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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
KYOTO E AS BALEIAS
Uma estupidez para entrar na história
Ulisses Capozoli (*)
A TV aberta promove às vésperas das segundas-feiras o que se poderia chamar "os domingos desesperados" – se puder valer a analogia com o clássico A Noite dos Desesperados, com com Jane Fonda, sobre a grande crise de valores no final dos anos 20. Num ambiente destes, como destacar, contextualizar e informar bem sobre acontecimentos como a dissensão dos Estados Unidos envolvendo o Protocolo de Kyoto; ou a pressão, especialmente do Japão, para retomar a caça à baleia? Foram assuntos presentes no noticiário de ciência e ambiente entre o final de julho e o início de agosto.
O que salva jornais como o Estado de S. Paulo é a presença de colunistas com a qualidade de Washington Novaes. Nos seus textos, a informação está contextualizada, amarrada aos fatos, com a inteligibilidade necessária. Se o leitor quiser tirar sua própria conclusão, é uma liberdade que tem o leitor, mas os fatos estão ali, transparentes como vidro. O lamentável, e este é outro reflexo do anacronismo atual do Estadão, é que colunistas como Novaes sejam tão poucos. Na sua página de opinião, o jornal continua atrelado às preocupações teológicas que fizeram da Idade Média uma época de retrocesso no conhecimento.
Mas o Estadão não é o único. O Globo e o Jornal do Brasil, ao não terem dado nenhuma atenção à última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) [Salvador, 13-18 julho], também evidenciam, de forma indireta, o compromisso que têm com a ordem teológica na interpretação das coisas do mundo.
Para a ordem teológica, o corpo humano era o território do sagrado e não deveria ser profanado pela ciência mundana. Essa idéia, que traz a medida de sua própria limitação, inibiu ao longo de séculos o conhecimento da anatomia, que só começou a ser melhor compreendida durante a Revolução Industrial, quando o coração foi comparado a uma bomba, o pulmão a um fole etc. Quem passar os olhos pelos escritos do padre Vieira verá, com todas as letras, a justificativa da escravidão, cuja iniciativa, no século 16, teve aprovação do Vaticano. São essas memórias antigas que ainda emperram o Brasil.
Outro comportamento
A caça à baleia, que levou inúmeras espécies ao risco da extinção, apesar de não sacralizada pelo papa, integrou os costumes brutos do passado (o presente tem suas brutalidades atualizadas) e persistiu até meados dos anos 80, quando uma moratória foi negociada. Mas o Japão nunca desistiu de esfolar esses magníficos animais com a justificativa, nunca contestada de forma veemente pela comunidade científica, de que fazia pesquisas científicas.
Se os jornais, em vez de apenas publicarem as reuniões e/ou críticas dos ambientalistas contassem um pouco a história dessas criaturas que há 65 milhões trocaram a terra pelo mar, certamente ajudariam as pessoas a se darem conta dos grandes mistérios da vida. A visão positivista, o reducionismo científico, eliminou o mistério da ciência, como se fosse uma dimensão mágica a ser abolida pela racionalidade. E essa forma de pensar está presente no noticiário da imprensa.
Praticamente a mesma coisa ocorre com o chamado efeito-estufa, o aquecimento do planeta provocado pela crescente liberação de dióxido de carbono pela atividade humana: fábricas, veículos, alteração de ambientes, incluindo queimadas de florestas, como acontece de forma praticamente impune no Brasil. Não adianta publicar gráficos e artes (quase sempre compradas/copiadas de jornais americanos), uma mania chupada da imprensa americana, que aqui começou na Folha dos anos 80 e espalhou-se pelo resto da imprensa.
Os jornalistas, especialmente os que trabalham com ciência, têm uma obrigação com a inteligibilidade, ainda que isso os leve a paradoxos como a natureza dupla da luz. (Os cientistas também passam por isso.) É preciso, lenta e pacientemente, tecer uma rede de alfabetização científica, trabalhando-se com princípios, temas relevantes e implicações sociais de acontecimentos, como é o caso do efeito-estufa. Bush, como outros presidentes dos Estados Unidos, não quer mudar o padrão de comportamento da sociedade para não perder poder pessoal. É uma estupidez que ficará para a história, mas esta é uma questão para o futuro.
Aqui e agora, da parte dos jornalistas, é preciso um outro comportamento. Aquilo que um economista clássico, e por isso mesmo insuspeito, um homem culto e inteligente como J. K. Galbraith chama de "comprometimento social".
(*) Jornalista especializado em divulgação de Ciência, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)

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