CIÊNCIA & PRECONCEITO
Homossexualismo, imprensa e ratos
Sérgio Domingues (*)
Recentemente, uma notícia foi reproduzida em vários jornais brasileiros e na TV. Todos destacaram uma estranha conclusão de pesquisadores norte-americanos: ser homossexual já não seria uma "opção", mas uma imposição biológica. As provas: 54 genes de cérebros de ratos.
No dia 21/10/2003, o Diário de S. Paulo publicou pequena manchete em sua capa: "Homossexualidade não seria opção". O texto dizia que "pesquisa realizada em ratos pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, encontrou 54 genes que mostram que o cérebro de macho e de fêmea funciona de formas diferentes. A teoria descartaria a hipótese de que a homossexualidade ou a mudança de sexo sejam uma opção." Simples, assim.
Lendo a matéria nas páginas internas descobrimos que a pesquisa foi coordenada pelo cientista Eric Vilain, que afirma que a identidade sexual de uma pessoa é caracterizada pelos genes. Segundo o cientista "a identidade sexual está baseada na biologia das pessoas, antes do nascimento, e é resultado de uma variação em nosso genoma individual". Para chegar a essa conclusão, a equipe de Vilain analisou a produção dos genes em cérebros de ratos machos e fêmeas ainda na fase embrionária. Portanto, antes de desenvolverem órgãos sexuais. "Foi então que eles encontraram 54 genes funcionando de forma diferente entre os sexos e influenciando também na formação dos hormônios", diz a notícia. Para esclarecer melhor, a reportagem explica que "desde a década de 70, os cientistas acreditavam que apenas os hormônios testosterona (masculino) e estrogênio (feminino) eram os responsáveis pela sexualidade."
Até aí tudo bem. Os estudos teriam descoberto que o mecanismo para a definição da identidade sexual não fica nos hormônios, mas antes de sua formação. O que é estranho é partir dessa descoberta diretamente para a afirmação de que ela prova que a homossexualidade não é uma opção.
Para fazer essa operação lógica teríamos, primeiro, que considerar que identidade sexual e opção sexual são a mesma coisa. Aliás, a escolha do termo "opção" pode explicar muito do que está por trás dessas matérias ou da própria pesquisa. O movimento homossexual há algum tempo abandonou o termo "opção" porque ele dá uma idéia de que em dado momento de sua vida a pessoa olha para os lados, consulta seus sentimentos e sensações e resolve: vou ser gay. Ou, vou ser lésbica. Ou, vou ser heterossexual. Pode até ser que casos assim aconteçam, mas não são os mais freqüentes. Assumir a condição de homossexual ou não envolve muito mais experiências e vivências condicionadas por uma série de fatores. São condições culturais, ambientais, históricas e, às vezes, até biológicas.
Por que no cérebro?
Assim, os homossexuais entenderam que a palavra "orientação sexual" é o termo que mais se aproxima de uma descrição da identidade erótica. Acontece que entre os fatores condicionantes alguns realmente podem estar ligados a disfunções orgânicas. Antes elas eram entendidas como decorrentes de fatores hormonais. A tal pesquisa mostra que estes últimos são determinadas por combinações de genes. É o caso de pessoas que nascem com a genitália indefinida. Ou de quem nasce com genitais do sexo oposto. Nestes casos, a descoberta dos norte-americanos pode ser válida. Algumas reportagens destacaram isso. Mas não podem ser entendidas como "cura" para o homossexualismo. Têm que ser encaradas como formas de remover limitações biológicas para dar à pessoa as melhores condições para descobrir a melhor forma de trabalhar com sua identidade erótica.
Mas, fora esses casos mais raros, há muito tempo que é consenso entre biólogos, psicólogos e outros cientistas que o fato de alguém gostar ou não do sexo oposto do ponto de vista erótico nada tem a ver com fatores biológicos. Quantos gays você conhece que são calvos, têm pêlos no corpo e músculos desenvolvidos, como qualquer outro homem? Quantas lésbicas têm mamas grandes, ancas largas, poucos pêlos no corpo, como qualquer outra mulher? Bastantes, certamente. Então, na enorme maioria dos casos, a identidade sexual biológica é independente da orientação sexual assumida pela pessoa.
Ora, se já havia um consenso de que não são os hormônios os responsáveis pela explicação da orientação sexual, por que esse papel passaria a ser desempenhado, agora, pelos genes? Por que estariam no cérebro? Estar no cérebro implica comportamento automático? Estudos recentes teriam concluído que homens e mulheres têm quantidades diferentes de neurônios. Nem por isso há qualquer sinal de que isso implique diferentes capacidades de conhecimento e raciocínio. Ao contrário, a enorme presença das mulheres no mercado de trabalho oferece, todos os dias, várias provas de que encontrar qualidades ou defeitos em mulheres é tão aleatório e imprevisível quanto nos homens.
Sintoma da doença
Não se trata de crucificar os jornais e seus repórteres. O problema é que a notícia foi distribuída pela Reuters, e não vi nenhum grande veículo de comunicação se dar ao trabalho de, pelo menos, problematizar a questão entre especialistas da área. Tenho certeza de que haveria reações contrárias às conclusões, sejam elas realmente dos cientistas de Los Angeles ou da cabeça de algum redator.
Colocar afirmações desse tipo na capa dos jornais ou em programas televisivos exige, no mínimo, esse cuidado. Ainda mais quando se trata de programas de grande audiência, como foi o caso do Fantástico do dia 26 de outubro. Nele, há um quadro chamado Múltiplas obsessões, que focaliza manias. No dia 26, foi a vez do analista de sistemas Edwin Lee, que adora vestir roupas femininas, mas garante ser heterossexual. Após o quadro (que, aliás, mereceria um comentário à parte), o Fantástico também divulgou a já famosa pesquisa de Eric Vilain. Reproduziu a versão de que o homossexualismo poderia ter raízes genéticas e arrematou tudo com imagens e relatos mostrando casos de homossexualismo entre animais.
Taí a combinação perfeita. Homossexualismo não é opção coisa nenhuma. É destino biológico. E tal como outros problemas de base biológica (câncer, deficiências físicas etc.), será devidamente tratado pela ciência genética. Um dia haverá cura para o homossexualismo.
Na verdade, as reportagens sobre a pesquisa de Vilain são mais um sintoma de uma grande doença social. Essa doença é o uso que conservadores, reacionários e racistas em geral fazem da biologia. São cada vez mais numerosos os estudos e as pesquisas que querem dar base biológica a problemas essencialmente humanos. O racismo, o machismo, a homofobia, a exploração econômica, tudo isso vem sendo justificado com base em modelos tirados da biologia.
Inversão e dominação
Na verdade, trata-se de mais uma das inversões típicas do capitalismo. O capitalismo tem em sua base algumas inversões fundamentais. A maior delas é a liberdade que os trabalhadores desfrutam para serem acorrentados ao trabalho assalariado ou semi-assalariado. Outra é a forma como esconde a capacidade criativa das pessoas por trás das coisas que elas próprias criaram. As coisas que vemos nas lojas, circulando nas ruas, vestidas em nossos corpos não aparecem como objetos feitos por mãos humanas. Elas aparecem como mercadorias que existem por si mesmas. E são adquiridas através da mais simbólica e inútil das mercadorias, o dinheiro. Este, por sua vez, chega em grande quantidade para quem menos cria e mais destrói.
Pois bem, nessa relação entre sociedade e natureza os conservadores querem nos comparar à base biológica para dela retirar as justificativas para essa sociedade injusta e invertida. Querem naturalizar as relações humanas para as eternizar. Invertem a relação entre seres humanos e suas companhias biológicas no planeta, dando a estas o caráter de modelo para entender o comportamento dos primeiros.
É o caso do Fantástico e seus bichos homossexuais. É o caso daqueles que acham que o comportamento social dos macacos explica a disputa territorial entre nações ou setores sociais. O que tem a ver uma coisa com outra? Aos animais acontece de fazerem ou viverem coisas parecidas com as que fazemos ou vivemos. O papagaio está aí para mostrar isso. Mas as pessoas jamais poderão ser condenadas a imitar indefinidamente padrões sociais, como os animais fazem. Um macaco, um cachorro, um papagaio agem como agem há milhares de anos, com pouquíssimas variações. Dos seres humanos não há como falar o mesmo. Um egípcio do século 50 A.C. vivia numa sociedade diferente da de um chinês da mesma época e tinha comportamento diferente daquele de um morador do Egito da atualidade. Quem pensa o contrário adota a inversões dos dominadores, que querem congelar as possibilidades humanas para que permaneçam escravas de seus caprichos.
A grande imprensa faz sua parte na inversão das coisas para manter a dominação. No caso em questão, escolheu ficar com os ratos.
(*) Sociólogo, integrante do Núcleo Piratininga de Comunicação e do Núcleo de Estudos do Capital (PT-SP) <www.midiavigiada.kit.net>