OFJOR CIÊNCIA

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RUPPERT SHELDRAKE
Ulisses Capozoli responde

Caro Takata, antes de mais nada, deixe-me dizer da satisfação de ter leitores críticos como você. Isso reafirma o princípio de termos de fazer trabalhos comprometidos com a qualidade, ainda que, muitas vezes, eles dividam as opiniões, o que acho saudável e produtivo, especialmente em se tratando de ciência e num país como o Brasil..

Quanto às suas questões, devo dizer, inicialmente, que Rupert Sheldrake estudou filosofia em Harvard e bioquímica em Cambridge e, do ponto de vista formal, sem dúvida que esses títulos têm tanto valor quanto o de mestre, que você cursa na USP.

Em relação à sua opinião de que se trata de um "mistificador, que atualmente prega que cães e papagaios têm habilidades paranormais", tomei a liberdade de interpretá-la como um recurso retórico de sua parte. E isto porque, numa leitura cuidadosa, essa interpretação, absolutamente, não corresponde ao pensamento de Sheldrake. Especialmente porque a determinação dele é mostrar que não existe, em casos como o que você se refere, algo que deva ser chamado de "paranormalidade". Sheldrake busca uma explicação para processos, como o da consciência, e da interação de consciências, de forma algo parecida à que os físicos fazem para a natureza da gravidade. Esse é um tema sutil e que facilmente pode resvalar para a incompreensão e lógica fácil, o que, não acredito, seja o seu caso.

Devo admitir, sem nenhuma dificuldade, que Sheldrake é um pesquisador que divide opiniões. Numa mesa-redonda que resultou no livro A Glorius Accident (editado no Brasil como Maravilhosa Obra do Acaso,pela Nova Fronteira), gente como o físico inglês naturalizado americano Freeman Dyson torceu o nariz para ele. Mas o próprio Dyson tem suas controvérsias especialmente em Disturbing the Universe, um de seus livros mais conhecidos.

Clavius e Galileu

O problema, neste último caso, é que nenhum pesquisador de talento está livre de controvérsias. A única forma encontrada até agora para evitar esses fantasmas foi o pensamento dogmático. Mas, em si, o dogmatismo é o próprio fantasma.

Cito alguns casos para referendar esta reflexão:

Isaac Newton foi acusado pelos cartesianos de praticar "bruxaria" com sua gravitação universal. Os cartesianos disseram ainda que ele falava de algo que não sabia o que era. Newton respondeu que realmente desconhecia a natureza da gravidade (continuamos não sabendo), mas a lei que a descrevia era a que ele tinha escrito (reescrita por Einstein, na relatividade geral)

Charles Darwin, que reescreveu a biologia com a idéia de seleção natural, resistiu, durante anos, em publicar sua obra. Sabia que implodiria os valores de sua época e ficou aterrorizado com as conseqüências que isso pudesse trazer. É comovente a troca de cartas que teve, a esse respeito, com sua prima e esposa Emma Darwin. Ele só foi em frente, como sabemos, pelo empurrão involuntário de Alfred Wallace.

Todos conhecemos a pergunta pretensamente objetiva e, aparentemente sem outra resposta, que o bispo de Oxford, Samuel Wilberfoce, fez a Thomas Henry Huxley, em 1860, durante encontro da Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência: "O senhor descende de macacos por parte de avô ou de avó?"

A resposta de Huxley foi mais longa, mas pode ser resumida na idéia de que ele estava em busca da verdade, independentemente de onde ela pudesse originar-se. Retomarei esse caso mais à frente.

Galileu não sensibilizou a maioria de seus interlocutores, entre eles Clavius, que organizou o calendário ocidental atual, mesmo pela observação. Clavius, depois de ver pelo telescópio a irregularidade das montanhas lunares, disse que a superfície da Lua era coberta por um material translúcido que fazia dela uma esfera tão lisa como uma bola de bilhar. Assim, reafirmava o conhecimento tradicional expresso pelo aristotelismo, a que também farei um reparo mais à frente.

Verdade e beleza

Mas mesmo o genial Galileu sorriu com desdém em relação a forças que agiam à distância, intuição da gravitação universal por parte de Johnnes Kepler. Certamente vale considerar que Kepler jogou a última pá de cal na cosmologia aristotélica ao "deformar" as órbitas planetárias, achatando o círculo e desenhando a elípse que descreve esses movimentos.

John Herschell, que revolucionou a astronomia observacional e, entre outras descobertas, encontrou o planeta Urano, acreditou sempre que o Sol fosse habitado. Einstein introduziu a "constante cosmológica" para conceber um universo estático e se penitenciou disso pelo resto da vida.

Alfred Wegener, quando propôs a teoria das placas tectônicas, um conceito que influenciou a ciência da astronomia à zoologia, para se ler literalmente de A a Z, foi taxado por seus contemporâneos de "charlatão".

Para retornar brevemente a Einstein, sua relatividade restrita (o tempo escoa diferentemente para observadores, deslocando-se em distintas velocidades, o que leva ao aparente paradoxo de o filho poder ser mais velho que o pai ou o avô) só foi aceita com a demonstração observacional (eclipse do Ceará de 1919) da relatividade geral.

Pode-se lembrar, ainda, que Lavoisier, em abril de 1769, referindo-se a meteoritos, garantiu que "pedras que caem do céu não existem", atribuindo essa interpretação à "ignorância popular". Como se vê, não existe a garantia que Descartes buscou e que o levou na procura de um método contra o erro, após uma noite emocionalmente turbulenta, segundo relatam seus biógrafos.

Poderíamos citar muitos outros exemplos de interpretações aparentemente acima de qualquer suspeita, mas, na prática, inteiramente equivocadas. Isso vale para todos os casos, o que levou o físico-matemático inglês Paul Dirac (descobridor teórico da antimatéria) a dizer que "a verdade de uma teoria está em sua beleza". Partilho do conceito estético de Dirac e isso me leva a ler com interesse escritos como o de Sheldrake e, eventualmente, dividi-lo com meus prováveis leitores.

Grandes revoluções

Quanto à visão de Aristóteles por uma suposta interpretação de Sheldrake prefiro retornar ao recurso da metáfora. Numa leitura cuidadosa, penso que sua versão, caro Takata, não se mantém. Além disso, em nenhum momento, fiz qualquer menção a Aristóteles como um "ser de perfeição divina". Acredito que, ao expressar-se assim você, certamente, está referindo-se a outros escritos, e não ao que eu produzi, motivo dessa troca de idéias.

Concordo que muitos, antes de Sheldrake, tiveram uma visão não-reducionista que, entendo, ambos partilhamos. Por isso me referi a "pensadores como Sheldrake..." E recorri a Sheldrake exatamente pela controvérsia e o conteúdo lúdico de seu pensamento, expresso na idéia de que "raciocinar tem que ser algo divertido".

Quanto à sua última observação sobre o que escrevi ("pouca gente lê Sheldrake") não tenho como concordar com seu argumento e ofereço duas justificativas para isso.

A primeira envolve a esposa do tal bispo de Oxford, no debate com Thomas Huxley. Quando o futuro presidente da Royal Society (Huxley) disse que procurava a verdade da história humana, testemunhas relataram que a mulher do bispo murmurou entre os dentes: "Essa, agora, descender de macacos. Se for verdade, oremos para que muita gente não saiba disso." Para evitar possíveis desencontros devo dizer que a expressão "descender de macacos" é de autoria da esposa do bispo e não minha.

Um segundo argumento leva em conta a determinação, neste exato momento, de autoridades religiosas do Afeganistão, agrupadas no Talibã, em destruir estátuas do budismo no país, entre elas as duas maravilhas rochosas de 53 e 38 metros de altura, consideradas patrimônio da humanidade. O argumento do Talibã invoca o receio de que essas imagens "voltem a ser veneradas", o que denuncia, no mínimo, uma precária confiança nos métodos que utilizam para divulgar suas idéias, pretensamente as únicas verdadeiras.

Os jornais desta semana mostram que o Brasil tem, em média, uma livraria para 84 mil pessoas. Isso sugere fortemente que o problema aqui não é ler demais, mas de muito menos que seria o mínimo desejável. Só isso, leitura, pode fazer com que pessoas como você critiquem escritos como o meu e, do diálogo possível entre diferentes pontos de vista, brote uma leitura sempre nova para os profundos mistérios do mundo. Não há nenhuma razão para pensar que o tempo das grandes revoluções acabou, ainda que o próprio Aristóteles (como lorde Kelvin, mais recentemente) tenham se expressado assim.

Diria que as grandes revoluções do conhecimento não só não terminaram como não temos uma idéia clara de onde elas poderão vir.



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