05/08/2003 2/2

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SÓ PARA LEITORAS
O homem-pênis da Folha

Cláudia Rodrigues (*)

Entrou na Folha Online, lá está o destaque: "Veja o Especial Saúde do Homem". Não dá para não irritar, não dá para não comentar, não dá para não rir. Para amar e ser amado por mulheres turbinadas, a Folha lança o homem-pênis. Ao lado da "matéria" pisca a publicidade de um indutor de ereção: 36 horas para escolher o momento certo. Está morta a cobra.

Os candidatos a homem-pênis ficam sabendo que, segundo pesquisa patrocinada pelo Viagra, 54% dos brasileiros sofrem de problemas de ereção. Mas não devem ficar preocupados e nem se envergonhar de procurar ajuda médica porque, segundo a Folha em um dos intertítulos, existe um "arsenal contra a impotência". Consta no arsenal uma lista com todos os medicamentos disponíveis no mercado.

Vamos por partes.

Uma pesquisa encomendada pelo Viagra seria confiável ou tendenciosa?

Supondo que a pesquisa não tenha manipulado dados para favorecer a venda do medicamento, é bom lembrar que o padrão científico de pesquisa em si já é altamente questionável pela ausência de variáveis.

E por falar em variáveis e padrões científicos, é importante ressaltar que o texto é extremamente cartesiano, segmentado; trata o pênis como um sujeito, algo separado do ser humano, que não interage com essa pessoa que o porta, é um objeto que precisa "funcionar" o tempo todo. De preferência, por 36 horas consecutivas.

Coitadas das mulheres dos homens-pênis, não vão ter aquela sensação de conseguir, de seduzir, de sentir o aquecimento do coração de seus companheiros se expandindo pelo corpo todo até chegar ali, no lugar encantado.

Parceria mafiosa

Credo, parece filme de terror sexual, o cara lá todo pronto, sorrindo de puro narcisismo, sem se entregar, porque com segurança máxima ninguém se entrega, e se não se entrega, que graça tem?

Ainda em cima do dado alarmante – 54% dos homens com algum problema de ereção –, seria interessante verificar se o percentual de mulheres insatisfeitas bate; afinal, se mais da metade dos brasileiros está com problema de ereção... Que balela!

Alguns homens têm problemas de ereção, mas essa porcentagem divulgada pela Folha, a serviço do Viagra, é absurda.

A maioria dos homens não tem problemas de ereção, e a maioria das mulheres, namorando ou casadas, têm que literalmente rebolar para corresponder ao desejo atávico dos homens por sexo. Alguém discorda? Alguém acredita que mais da metade dos brasileiros tem algum problema de ereção? Mulheres, confessem, entre todos os namorados da juventude, durante anos de casada, depois de separadas, em suas experiências, quantos por cento dos homens tiveram problemas de ereção? É uma porcentagem mínima e, além disso, está aliada a muitos fatores da relação.

O que pode ser verdade é que os laboratórios investiram muito para dar conta de um problema que não era tão grande, e agora precisam dos clientes para consumir as drogas, como sempre. E aí estão barbarizando com a sexualidade dos homens, levando homens saudáveis e inseguros a consumir uma droga que quiçá pode torná-los dependentes. E isso, sim, seria um problema de saúde pública.

Para maquilar o indisfarçável, e justificar o título "Especial Saúde do Homem", o texto tenta abordar outras questões, como calvície, próstata, coração e barriga. E aí descarrilha de vez.

O homem-pênis da Folha deve andar também com o pisca-alerta ligado, porque qualquer sinal, como diminuição do jato urinário ou uma ida a mais ao banheiro na madrugada, pode ser sintoma de problemas na próstata. Pode até ser, mas há um tom alarmante injustificável e faltam, como faltam, muitas ponderações.

Não será normal que um homem de 60 anos tenha um jato urinário menos forte do que tinha aos 20? O corpo humano que a mídia vende em parceria com a máfia de branco é um corpo que só vale e só é medido em relação ao ápice do seu desenvolvimento, em torno dos 20 anos. Congelado aí, como se não fosse vivo, em processo, em transformação, mutável e flexível.

A cilada não funcionou

Quando a mídia cumprirá seu papel informativo, a começar por um questionamento sobre a invasão da medicina no processo natural de envelhecimento do ser humano? Quando a ciência médica vai parar de olhar para o próprio umbigo e usar a pesquisa para entender como funciona, mais do que modificar, o que julga estar errado nos processos inerentes à vida? Lamentável a parte próstata do especial homem-pênis!

O Incor vendeu bem seu peixe ao revelar que 40% dos pacientes de doenças coronárias não apresentam os chamados fatores clássicos de risco. E ainda revelou que o ataque cardíaco é a primeira causa de morte no país. Mas não pára por aí: seguindo a trilha da matéria pisca-alerta ligado, compara o coração a uma bomba prestes a explodir. Essa não dá para não rir, e o mais engraçado é que as drogas para a chamada disfunção erétil aceleram as batidas do coração. Daí é só imaginar o cara com a coisa das 36 horas, preparado para sua noite turbinada, só pensando em fazer uma revisão médica na manhã seguinte, porque independentemente da idade do homem, segundo o Incor, o ideal é prevenir seqüelas de um ataque cardíaco.

É que, partindo do princípio de que o sujeito não morra de alguma doença do coração, existe um alto índice de acidente vascular cerebral e paralisia parcial do corpo. Então, só tem um remédio, já a partir da juventude: a prevenção, o mal do século para a saúde mental, e a auto-estima do ser humano, o maior arrastão que a medicina moderna aplicou na sociedade.

A boa notícia médica sobre a barriga do homem-pênis é que para a barriga não é necessário tomar remédio. O texto até tentou forçar a barra da gordurinha acumulada na barriga, mas a profissional que deu a entrevista não titubeou e nem tentou entender o espírito da matéria. Para barriga é o velho e saudável exercício físico aliado a um prato bom de comida, do tamanho que deixa um homem sustentado, com direito a carboidratos e tudo mais. O homem-pênis ainda não está concorrendo com a perua light no consumo do diet shake. Ponto para a profissional da USP que deu a entrevista e não caiu na cilada.

Vai um careca assanhado?

Agora, a mais lamentável das agruras desse texto é a parte que diz respeito à calvície, porque careca não é doença e nem ausência de saúde. Segundo o médico consultado, especialista da dermatologia, o mercado dispõe de drogas variadas, e o médico deve ser procurado logo que os primeiros sintomas se manifestem. Um quarto dos homens, segundo a Folha, começa a perder cabelos por volta dos 25 anos; 40% aos 40 anos e 50% com 50 ou mais.

O arsenal para os carecas consiste em loções que podem causar escamações, coceiras e irritações no couro cabeludo, e passa por comprimidos que podem causar desenvolvimento das mamas e perda de libido. O tratamento, dependendo do caso, pode ser uma combinação das drogas, e não deve ser interrompido porque o sintoma, a perda de cabelos, pode voltar. Entre as causas citadas da queda de cabelo está uma bastante curiosa; o roçar no travesseiro durante a noite.

Bem, a essas alturas já temos um perfil do homem-pênis: detesta cafuné e ficar embaixo, na hora do amor, nem pensar. São cerca de 25 mil fios de cabelo que caem quando a cabeça roça no travesseiro!

Não tem barriga e não é careca, mas é maniático por exames de prevenção, toma remédio para dormir porque não consegue relaxar o pescoço no travesseiro, tem peitinhos de adolê e não tem libido, desejo, mas está "pronto" para o sexo.

E o especial ainda diz que aquela história de que é dos carecas que elas gostam mais é puro mito. E você leitora, o que reflete?

Trocava um careca assanhado por um homem-pênis?

(*) Jornalista

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