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JORNALISMO CIENTÍFICO
Imprensa e o compromisso com o futuro

Ulisses Capozzoli (*)

O jornalismo científico no Brasil certamente será um antes e um depois da 3ª Conferência Mundial de Jornalistas de Ciência e do 7º Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, realizados de 24 e 27 novembro, em São José dos Campos (SP).

Um grupo de pelo menos 400 participantes, incluindo apresentadores e debatedores de trabalhos, reuniu-se a cada um desses dias no campus da Universidade do Vale do Paraíba (Univap) para discussões em torno de um tema central "Jornalismo científico e desenvolvimento humano".

Debates com essa pauta não são exatamente novidade. Mas, de tempos em tempos, retornam com vigor inquestionável. A razão disso é o crescimento periódico da noção de que o conhecimento científico serve naturalmente a um sistema de produção sem que as relações entre a produção e o conjunto da sociedade fiquem suficientemente esclarecidas. O que, neste contexto, sugere, periodicamente, a mesma pergunta: para que serve a ciência?

O universo da ciência permeia o cotidiano do mundo, mesmo em ilhas aparentemente isoladas de sua influência direta. Nas sociedades urbanizadas, mesmo com as diferenças radicais entre esses mundos, a ciência está em tudo o que se faz. Daí a necessidade de uma reflexão sobre o significado dessa nova ordem.

Uma das primeiras questões, no caso, envolve o que vem sendo chamado de "analfabetismo científico". A expressão talvez seja um pouco dura, mas é possível que esse desonforto seja produtivo para definição da necessidade de o jornalismo, especialmente o impresso, sensibilizar a sociedade para as perspectivas da ciência.

Transformações sociais

Evidentemente que a preocupação voltada para a alfabetização científica não se trata de uma função exclusiva do jornalismo científico. Por isso enfatizamos que o jornalismo deve "participar" deste processo – ao lado da escola, da comunidade científica e de outros organismos sociais.

As razões para isso são muitas e variadas. Os que desconsideram essa necessidade certamente não levam em conta o impacto que a revolução de Gutenberg teve na popularização da Bíblia e na Reforma, com efeito direto na eclosão da ciência moderna. Para não falar do efeito sobre o sistema de produção baseado nas guildas.

A dissolução dessa estrutura de produção medieval se deu, entre outros meios, pela publicação de ensinamentos que hoje seriam algo parecidos a manuais de ofício. Aí estão as raízes mais profundas do anarquismo, no chamado período pré-científico, antes da Revolução Francesa, e a busca, ainda hoje, de um sistema menos alienante para a produção, da parte dos trabalhadores.

A participação do jornalismo num processo moderno de alfabetização científica, no entanto, passa por uma reformulação profunda da formação de jornalistas, na qual a dimensão epistemológica, a metateoria do conhecimento, deve indicar sempre a direção polar. Sem uma boa base em história e filosofia da ciência, entre outras complementações, não se pode pensar em jornalismo interpretativo.

Jornalismo interpretativo não é um luxo nem modismo. É uma necessidade. Uma reação do jornalismo impresso às transformações científico-tecnológicas que popularizaram os computadores e viabilizaram a internet.

O fluxo de informações da internet é inédito na história da civilização. Mas, por sua natureza intrínseca, a internet não "interpreta" no sentido de dar contextualização histórica aos acontecimentos. Essa é nova função do jornalismo: contextualizar historicamente e assim fornecer inteligibilidade possível à máquina do mundo.

O jornalismo interpretativo deve deixar para o passado certos conceitos arraigados na imprensa, como a preocupação bipolarizada entre economia e política. Mas ainda pode demorar mais algum tempo para que donos de empresas e diretores de redação se dêem conta dessa nova situação.

Os grandes jornais brasileiros têm suplementos de turismo, agricultura, informática e da novela das oito, mas nenhum caderno de ciência. Certamente que isso não ocorre puro acaso.

Evidente que um processo de alfabetização científica não tem como ser pensado fora do contexto de outras transformações significativas na sociedade. A particularidade é que o jornalismo científico, ao participar desse processo, amplifica essas transformações ao permitir que se crie uma nova percepção da máquina do mundo em segmentos mais amplos e diversos da população.

Precondição democrática

Analfabetismo científico não é particularidade de alguns. Nos Estados Unidos, potência científica do planeta, há pessoas capazes de ler jornais não acreditam que o homem pisou na Lua.

Na periferia de São Paulo, a reação química provocada por detergentes numa vidraça faz emergir, numa comunidade surtada pela violência e pela impiedade social, "a imagem do Virgem". Multidões se reúnem, em meio a vendedores de comida barata, para pedir piedade aos céus. Na terra, os ouvidos lhes são surdos.

O jornalismo científico não vai muito bem no Japão e na Índia, que também enviaram representantes a São José dos Campos, entre o grupo de jornalistas de 26 países de todo o mundo.

No Japão, os jovens não estão muito interessados em ciência. Na Índia, a crise econômica fechou, ao menos temporariamente, publicações envolvidos com a divulgação científica. No Brasil, ocorre o contrário – e a realização dos dois encontros, simultaneamente, é apenas uma das evidências disso.

No Brasil, de tradição científica recente e alguma memória positivista tanto na produção como divulgação científica, as perspectivas são as melhores de toda a América Latina e nada inferior, em qualidade, ao que se faz em outras partes do mundo.

Ainda assim, uma das preocupações do encontro foi discutir a formação dos jornalistas científicos, com a reafirmação da idéia elementar de que jornalistas são trabalhadores intelectuais.

Muitos jornalistas, especialmente de gerações mais antigas, não estão dispostos a acreditar que a especialização, no jornalismo, seja uma necessidade inevitável e, nem por isso, negativa. Ao contrário. Sem base epistemológica, os jornalistas científicos tendem a enveredar pelo senso comum – ou o "bom senso" – na produção de seus trabalhos. E a ciência, enquanto busca do novo, em quase 400 anos de história não deve um único centavo ao bom senso. A ruptura da posição do observador, com a relatividade e a quebra do linear com a mecânica quântica (para não falar da completa subversão de Descartes, com a psicanálise), são a melhor prova disso.

Além do mais, a ciência não pode continuar sendo vista apenas com seu potencial aplicativo, independente das questões em que ela se mostre capaz de oferecer uma alternativa. A ciência tem uma dimensão lúdica, de narrativa quase alegórica da história do mundo, a que todos os homens, suas mulheres e filhos deveriam ter acesso livre como precondição para se referir a democracia, enquanto oportunidade para todos.

Uma frase do físico nuclear – e prêmio Nobel – Ernest Rutherford sintetiza melhor que outros pensamentos a dimensão da ciência: "Uma sociedade que não amar a ciência estará condenada a carregar água e lenha para outras, mais desenvolvidas".

Jornalistas e pesquisadores

A Federação Internacional dos Jornalistas de Ciência, cuja criação foi formalizada ao longo do encontro de São José dos Campos, também traz uma outra perspectiva à divulgação científica. Uma das funções da federação, além de estimular como um todo o jornalismo científico, é viabilizar a criação de associações em países onde essa iniciativa ainda não exista – caso de Portugal e Argentina, dois países com relações próximas do Brasil.

O mundo da ciência, longe do refúgio ideal que a própria mídia forjou para a investigação, com homens generosos e desprendidos, é algo bem diferente. Ao menos nos dias atuais. Ciência e tecnologia são pares inseparáveis e a resistência dos Estados Unidos e Canadá à oferta internacional de aviões produzidos no Brasil é só um dos exemplos dessa disputa baseada no conhecimento.

O encontro de jornalistas mostrou que o futuro é promissor, apesar das dificuldades naturais. Para que um projeto de sensibilização para a ciência tenha sucesso, é preciso uma aproximação grande entre jornalistas e pesquisadores científicos.

Do lado do governo, é preciso, definitivamente, regras para o fluxo mais harmonioso de recursos voltados para essas questões – que o próprio governo reconhece como estratégicas. Menos na hora de liberar os recursos: tanto o que foi prometido como o prazo em que tudo foi combinado.

(*) Jornalista, mestre em Ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil


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