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LIVRO VERDE
Distante do cotidiano da sociedade
Ulisses Capozoli
O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) reuniu 400 especialistas para dizer o óbvio: que o ensino e a inovação tecnológica são deficientes no Brasil (Folha de S.Paulo, 28/7/01, pág A11). Mas o relatório – Ciência, Tecnologia e Inovação: desafio para a sociedade brasileira - Livro Verde – tem o mérito de quantificar minimamente essas deficiências e, assim, servir de base para uma eventual tomada de posição.
O pessimismo é o caminho mais curto para a derrota em qualquer projeto ou expectativa. O que não significa que o otimismo seja a solução. José Bonifácio de Andrada e Silva tentou fazer do Brasil uma nação civilizada na América do Sul. Deu no que todo mundo sabe. A manchete da Folha de S.Paulo da segunda-feira (6/8) é apenas uma demonstração cotidiana da frustração do "patriarca da independência": "Violência tira médico da periferia paulistana". Nas páginas A6 e A7 da mesma edição da Folha, mais um dado esclarecedor: na A6 a manchete de página diz que "Políticos controlam 24% das TVs do país"; a A7 traz "TVs dizem ser profissionais com políticos". Dispensa comentários.
Um dos impedimentos para o debate num país como o Brasil é uma dificuldade mais ou menos generalizada quanto ao método. Alguém diz alguma coisa e seu interlocutor, em vez de refutar o argumento, se for contra, prefere distorcê-lo e, aí sim, com o argumento facilitado, parte para o ataque. É uma demonstração de covardia e autoritarismo ao mesmo tempo. O presidente da República é um pequeno mestre nessa arte menor de sofismar (sem nenhuma relação com os sofistas originais). Sua crítica de que os aposentados são "vagabundos", quando ele se apropriou de uma aposentadoria indevida, é só um dos muitos exemplos disponíveis para a análise do discurso. Particularmente dos discursos dele. Assim, se for válido o que diz a fala popular de que "exemplo vem de cima", muito do aparentemente inexplicável se explica.
O relatório do MCT, mais conhecido como "Livro Verde", que o ministério pretende transformar em "Livro Branco" com a adoção de medidas capazes de equacionar os problemas do "Livro Verde", poderia incluir também a incompetência praticamente generalizada dos meios de comunicação social em fazer divulgação de ciência, o que influi nas opiniões e posições. Isso vale da poderosa e arrogante Rede Globo aos canais comunitários mais artesanais, passando pela imprensa escrita, sem falar no besteirol generalizado que se ouve nas estações de rádio.
Há um analfabetismo científico generalizado o suficiente para não deixar de fora nem mesmo uma parte significativa da comunidade científica. Seria necessário um levantamento, que certamente nunca será feito, para dizer que percentual é este. Analfabetismo científico dentro da comunidade científica, para não deixar o assunto no ar, é uma formação precária basicamente em história e filosofia da ciência, inviabilizando a percepção da natureza do conhecimento e, assim, comprometendo a perspectiva epistemológica.
No Brasil, para encurtar a história, o positivismo de Augusto Comte – o pai da sociologia, que ele chamava de física social –encarregou-se de dar uma contribuição especial a esta limitação epistemológica. A prova maior desse efeito nefasto está gravada na bandeira nacional: "Ordem e Progresso". Se este pensamento valesse para a biologia, particularmente para a seleção natural, não estaríamos aqui para contar esta história.

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