OFJOR CIÊNCIA

JORNALISMO CIENTÍFICO
Alienação e desalento nas edições dominicais

Ulisses Capozoli (*)

Ler a edição dominical dos quatro principais jornais brasileiros (Folha de S Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e Jornal do Brasil) é quase um exercício de desalento. A não ser por uma questão pontual aqui, outra ali, o conteúdo é quase o mesmo, até no que poderia ser diferente. Com as revistas é a mesma coisa.

A sucessão presidencial é o assunto de todos, tratado como uma enfadonha novela mexicana. Se os leitores pudessem folhear as coleções de jornais de alguns anos atrás, ou exemplares acumulados de alguns meses, veriam que nada mudou e dariam razão a uma interpretação religiosa de que não há nada de novo sob o Sol – quando Heráclito do Ponto, filósofo grego do século 4 antes de Cristo, aluno de Platão e talvez de Aristóteles, sustentou exatamente o contrário: tudo é novo sob o Sol.

Convencidos da versão religiosa, boa parte dos leitores poderia decidir-se por gastar dinheiro de outra maneira, e esta talvez fosse uma forma de sacudir a pasmaceira das redações. Todos os jornais estão ruins, por isso um não teme o outro. Um leitor mais curioso, um adepto de Heráclito, não tem alternativa.

Anunciadores do futuro, em muitos casos, sustentam que a internet vai acabar com a imprensa escrita. Além da opinião de cada um, parece não haver razão para se pensar assim. Ao contrário. A internet está exigindo da imprensa escrita que faça jornalismo interpretativo, contextualização histórica dos acontecimentos, como forma de se obter uma inteligibilidade possível do mundo, para usar uma definição algo sumária do que seja essa nova função.

Para fazer jornalismo interpretativo, os donos de jornais (os publishers, como ficou chique dizer) devem abrir mão do comodismo, da solução fácil de apregoar e vender sempre o mesmo peixe. O jornalismo científico é um ponto de partida promissor para uma mudança nessa direção e talvez seja exatamente por isso que nenhum órgão de imprensa no Brasil disponha de um suplemento semanal de ciência.

Velas e lampiões

A inexistência de suplementos de ciência talvez tenha uma relação com a epidemia de dengue, que assola particularmente o Rio de Janeiro, maior que a aceitável à primeira vista. A razão disso é a possibilidade de os suplementos, por disponibilidade de espaço e por desfrutarem da confiança de leitores mais qualificados do ponto de vista crítico, serem capazes de fazer, ao menos teoricamente, uma abordagem sistêmica de problemas desse tipo. Sistêmica no sentido de, mesmo discutindo pontualmente uma questão, no caso a dengue, poderem localizar o ambiente em que os acontecimentos se dão e chamar a atenção da sociedade para as ameaças.

O tratamento diluído nas edições diárias é incapaz de formar um juízo de valor do que está em análise e esta pode ser uma fonte capaz de criar mais confusão e pânico que consciência e ação determinada.

O presidente da República, com sua prática costumeira de apropriar-se de tudo o que pode dar certo, a exemplo do Plano Real que surrupiou de Itamar Franco, repetindo o que fez com o "apagão", já se eximiu de responsabilidades pela epidemia de dengue. No caso do apagão, o presidente disse, primeiro, que não sabia. Depois, culpou um ministro do PFL, como se não fosse um ministro de seu governo, cargo de sua inteira confiança. O presidente, com sua proverbial versatilidade, diz que "a dengue é estadual e municipal", como se não fosse um absurdo completo uma interpretação como essa, mesmo com todo o conteúdo alegórico que possa ter.

Na ausência de uma apreciação sistêmica, sem uma visão de conjunto, a mídia procura um culpado – no que o presidente rebate que "não é hora de procurar culpados". De fato, não é hora de se apontar culpas, mas de achar responsáveis. Se um sismo se abate sobre uma terra, não se pode dizer que exista um culpado. Trata-se de um fenômeno da natureza. Mas, aqui, devem existir responsáveis pela tarefa de enfrentar as calamidades eventualmente trazidas pelo sismo. Ao menos teoricamente, é para isso que existem governos, embora, na prática, a preocupação dos governos seja, quase sempre, apenas a de cobrar impostos, iniciativa que não teve limite nos dois mandatos do atual presidente.

Levantamento feito pela Folha de S.Paulo (3/3/02, págs. C 1 e C 2) em seis capitais mostra que houve um aumento no número de atropelamentos provocados pela falta de iluminação. O informal "ministério do apagão" recusa-se a analisar o caso e, seguindo o exemplo do presidente, atribui a culpa à imprevidência das prefeituras, cujas cidades, por razões completamente alheias à vontade de seus prefeitos, ficaram às escuras.

Pode parecer metáfora, mas é a pura verdade. Ao menos a rede de supermercados Pão de açúcar, durante todo o período do apagão, teve uma estoque de tochas à venda. Além de lanternas, lampiões e velas, pudemos também comprar tochas para o mesmo uso de nossos antepassados, os homens das cavernas, de 100 mil anos atrás. E há quem veja a História como um movimento quase que uniformemente acelerado, transportando os humanos das trevas da noite e do desconhecimento às luzes da razão bem estabelecida.

Febre amarela

Observando pela leitura dos jornais, especialmente as edições dominicais, que deveriam provocar minimamente seus leitores para uma reflexão sobre a experiência de se estar no mundo, percebe-se que, no Brasil, os acontecimentos se dão como num ecossistema. Por trás da epidemia de dengue, da violência urbana que não pára de crescer porque não há nada em curso que detenha a proliferação da marginalidade, está uma profunda deterioração social. Esta é a razão determinante de um caos que se apresenta de diferentes maneiras mas, na essência, é uma coisa só.

O presidente, como sociólogo, tem a obrigação de saber disso e, como homem inteligente, de fato sabe muito bem. Mas o presidente, além de sociólogo, é um político e aí é que entra sua enorme disposição de sofismar, com o perdão dos sofistas, as primeiras vítimas do atropelamento etimológico que essa palavra sofreu.

As ciências humanas integraram formalmente a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1972, quase um quarto de século depois da fundação da entidade que surgiu para defender a pesquisa científica de ingerências políticas, inicialmente do governador paulista Adhemar de Barros, o "Rouba mas Faz". O presidente da República foi conselheiro da SBPC durante os chamados "anos de chumbo", quando o direito foi atirado no lixo e as forças brutas da sociedade tiveram liberdade plena para agir, iniciando a prática de seqüestros e extorsões que hoje não surpreende mais ninguém, ao mesmo tempo em que aterroriza a todos. Nem os miseráveis escapam. Seqüestros já ocorrem em ônibus e no metrô, por um pequeno punhado de reais.

O que as ciências humanas têm a dizer e o que a imprensa deveria estar perguntando aos cientistas sociais, sobre epidemias e violência, fazendo o que Edgar Morin, sociólogo e antropólogo francês, uma das cabeças mais lúcidas do planeta neste momento, chamou num livro que saiu o ano passado por aqui de A Religação dos Saberes?

O livro, que Morin sistematizou, é resultado das "jornadas temáticas" – uma espécie de seminário reunindo as inteligências científicas da França, estimuladas pelo ministro da Educação Claude Allège, para propor uma revisão na interpretação do mundo. Logo na abertura, Morin cita Platão, em O Sofista, para reproduzir o seguinte diálogo.

O Estrangeiro: Distinto amigo, esmerar-se em separar tudo de tudo é algo não somente discordante, mas também prova de desconhecimento das Musas e da filosofia.

Teeteto: Por quê?

O Estrangeiro: É a mais radical maneira de aniquilar toda argumentação, esta de separar cada coisa de todas as outras, pois a razão nos vem da ligação mútua entre as figuras.

Como se vê, ao menos em Platão, e em muitos que o sucederam no tempo, há razões de sobra para se pensar que os acontecimentos não estão separados mas, bem ao contrário, estão bem unidos ainda que possam, como as quatro forças básicas da natureza, derivar de uma única, que permanece oculta aos olhos de observadores desatentos.

A imprensa, neste momento, está não desatenta, mas cega para olhar o Brasil onde os problemas são numerosos, mas podem e devem ter solução desde que existam responsáveis, em todos os níveis da sociedade. Além da dengue, para ficar apenas numa abordagem imediata da saúde pública, há também febre amarela (que há 100 anos motivou a Revolta da Vacina no mesmo Rio de Janeiro afetado por uma epidemia), malária, tuberculose, cólera e hanseníase, esta última uma doença bíblica.

Idéias obsoletas

Mas o Brasil não é só desacerto, embora desacertos pareçam não ter fim. O Brasil tem, por exemplo, 50 grupos indígenas isolados, nações inteiras, embora não muito numerosas, que se recusam, sistematicamente, a manter contatos com a sociedade exterior – a "civilização", como prefere uma terminologia carregada de pretensa superioridade. Há poucos anos dois desses povos, recentemente contatados, visitaram-se. Os Uaiãpis, do Amapá, foram visitar seus primos, também do tronco tupi-guarani, os Zoé, do Pará, conduzidos pela antropóloga Dominique Gallois.

A história desta visita é uma destas metáforas do Brasil. Os Zoé, que estão sendo preparados para contatos com a sociedade exterior, estavam ansiosos para saber das novidades pelos Uaiãpis, que já têm contato há certo tempo e, por isso mesmo, já brigaram de armas em punho com invasores de suas terras. Os Uaiãpi queriam resgatar, com seus primos mais antigos, conhecimentos que haviam perdido no tempo. Quando a visita aconteceu, a pequena missão Uaiãpi saciou parte da curiosidade Zoé, ao mesmo tempo em que buscou o tesouro que julgara perdido. Quanto ao cacique Uaiãpi, Wai-Wai, passou a maior parte do tempo discutindo com o cacique Zóe a origem do universo e a origem da humanidade...

Brasileiros que vivem nas profundezas da grande floresta pluvial, a Amazônia, contemporâneos da fundação da agricultura em outras regiões do planeta dissociadas no tempo, com bons motivos para fazer uso de uma tocha, discutem, em visitas de busca de conhecimento, questões ancestrais como a origem do universo e da humanidade.

Nós, os "brancos", que não somos tão brancos assim, mas aprendemos a copiar em detalhes a terminologia imposta pelos centros de poder político e cultural, nos recusamos decididamente a olhar as estrelas para indagar de onde viemos e o que a sorte nos revela. Poderíamos, com alguma chance, encontrar uma discussão silenciosa em boas matérias de jornais e revistas dominicais. Mas isso acontece cada vez menos. O que lemos, o que consumimos como alimento filosófico e isso sustenta fracamente nosso espírito combalido, é uma montanha de banalidades: o corpo musculoso da feiticeira e seu pescoço forte, cada vez mais parecido com Mike Tyson, o professor que se confundiu no mais equivocado pensamento positivista, expresso na bandeira nacional, a estupidez de exibicionistas da Casa dos Artistas ou de uma besteira equivalente em outro canal de televisão.

E não temos, ao contrário dos índios isolados, um espírito da floresta a quem recorrer. Os padres e pastores, como os governantes, passam a maior parte do tempo preocupados com a arrecadação de contribuições. Ou, como d. Jayme Chemello, presidente da CNBB que, em entrevista para as páginas amarelas de Veja, defende idéias tão obsoletas como a condenação ao uso de preservativos.

Que Deus tenha alguma piedade de nós...

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência é mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)