OFJOR CIÊNCIA

JORNALISMO CIENTÍFICO
Fôlego novo na divulgação de ciência

Ulisses Capozoli (*)

Material produzido por free-lance para a Folha de S.Paulo ganhou manchete de página em 30/3/02 (pág. A14): "Divulgação científica tem ofensiva inédita". Ao contrário do que costuma acontecer (o enunciado do título não refletir conteúdo do texto a que se refere), neste caso o título é absolutamente certeiro, particularmente em relação ao termo "ofensiva". Mas o texto da matéria derrapa em mais de um ponto.

A primeira questão envolvendo a divulgação científica, que inclui o jornalismo científico, é que o assunto entrou na moda e atrai levas de aventureiros. Por conveniência, oportunismo, carreirismo, ou tudo isso junto, gente que nunca escreveu uma linha sobre ciência da noite para o dia virou especialista na área. O resultado dessa "ofensiva" tem se revelado tanto em encontros para debates envolvendo divulgação de ciência quanto na oferta de cursos de pós-graduação.

Nos debates, não é nada incomum a defesa de pontos de vista que denunciam uma precária formação particularmente em história e filosofia da ciência, sinônimo de analfabetismo científico. Por que analfabetismo científico? Por falta de consistência epistemológica. Se a natureza última do conhecimento (epistemologia ou teoria do conhecimento) não está presente, a busca do conhecimento não faz sentido e pode ser facilmente confundida com qualquer outra coisa, menos com busca do conhecimento.

Quanto aos cursos de pós-graduação, que surgiram como pipoca por várias instituições, nenhum deles, até agora, se revelou à altura do desafio. Alguns podem ser moeda de troca para outros interesses, fonte adicional de recursos para escolas, vitrine de ofertas da estação, mas quase sempre experiências frustrantes para interessados em uma boa formação. Deve-se esperar que, em breve, cursos nessa área atinjam a qualidade desejável. Por enquanto isto ainda não ocorre.

É verdade que o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardemberg, está interessado em ampliar a divulgação científica no Brasil. Diplomata com boa formação intelectual, visão estratégica e determinação em fazer com que ciência e tecnologia ajudem a mudar a sorte de uma sociedade como a brasileira, o ministro Sardemberg sabe da necessidade de um programa de alfabetização científica, de sedução da sociedade para as perspectivas desses conhecimentos. No Brasil, a capacidade de financiamento do Estado tem limites cada vez mais restritos e a iniciativa privada, por tradição, é omissa, ainda que isto esteja começando, lentamente, a mudar.

O problema é que preocupações como essas, não só do Ministério da Ciência e Tecnologia mas também do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), desdobram-se em balcão de negócios menores, de puro oportunismo, em inúmeras praças, como sempre ocorre no Brasil.

Detalhes eloqüentes

Não há dúvida de que nas últimas duas décadas o jornalismo científico no Brasil teve um significativo desenvolvimento. Há diferentes reivindicações de paternidade desse movimento. Um grupo de pesquisadores científicos, que lançou a revista Ciência Hoje, por exemplo, mais de uma vez vindicou esse pioneirismo. Não é verdade.

A história toda começa com José Reis. Foi ele quem iniciou, como um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma divulgação científica sistemática no Brasil por intermédio do jornalismo científico. O trabalho de José Reis, na Folha de S.Paulo, foi uma extensão das razões que levaram à criação da SBPC, em 1948, como reação a uma decisão do então governador de São Paulo Adhemar de Barros ( "o rouba mas faz") de confinar o Instituto Butantã à produção de soro antiofídico, quando esta instituição já detinha um papel bem mais importante na estrutura de saúde pública de São Paulo.

As raízes mais profundas dessa reação que levou à fundação da SBPC está no Estado Novo e, depois, na eleição de Getúlio Vargas e sua determinação em disseminar universidades e institutos de pesquisa como maneira de dotar o país de infra-estrutura científica. Aí está a raiz da fundação do CNPq – iniciativa de um militar, o almirante Álvaro Alberto, para dotar o Brasil de conhecimento em energia nuclear.

A criação da Universidade de São Paulo, em 1934, foi uma reação político-cultural ao Estado Novo e a criação da SBPC, 14 anos depois, uma consolidação do espírito científico assentado especialmente na USP. São estas as razões políticas, deflagradas a partir da ruptura da "política do café com leite", que deram origem ao Estado Novo e fizeram a SBPC ser uma iniciativa paulista e não carioca.

Quanto ao desenvolvimento do jornalismo científico ao longo das duas últimas décadas, este tanto reflete um desenvolvimento da pesquisa científica brasileira como o afloramento de interesses exclusivamente pessoais de jornalistas formados em escolas de jornalismo.

Escolas de jornalismo são um tema controvertido, para ser debatido num outro momento. Aqui, o interessante é assinalar que todo um grupo de jornalistas científicos, que consolidou suas especializações desde o início dos anos 80, não teve qualquer amparo de instituições acadêmicas ou dos próprios jornais onde trabalhavam. Foi um iniciativa um tanto anárquica, que refletiu uma época, e que, além de José Reis, que assinava uma coluna na Folha de S.Paulo, não tinha contava com qualquer outra referência. A não ser no exterior, nos Estados Unidos e especificamente no The New York Times, onde trabalhavam jornalistas experimentados como John Noble Wilford.

A propósito, o fato de Wilford ser um veterano e um jornalista de sólida formação cultural é que fez dele um dos convidados da Terceira Conferência Mundial de Jornalismo Científico – e não Terceiro Congresso Mundial de Jornalistas Científicos, como publicou a Folha. A diferença não é apenas um detalhe – isto porque o congresso estará aberto a divulgadores científicos e não apenas a jornalistas científicos. A conferência, organizada pela Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), será realizada na Universidade Vale do Paraíba (Univap), em São José dos Campos (SP), entre os dias 24 e 27 de novembro. Paralelamente, estará reunido o Sétimo Congresso Brasileiro de Jornalismo Científico, e não o segundo, como também publicou erradamente a Folha.

Quinze países

O primeiro detalhe remete a uma polêmica que já deveria estar resolvida há tempos, mas que ainda aflora com freqüência. A controvérsia é: divulgação científica é tarefa de pesquisadores científicos ou de jornalistas? A resposta que temos oferecido, na ABJC, remete à fala de Sigmund Freud a respeito da psicanálise, quando ele disse que "a psicanálise não é uma tarefa para médicos, mas para psicanalistas". Aí está um conteúdo antipositivista da psicanálise que, numa comunidade científica com forte herança positivista, ainda hoje se pergunta se "psicanálise é ciência".

Para não estender a questão, a resposta, na divulgação científica, é que trata-se de uma tarefa para divulgadores científicos – jornalistas ou cientistas, não faz diferença. Daí o encontro estar aberto a divulgadores e não apenas a jornalistas, ainda que seja uma iniciativa de jornalistas científicos.

Outro equívoco em relação ao texto publicado pela Folha refere-se à revista Scientific American. No Brasil, ela se chamará Scientific American Brasil e estará nas bancas em junho, e não em julho. Além disso, ela terá 30% de seu conteúdo produzido no Brasil, com 70% traduzido da edição americana. Isso significa aproximadamente 30 páginas e não apenas 16, como saiu publicado. Mais: todos os articulistas serão brasileiros, refletindo sobre problemas brasileiros. A vantagem de ter Scientific American Brasil publicada no Brasil, com vendas também em Portugal, é uma possibilidade de conjugar, numa única publicação com larga tradição em divulgação de ciência (a revista circula nos EUA desde 1845), tanto pesquisas produzidas no exterior quanto as desenvolvidas no Brasil.

Ainda em relação a Scientific American, certamente teria sido interessante informar aos leitores da Folha que esse título, hoje, refere-se a um conjunto de edições nacionais reunindo 15 países, entre eles o Brasil. Assim, a versão brasileira entra nesse grupo de edições e pode ter o conteúdo produzido aqui reproduzido por qualquer uma das demais edições nacionais.

Ideologia e realidade

Outro problema presente no texto publicado pela Folha está relacionado aos institutos do milênio, iniciativa que vem sofrendo duras críticas por parte da comunidade científica. A SBPC, por exemplo, já fez várias reuniões com as sociedades científicas a ela associadas para debater esse tema. Há uma preocupação de que os institutos do milênio, iniciativa que partiu do Banco Mundial, acabem desfigurando a pesquisa científica no Brasil.

É preciso dizer que entre 1991 e 2001, o Brasil passou da 28ª posição para o 17º lugar entre os produtores mundiais de ciência, o que é bastante estimulante para quem trabalha na área. De qualquer maneira – e esta é uma posição defendida pela SBPC, refletindo o consenso de mais de meia centena de sociedades científicas –, esta posição ainda está relativamente distante do que se requer para a 11ª economia planetária. O desejável, a curto prazo, é que o Brasil ocupe uma posição de produção de conhecimento equivalente à de sua economia – cujos números gerais foram recentemente superados pelo México.

Importante, neste momento, é assegurar que o jornalismo científico, por oportunismo, não enverede por caminhos parecidos com o do jornalismo econômico, que nasceu com o regime militar e, ainda hoje, com as exceções de sempre, continua fortemente comprometido com uma interpretação ligada mais à ideologia do que à realidade.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre em ciências pela USP e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)