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OFJOR CIÊNCIA 99

 

OfJor Ciência 99 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

 

ALIMENTOS TRANSGÊNICOS
Canibalismo animal

Joaquim Moura (*)

 

A matéria publicada na Folha de S.Paulo (27/6/99), sobre o canibalismo animal promovido pelas rações hoje usadas na agroindústria moderna (ou devo dizer agribusiness?), revelou outro crime de que somos vítimas inadvertidas neste pesadelo tecnológico em que se converteu o final do século 20. Nela ficamos sabendo que os produtores de bois, frangos, ovelhas e outros animais vegetarianos estão alimentando suas criações com ração contendo farinha de carne, sobra do abate de outros animais, como forma de engordá-los mais rápido e assim ganharem mais dinheiro.

Quantos, entre leitores e jornalistas, sabiam que estamos comendo carne de frango carnívoro e de boi canibal? Eu lembro que a doença da "vaca louca" teve origem na carne contaminada de carneiro incluída na ração do gado, mas nenhum jornal aprofundava esse absurdo nem informava se, no Brasil, também se desnatura a tal ponto os animais. Desnaturar as plantas e a nossa alimentação, vai poder: li que o ministro Bresser Pereira tomou as dores da Monsanto e está exigindo que a Justiça permita que o Ibama autorize e que a sociedade aceite consumir alimentos alterados geneticamente.

O artigo da Folha priorizou apenas o lado econômico do problema, ou seja, a economia de custos para o criador, sem abordar o impacto dessa alimentação imprópria na saúde dos animais, na sua fisiologia e personalidade. Tampouco foi abordado o impacto do consumo da carne (e do leite) desses animais degenerados, desvirtuados e estressados em nossa saúde individual e social. Quem duvida que a falta de ética com os animais e com a natureza não está na base da falta de ética vigente em nossa sociedade em geral, em nosso governo, em nossa indústria cultural?

Não é total desrespeito conosco mesmos obrigar-se uma vaca ou um frango a comer carne? Quem acredita que problemas sociais como a superlotação hospitalar, a violência, as toxicomanias e a pobreza serão reduzidos se a população se alimenta de modo cada vez mais antinatural?

Cheiro fétido

As autoridades – que deviam proteger a nação – continuam nos vendendo barato às experiências ditadas pela ganância e insensibilidade do complexo agroindustrial tecnológico internacional, dominado por número cada vez menor de gigantescas empresas químico-genéticas americanas e européias, cujo valor fundamental é o lucro. Como parceiras, as indústrias farmacêuticas e hospitalares, que prometem nos vender drogas e tecnologias moderníssimas para nos curar de todas as doenças degenerativas e decadência imunológica que tal alimentação industrializada (para dizer o mínimo) vêm provocando, crescentemente.

Uma frase do artigo é emblematicamente ingênua, ao afirmar que a alimentação atual é a mais segura e adequada para a humanidade, em todos os tempos. Se a frase fosse verdadeira, nem estaríamos aqui, pois uma alimentação inadequada não nos teria deixado evoluir de microorganismos a seres humanos. Ou ainda: coitados dos animais na natureza, que devem estar comendo alimentos inadequados e inseguros, sem ter o ministro Bresser nem a Monsanto para cuidar de sua nutrição... Parece até a frase do presidente dessa empresa, publicada no Correio Braziliense, afirmando que sua soja transgênica foi tão testada, em seus dez anos de inventada, que "na verdade, nunca um alimento foi tão pesquisado antes de ser consumido".

Na verdade, digo eu, prefiro os alimentos exatamente como evoluíram pelas mãos da natureza, aprovados por incontáveis gerações de povos através das eras: trigo, milho e arroz integrais, folhas, legumes, brotos, raízes e pouquíssimos produtos animais.

Fico ainda mais revoltado só de pensar que eu – como colaborador voluntário na implantação de hortas comunitárias <www.partners-bsbdc.org/hortas01.htm> – corro o risco de em breve estar lidando com estrume de vacas que comeram carne, apresentando o cheiro fétido típico das fezes de animais carnívoros.

Crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada no Jornal do Brasil em 1978, sobre minhas preocupações com o futuro da alimentação nacional, está na página <www.partners-bsbdc.org/drummond.htm>. Imaginem o que o Drummond e o Augusto Ruschi (outro amigo meu mencionado na mesma crônica) estariam pensando sobre vacas carnívoras e comida alterada geneticamente...

(*) E-mail: jmoura@hotmail.com

 

CULTURA SEXUAL
Sem o furacão Lewinsky,
pautas voltam à pobreza

Comissão de Cidadania e Reprodução (*)

 

Depois de ficar em cartaz durante todo o ano passado, o item cultura sexual cedeu espaço a outros temas no noticiário sobre saúde reprodutiva. Sob o impacto do caso Clinton-Lewinsky, em 1998, a cobertura esteve influenciada pela quantidade de espaço dedicado ao tema. Passado o furacão, já é possível avaliar suas conseqüências: caiu de 68% para 42% o espaço dedicado à cultura sexual.

Além da redução do noticiário sobre o tema, registram-se mudanças significativas no noticiário dos seus subtemas: o espaço dedicado a assédio sexual caiu de 57% para 0,2%, mostrando que o caso Clinton influenciou tanto na cobertura como na falta de interesse sobre o assunto depois de passada a avalanche. Outros três subtemas registram, no entanto, aumento significativo no noticiário:

Sexualidade dobra o espaço ocupado – "Igualdade é ter liberdade para escolher", matéria da Folha de S.Paulo, e "Sexo aos 50", publicada em O Globo, ocupam respectivamente o terceiro e o quinto lugares entre as cinco maiores matérias do período. São exemplos de como o tema passou a ser tratado a partir de uma pauta mais ligada ao cotidiano e menos ao excepcional.

Pedofilia também cresce em espaço – Resultado da intensa cobertura à repressão da pedofilia na Internet. Destaque para a denúncia da Folha ("Site desnuda mundo dos boylovers") e maior espaço dedicado ao tema.

Violência cresce proporcionalmente – Mas cai para a metade da centimetragem ocupada no quadrimestre anterior, espaço ainda insignificante para refletir todas as questões que envolvem a violência contra a mulher. A cobertura sobre o tema em geral é feita nas páginas policiais, com destaque para os casos que culminam em morte ou megacasos, como o do Maníaco do Parque, que de escândalo no ano passado virou nota de pé de página no primeiro quadrimestre.

Em contrapartida, subiu de 10% para 25% o noticiário sobre reprodução, especialmente nos itens fisiologia da reprodução (de 5,7% para 18,2%) e gravidez (de 16,7% para 22,3%). Mais espaço, no entanto, não foi sinal de mais reflexão. No item reprodução assistida, por exemplo, muitas perguntas estão sem resposta: a maioria delas sequer entrou na pauta da imprensa especializada. Os poucos artigos são traduzidos do exterior e não incorporam ao debate vozes brasileiras, e os estudos acadêmicos e publicações científicas predominam como fonte de notícias (19,8% e 16,7%, respectivamente, contra 4,9% de matérias de opinião). Apesar da velocidade das transformações, ainda há tempo para refletir e a CCR acredita estar contribuindo para o debate quando pergunta: "Pode a perplexidade substituir a reflexão?". Não, não pode.

Tratamento convencional

As matérias sobre saúde reprodutiva e sexualidade tiveram espaço: ocuparam um o equivalente a 110 páginas de jornal, ou 33 mil centímetros/coluna, o que representa uma queda significativa em relação a 1998, quando os quadrimestres tiveram 242 páginas de janeiro a abril, 370 de maio a agosto e 265 de setembro a dezembro.

Mais do que indicar menor volume – em parte decorrente da redução de páginas dos jornais imposta pela alta do dólar –, os resultados devem ser lidos à luz dos assuntos que determinaram a magnitude do espaço ocupado nos períodos anteriores. Assédio sexual é o exemplo que mais chama a atenção: enquanto o caso Clinton esteve em evidência, foi assunto e desdobrou-se em muitas pautas; depois de excluído o caso, não mais se ouviu falar na questão. Será que o assédio sexual acabou? Não, na vida real certamente não, mas no noticiário o tema desapareceu por completo no quadrimestre.

A mesma contabilidade pode ser feita para violência. Enquanto a polícia perseguia o Maníaco do Parque, o tema mereceu 20 páginas de jornal (6.566 cm/col.), número que caiu para sete páginas (2.476 cm/col.) entre janeiro e abril deste ano. A violência contra a mulher diminuiu? Não. Impotência esteve em voga enquanto o Viagra era novidade, mas já caiu de novo no corriqueiro tratamento cotidiano. Anticoncepção foi importante quando do escândalo das pílulas de farinha; agora está de volta ao rotineiro tratamento convencional.

Quando pressionada por um grande acontecimento, a mídia reage, inventa, desdobra, tenta sustentar o tema, às vezes acerta, às vezes erra, mas dá tratamento de luxo. Passado o furacão, seja ele qual for, a imprensa volta ao feijão-com-arroz do dia-a-dia: muitos assuntos descontinuados, fragmentados, picadinhos em notas curtas ou matérias desconexas do todo, de onde deveria vir o sentido de cada parte.

(*) A CCR tem site em <www.ccr.gov.br>



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