MÍDIA & TRANSGÊNICOS
Veja extermina o quote people
Cláudia Viegas (*)
Independentemente da posição assumida pela Veja na reportagem sobre transgênicos, fica claro que a revista (seus editores e repórteres) dá uma lição de como não se faz jornalismo: sem citar fontes e sem ouvir (talvez imaginando que ouviram) todos os lados envolvidos em uma questão (ou, pelo menos, os mais representativos).
Recomendável como lição de antijornalismo.
A revista, com esta matéria, que mais parece um editorial monocórdio, ampliado, conseguiu enterrar o quote people. "Ouvir pessoas" é uma das lições básicas do jornalismo, feito "de pessoas para pessoas", e com fatos (não com suposições).
Dizem os teóricos do jornalismo que fatos são as matérias-primas da notícia, mas a Veja virou as costas a isso e tentou mostrar que a matéria-prima do jornalismo são apenas opiniões e dados sobre empresas retirados talvez de relises (não importa de quem nem de onde venham).
Ouvir e reproduzir declarações de pessoas sobre fatos é o que dá credibilidade e caráter testemunhal a matérias. As que não têm isso são qualquer coisa – de ficção a bula de remédio –, menos jornalismo.
Com sua reportagem editorialesca, a Veja também esqueceu ou ignorou o trabalho de importantes veículos internacionais que mostram os riscos de contaminação do meio ambiente – como as matérias publicadas recentemente pelo Guardian.
Sementes sem fronteira
Assumiu posições por sua conta e risco, sem provar e sem dar nome às fontes.
Teria sido mais sábio e proveitoso para os leitores se os editores da revista tivessem – em vez de menosprezar a inteligência e a paciência de quem a compra e lê – analisado a condução jurídica do assunto, comparando como esta condução foi feita no governo FHC e está sendo feita agora.
A fixação na abordagem científica já virou obsessão mostra-se cansativa e não-resolutiva. Ficamos patinando entre declarações como "laboratórios demonstram que é seguro", sem indicar quais são esses laboratórios.
O problema é que estão retirando o poder do Judiciário de decidir. Se este poder fosse mantido haveria a geração de jurisprudência, e talvez fosse sedimentado um consenso, ao longo do tempo, um corpo jurídico de diretrizes para a tomada de decisões por parte do Estado. Na gestão FHC, esta possibilidade estava clara, daí o fato de ele (o governo passado) não ter regulado. Não que tenha feito grande coisa, mas pelo menos não piorou. Agora, querem mostrar serviço (desserviço) e impor de cima para baixo, centralizando os atos mandatórios todos no Executivo (mas, na realidade, quem manda mesmo é a elite produtora).
Não dá para entender a lógica de um país federado, como o Brasil, ter leis diferentes entre seus estados para assuntos de saúde pública (e os transgênicos são assunto de saúde pública). Um contra-senso que merece abordagem jornalística. Afinal, a natureza não tem mapeado o que é uma divisa entre um estado e outro. As sementes se espalham, e não haverá limite, divisa ou fronteira política que sufoque a ganância humana. A Veja deveria pensar melhor antes de fazer matéria sobre assunto tão importante.
(*) Jornalista especializada em meio ambiente, Porto Alegre
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