puro tato, o motorista conseguiu empurrá-lo para o lugar certo, o motor rugiu valente como um tigre.
O som do Marañon foi se apagando aos poucos, a cada curva. Minutos depois só existia na memória, onde permanece inconfundível.
Estive no Orinoco procurando por Yarima, ianomâmi que se casou com um antropólogo americano, orientando de Napoleon Chagnon. É uma história que remete à pura literatura. Não localizei Yarima, que se refugiou nas profundezas da selva ilhada por chuvas pesadas – a "chuva branca", como chamava Orlando Villas-Boas. Mas encontrei Helena Valero, brasileira raptada por uma expedição de guerreiros ianomâmi quando tinha apenas 13 anos, em 1932.
Dona Helena, se não morreu recentemente, tem 84 anos. É um outro caso de literatura diluída pela realidade mágica da Amazônia.
Sofremos um acidente na Perimetral Norte, eu e o fotógrafo Itamar Miranda, a alma mais gentil e generosa que conheci numa redação de jornal.
Caminhamos durante horas, com a noite escura, para encontrar ajuda na missão religiosa do Catrimani, entre Roraima e Amazonas. Estávamos lá para relatar ataques de onças sofridos por ianomâmis, invadidos por garimpeiros.
Outra vez chegamos a uma aldeia Uaimiri-atroari, mais ao Sul, num momento de rebelião desses índios contra atividades na mina do Pitinga, que poluía um dos rios vitais para suas terras.
Os índios haviam derrubado a proteção que barrava a entrada para a vila de trabalhadores e administradores. Itamar saltou com sua câmera como se estivesse fotografando uma partida do Santos, time do seu coração.
Os Uaimiri-atroari são exemplo de uma saga de resistência na floresta, inclusive contra militares, nos duros anos de ditadura. Reagiram com bravura à invasão de suas terras e como castigo tiveram quase a totalidade dos adultos mortos. Os adolescentes assumiram o controle do grupo que sobreviveu às brutalidades dos "civilizados".
As terras dos Uaimiri-atroari são cortadas pela BR-174, que liga Manaus a Boa Vista e daí ao Caribe. No interior delas vive um grupo de índios isolados, contemporâneos de práticas do neolítico. Fisicamente, a reserva está a uns 300 quilômetros de Manaus, onde se produzem eletrônicos da era espacial. No tempo, essas localidades distanciam-se por pelo menos 15 mil anos.
Andamos mais ao Norte, na bela e conturbada região de Raposa Serra do Sol, nas proximidades do Monte Roraima.
Numa tarde inesquecível, uma aldeia inteira Macuxi dançou e cantou em nossa homenagem sem que pudéssemos retribuir com nada além de um relato do espetáculo que testemunhávamos. O Brasil ainda é um diamante bruto, não lapidado pela educação e pelo desenvolvimento social.
Problemas sociais
A viagem da semana passada foi um convite da Fundação Rede Amazônica para discutir como o jornalismo pode contribuir para a solução dos problemas ambientais da Amazônia.
Como o jornalismo pode fazer isso?
Certamente a resposta a uma pergunta como esta depende do ponto de vista de cada um, considerando a enorme complexidade da região.
Os problemas ambientais da Amazônia, além de queimadas e desmatamentos – que devem ser contextualizados para não dar idéia de fim de mundo, e que não devem ser negligenciados para não contabilizar perdas dramáticas –, incluem a urbanização acelerada e contaminação de águas subterrâneas em metrópoles da selva como Manaus e Belém.
Há, ainda, o risco de que a soja, subindo pelo Mato Grosso, avance pela floresta pluvial. Pode até ser que, por algum tempo, a balança comercial se beneficie dessa expansão. Mas será por pouco tempo.
No rastro da soja ficará o solo desnudo e improdutivo, como advertem especialistas do calibre intelectual de um Aziz Nacib Ab’Saber.
O jornalismo pode atuar como coadjuvante num sistema de forças determinado a melhorar o nível de educação em toda a região – e não apenas lá. Para isso, os próprios jornalistas devem aprimorar sua formação. Será um desafio para cada um. As escolas de jornalismo, como de outras profissões, não estão preparadas para mudanças rápidas e profundas.
A universidade no Brasil tem hoje um enorme conteúdo corporativo que só pode ser eliminado por uma reforma profunda e criativa. E isso leva tempo.
A Amazônia é um universo à parte. Recomendações simplistas, sugestões localizadas para essa ou aquela iniciativa, correm o risco do completo fracasso. A visão global da complexidade do ambiente e do homem é a única fonte promissora de soluções criativas e a longo prazo.
O Sol está alto e amarelo como uma moeda incandescente. Não há mais nenhum sinal da noite de poucos minutos atrás.
Na véspera, discutimos as promessas do jornalismo com uma variedade de interlocutores: jornalistas, estudantes, intelectuais de outras áreas. Na Amazônia, como em outras regiões do Brasil, os jornais não dispõem de nenhum caderno de ciência. Como podemos permanecer assim?
Como educar para a ciência sem espaço físico para isso?
O barco aporta junto ao cais de madeira que mergulha como uma longa serpente tortuosa nas águas do Negro.
O hotel na selva é um antídoto para o estresse da vida paulistana, mas também uma fonte de discórdia.
Para alguns, uma forma de contato com a floresta imensa. Para outros, privilégio restrito a poucos, boa parte estrangeiros.
Certamente essa não é a discussão mais importante.
Minimizar os problemas ambientais, não apenas na Amazônia, mas em todo o Brasil, passa por uma reformulação educacional, no sentido amplo da expressão.
Até porque o homem é parte da Natureza e os problemas sociais, como a violência urbana, são uma expressão de desagregação de todo um ecossistema.
Embora muitos possam não pensar assim.