|
ENVELHECIMENTO
Existo, logo posso ser jovem
Stella Pessoa (*)
Em uma de suas edições de junho, a revista Veja traz, como matéria de capa, receitas da ciência para quem quiser se manter jovem aos 30, 40, 50 e, pasmem, aos 60 anos. São apontados alguns caminhos para a fonte de Ponce de León, com a apresentação de novo arsenal contra o envelhecimento.
É certo que as questões ligadas à longevidade prazerosa sempre despertam grande interesse, têm público certo. Certamente houve boa vendagem dos exemplares.
O assunto abordado no semanário parece girar em torno de uma tal "idade biológica", que não é a que aparece nos documentos de identidade, mas a que tem a ver com a aparência e a saúde. Essa idade pode ser até 20 anos menor do que a idade do calendário. Por exemplo: quem tem 60 anos pela data do nascimento pode ter 40 anos de "idade biológica", a partir de sua aparência e sua saúde. Maravilha! Pois bem, para alcançar o feito a solução é seguir as receitas médicas ligadas a alimentação, exercícios físicos, medicina preventiva etc.
A respeito do tema, quero fazer dois comentários.
O primeiro diz respeito a um evidente e gritante sinal dos tempos. Antes, se falava e investia nas possibilidades de uma juventude aos 30 ou até 40 anos. As recomendações e dicas para prolongar a mocidade se limitavam a essa faixa etária. Agora, no entanto, ela se alarga bastante. O certo é que os avanços científicos mudaram radicalmente a expectativa de vida. Em 1900, a expectativa era de 35 anos. Mas, quem nasceu no ano 2000 tem expectativa de 70 anos ou mais. É o dobro! Dobrou em um século!
Bem-vindas as prescrições
Sobre esse ícone dos tempos, cito um exemplo interessante. Dentre os contos de Machado de Assis, o que mais continua me impressionando é Missa do galo. Acho-o fantástico, especialmente pelo clima de enlevo entre os dois personagens principais: os embevecidos Sr. Nogueira (também narrador) e D. Conceição, que "seguram" suas emoções naquele casual colóquio na véspera de Natal. Ele, um rapaz com 17 anos, e ela – "uma senhora" casada – com 30 anos. Quando os dois resolvem conversar e esperar a meia-noite chegar (hora da missa do galo), D. Conceição diz que vai "passar pelo sono" mesmo que esteja "ficando velha". Vejam bem: ela estava "ficando velha" aos 30 anos! Não estranhem, porque era a realidade da virada do século 19 para o 20, visto que o livro em que o conto está inserido é de 1899. À altura – um século atrás –, a expectativa de vida era de 35 anos. Eis a explicação. Todavia, hoje se pode ser jovem aos 60 anos, segundo a reportagem da Veja. Sinal dos tempos...
O segundo comentário que faço tem como base o último livro do premiado escritor Rubem Fonseca. Falo de Diário de um fescenino. Lá também estão expostas questões ligadas ao envelhecimento. A certo momento do genial registro licencioso, o autor, em sua ficção, escreve que "os japoneses têm um provérbio: o sujeito começa a envelhecer quando não quer mais aprender". No livro vem, logo em seguida, um contraponto à crença oriental: para mim, "o sujeito começa a envelhecer quando não quer mais amar, quando perde o entusiasmo pela comunhão sexual, não tem coragem de enfrentar a incandescência, os refinamentos eróticos e também as desilusões, aflições e a logística exasperante da aventura amorosa".
Enfim, fica no ar uma questão para inflamar debates intermináveis: define-se a idade pela aparência e saúde, do jeito que induz a reportagem da Veja, ou a marca da juventude está no comportamento humano, como expressam as reflexões e os apontamentos do fescenino?
Talvez aparência, saúde e comportamento estejam mais ligados do que se pensa, bem mais do que possa imaginar nossa filosofia. Portanto, abaixo o dualismo do pensamento ocidental, que insiste em separar corpo e mente! Isso posto, ao Descartes, minhas desculpas... Que tal adaptarmos sua máxima para "existo, logo posso ser jovem"? Jovem na aparência. Jovem de saúde. Jovem no comportamento. Assim, que sejam bem-vindas todas as prescrições, venham do último grito da ciência ou apliquem a sabedoria espirituosa acumulada pelos tempos.
(*) Engenheira civil e analista de sistemas de informação
|
|