|
OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2000 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
ASPAS
JORNALISMO CIENTÍFICO
Roldão Arruda
"Jornalismo científico ganha espaço no noticiário", copyright O Estado de S. Paulo, 27/11/00
"Efeito estufa. Clonagem. Transgênicos. Biodiversidade. Explosões solares. Projeto Genoma. Esses são alguns dos temas que movimentam laboratórios científicos ao redor do mundo e estão cada vez mais presentes no noticiário. Representam, entre tantos outros, a crescente proximidade entre os cientistas e os destinatários finais do conhecimento que produzem - as pessoas comuns.
Representam, também, um fato inédito na história da civilização: nunca se produziu conhecimento científico na velocidade verificada agora. Desde a metade deste século, os conhecimentos acumulados praticamente dobram a cada 18 meses. Hoje, por exemplo, o que se sabe sobre angiogênese, a formação de vasos sanguíneos que nutrem um tumor canceroso, é o dobro do que se sabia há um ano e meio. Há quatro anos, o fenômeno era praticamente desconhecido.
O impacto dessa revolução na linha de frente é facilmente perceptível. Basta abrir a edição diária de qualquer jornal para perceber isso. Na TV também aumenta o tempo para programas de divulgação científica. Na rede a cabo existem canais integralmente dedicados ao assunto, como o Discovery Channel e o National Geographic Magazine. Mas também ocorrem mudanças na retaguarda:
por causa da demanda, aumenta o número de interessados em trabalhar na área de divulgação científica e a oferta de cursos especializantes.
O interesse é detectado por especialistas da área. Entre eles, Carlos Vogt, ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e atual coordenador do curso de especialização em jornalismo científico daquela escola. Ele conta que a atração despertada pelo curso surpreendeu, desde sua inauguração, em 1999. Este ano, quando foram oferecidas 35 vagas em nível de pós-graduação, apareceram 145 candidatos.
No fim, o número de vagas foi ampliado para 40. Metade delas é ocupada por jornalistas e a outra metade por cientistas de diversas áreas, da biologia à antropologia. Todos interessados em aprender como traduzir para pessoas simples, como um jovem estudante ou uma dona de casa, os códigos da ciência.
Explicar, por exemplo, como as últimas pesquisas de engenharia genética vão influenciar a vida das pessoas daqui a cinco anos. Ou ajudá-las a decidir se devem ou não consumir alimentos com transgênicos.
Ao perceber a mudança, a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) criou este ano um programa de incentivo, com bolsas de estudos para pessoas graduadas. Com duração de seis meses e mensalidades que variam de R$ 350,00 a R$ 1.800, os cursos pretendem incentivar pessoas já vinculadas a trabalhos de divulgação científica, em instituições públicas ou privadas.
Na mesma trilha, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) lança até o fim do ano o Programa Educação para a Ciência. Os detalhes de seu funcionamento ainda estão sendo alinhavados, mas sabe-se que favorecerá a popularização da ciência - especialmente aquela produzida no País.
Arredios - Uma das queixas comuns entre cientistas brasileiros é a de que os meios de comunicação traduzem muitas reportagens produzidas no exterior e dão pouca atenção ao que é feito aqui. Segundo informações do CNPq, o Brasil está entre os 18 países que mais produzem conhecimento de alta qualidade no mundo.
Mas, do outro lado, também há queixas: jornalistas repetem que nossos cientistas gostam de exibir-se uns para os outros, mas são arredios à imprensa.
Aos poucos, esse muro está sendo derrubado. Um dos melhores exemplos é a revista mensal Pesquisa, que a Fapesp lançou no fim do ano passado.
Organizada por especialistas em divulgação científica, ela apresenta em primeira mão o conjunto de pesquisas financiadas pela entidade. Com 26 mil exemplares, funciona como uma ponte entre os laboratórios e as editorias de ciência dos meios de comunicação.
Na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), o professor Wilson Bueno observa que entre os estudantes de jornalismo já é comum encarar a divulgação científica como uma opção de trabalho, num mercado cada vez mais segmentado. Para atendê-los, as escolas começam a oferecer um número maior de disciplinas optativas já no período de graduação.
Além dos jornais, quem se especializa nessa área está sendo absorvido por assessorias de universidades interessadas em divulgar o trabalho de seus pesquisadores, empresas de tecnologia, laboratórios farmacêuticos. Outro sinal de mudança é o crescimento da Associação dos Jornalistas Científicos do País. A entidade, presidida por José Hamilton Ribeiro, repórter do programa Globo Rural, já congrega 500 profissionais.
Segundo Bueno, que obteve o título de doutor em comunicação há 15 anos, com um estudo sobre a cobertura de temas científicos pela imprensa, a necessidade de especialistas invadiu quase todas as áreas dos jornais. Dos cadernos de informática e de pecuária às páginas de saúde, há sempre cientistas em destaque."
Volta ao índice
OfJor – texto anterior

|