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COBERTURA
Exercícios de puro exotismo
Ulisses Capozoli
Há algum tempo, um ruralista, Fábio Meirelles, que ocupou durante décadas a presidência da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, disse a este colunista que se os trabalhadores rurais fossem todos alfabetizados não sobrariam braços para a agricultura. Meirelles, que durante anos também foi senador da República, não tinha, e não deve ter aprendido, nenhuma percepção de cidadania, mesmo no sentido elementar.
Generalizada, a postura do senador ruralista, gera, freqüentemente, o que se poderia chamar de "exotismos exóticos", como o que levou a Folha a gastar um quarto de página, com manchete em seis colunas, para anunciar (3/8, pág. A10) que "Narinas de dinossauros mudam de lugar", sobre uma pretensa controvérsia entre paleontólogos envolvendo a localização do nariz da ponta do focinho (?).
Não é que o assunto não interesse. Mas é irrelevante para os leitores de jornal. Um jornal de grande porte deve estar minimamente preparado para formar uma certa mentalidade e, em assuntos deste tipo, deveria ao menos trazer um comentário à parte, justificando a importância do tratamento. A pergunta básica é: em que medida esta informação ajuda numa certa inteligibilidade do mundo?
À medida em que esta preocupação não está presente, o que vale é o puro exotismo. Isso fez e continua fazendo o prestígio de muita gente, mas não contribui em nada para um mínimo de localização por parte da sociedade – e aqui estamos nos referindo à sua parcela privilegiada, que tem dinheiro para comprar jornal.

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