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TRANSGÊNICOS
Um assunto maltratado

Rafael Evangelista (*)

Assunto palpitante, controverso mesmo entre os cientistas, as notícias mais recentes envolvendo os transgênicos têm recebido uma cobertura tímida e desinteressada pela imprensa brasileira. Essa falta de empenho na investigação do problema se mostra no abandono de uma postura crítica na redação das matérias e nas perguntas feitas às fontes. Com isso, acabam se repetindo as declarações precipitadas que ambos os lados fazem sobre o assunto – "os transgênicos não fazem mal/fazem mal" –, quando o cerne do problema, na verdade, parece estar em outro lugar: nas conseqüências econômicas e ambientais. Até mesmo os ambientalistas têm evitado bater na tecla dos malefícios à saúde quando fazem suas objeções às plantas geneticamente modificadas. Não há evidências de que os transgênicos possam fazer mal, mas pesquisas conclusivas ainda não foram produzidas ou por falta de verba ou porque alguns efeitos só surgirão a longo prazo.

Uma cobertura superficial pode dar origem a visões preconceituosas. A maneira como foi abordada a rejeição dos carregamentos de alimentos transgênicos doados ao Zimbábue e à Zâmbia é um exemplo disso. Tratando o assunto baseando-se apressadamente em material de agências internacionais, a maioria da mídia nacional reforçou uma imagem de ingenuidade dos países africanos que, vivendo uma crise de abastecimento, recusaram-se a receber milho doado pelos Estados Unidos. A imprensa deixou de mostrar que os carregamentos não foram aceitos antes por um temor de contaminação das plantações locais do que por eventuais malefícios à saúde. As sementes de milho, doadas como alimento, poderiam ser eventualmente plantadas pela população local. Uma vez contaminadas as plantações africanas, esses países poderiam perder os restritos mercados europeus, acentuando ainda mais a situação de dependência econômica do continente.

A contaminação incontrolável das plantações está se tornando, em si mesma, um argumento utilizado pela indústria de sementes para a aprovação dos transgênicos. Em belíssima reportagem de autoria de Mark Schapiro, publicada na edição de 28 de outubro da revista americana The Nation, o porta-voz de um grupo de indústrias de biotecnologia, Mike Phillips, declarou que os governantes dos países que rejeitam os transgênicos devem aprender a lição de que é muito difícil deter o avanço das novas tecnologias, principalmente em regiões de fronteira. A reportagem de Schapiro, intitulada "Sowing disaster" ("Semeando desastre"), retrata a história de agricultores que estão tendo suas plantações contaminadas por sementes geneticamente modificadas. A contaminação foi diagnosticada até mesmo na região de Oaxaca, no México, uma das maiores fontes de biodiversidade natural de sementes de milho. A declaração de Phillips soa como uma ameaça arrogante àqueles que ousam escolher o seu próprio destino.

Ouvidos abertos

Pautar-se pelas agências internacionais, na maioria das vezes, significa reproduzir interpretações, nem sempre as mais adequadas, sobre certas declarações e acontecimentos. No início de dezembro, foi noticiada a decisão de ministros da União Européia, que ainda precisa ser referendada pelo parlamento, de aceitar a entrada de carregamentos de alimentos transgênicos devidamente rotulados. Reproduzindo material da agência Reuters, a Folha de S.Paulo rapidamente aceitou a interpretação do ministro do Meio Ambiente da Dinamarca, que controla atualmente a presidência da União Européia, de que esse era um passo importante para a aceitação dos transgênicos. A partir disso, criou uma pauta em que a Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil afirma que a decisão dos europeus pode acelerar a aprovação dos transgênicos no Brasil.

Longe de ser fato consumado, já que ainda precisa ser aprovada pelo parlamento, a decisão dos europeus refere-se ao consumo, e não à produção de transgênicos. Ou seja, os europeus, se aprovada a decisão, permitirão que seus cidadãos decidam por si próprios se querem correr o risco de consumir organismos geneticamente modificados. O plantio, que pode afetar o meio ambiente e a economia, continua altamente controlado no solo da comunidade européia. A decisão sobre o que afeta a coletividade continua nas mãos do Estado, enquanto a decisão sobre a saúde fica com os indivíduos.

No Brasil, o consumo de transgênicos já está liberado na prática, basta ver a lista de alimentos industrializados que os contêm preparada pelo Greenpeace. Como as indústrias não são obrigadas a rotular os alimentos que contêm organismos geneticamente modificados, aqui não há direito de opção. Dada a escolha feita pelo presidente Lula de seus ministros do Meio Ambiente e da Segurança Alimentar, Marina Silva e José Graziano, ao que parece o plantio continuará proibido no país.

Uma grande oportunidade para a imprensa brasileira aprofundar sua cobertura sobre os transgênicos estará dada durante o terceiro Fórum Social Mundial, que acontecerá no fim de janeiro em Porto Alegre. O Fórum Social tem a qualidade de reunir camponeses e especialistas do mundo todo que lidam com a questão cotidianamente. A Via Campesina, por exemplo, entidade mundial que reúne trabalhadores rurais, tem em suas fileiras pequenos agricultores que conhecem muito sobre o assunto e que lutam para que um de seus bens mais preciosos, as sementes, não sejam controlados pela indústria da biotecnologia. Basta os jornalistas vencerem o preconceito e abrirem os ouvidos.

(*) Editor do sítio ComCiência <www.comciencia.br>


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