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TRANSGÊNICOS
Mudaram para a Ilustrada
Isabel Rebelo Roque (*)
O título deste artigo é uma alusão ao de uma matéria de Marilene Felinto de alguns meses atrás, em que ela comenta, perplexa, o fato de que os assuntos relacionados a planos de saúde, antes tratados na seção Saúde, da Folha, haviam sido passados para a editoria de Dinheiro.
Eis a sensação ao lermos a matéria de capa da Ilustrada de 4 de julho: "Estética transgênica". O tema? As novas diabruras de Eduardo Kac, "artista multimídia" brasileiro radicado nos EUA. Em destaque, uma foto de seu trabalho de maior relevância: Alba, uma coelha transgênica concebida por ele e desenvolvida por um laboratório francês. O fenômeno, que não é o craque Ronaldo, mas Kac, estará aportando no Brasil em agosto, para participar da mostra Emoção Art.ficial, promovida pelo Itaú Cultural.
A pergunta que não quer calar, após a leitura de sua entrevista concedida a Cassiano Elek Machado e do texto de análise da professora de Comunicação e Semiótica da PUC Giselle Beiguelman, é: o que diabos isso está fazendo aqui na Ilustrada? Ou, por outra: por que o assunto não mereceu um link na seção de Ciência, lá no primeiro caderno? Ou, ainda, a ser mantido na Ilustrada, por que a coisa se limitou a uma entrevista concedida a um colunista e crítico de arte e a um comentário de uma professora de Comunicação – e nenhum, absolutamente nenhum comentário por parte de alguém de Ciência?
Ética piegas
O curioso é que em 2000, quando nasceu Alba (a coelhinha que sob determinada iluminação adquire coloração pistache brilhante linda de viver, como diria a Hebe), o assunto foi tratado pela Folha na seção de Ciência. Na ocasião, a reportagem tratou também da indignação que esse e outros trabalhos "bioartísticos" de Kac vinham provocando em grupos ligados à defesa dos animais. Embora de maneira superficial, a matéria daquele ano – traduzida de reportagem original do Le Monde – abria uma interessante discussão sobre os aspectos éticos ligados a esse tipo de "arte".
Agora, saltando para 2002, vemos uma matéria absolutamente louvatória ao trabalho de Kac. Estrategicamente, a entrevista apenas esboça um aprofundamento, ao indagar de Kac se sua obra estaria "mais no campo da ética ou da estética". A pergunta já é, convenhamos, um tanto vaga, estranha. Ao que Kac, sofismando, responde:
"Ética e estética são indissociáveis. No meu caso poderia dizer que há uma preocupação estética grande, mas a natureza dessa preocupação não é formal. Minha preocupação estética é a de inventar novos sujeitos sociais. Criar seres com características físicas sim, como a coloração, mas também mentais e emotivas. A invenção de uma vida leva a uma confrontação. Aí está a dimensão ética. No momento em que esse ser está em sua frente e te olha nos olhos é impossível não levar em consideração a responsabilidade que você passa a ter."
O curioso é que o questionamento ético, segundo Kac, é algo que vem – quando vem – depois da criação, como se só então devêssemos mensurar nossa responsabilidade sobre o ser criado. Quando Kac diz que considera ética e estética indissociáveis, ele apenas faz um jogo de palavras: é o interesse estético – e apenas ele – que o move a inventar os tais "sujeitos sociais". A ética a que ele se refere não passa de uma ética piegas, ou de uma pseudoética, do criador sendo olhado nos olhos pela criatura – no caso de Alba, um estranho olhar luminescente, resultante da presença em seu organismo de proteínas de medusa. Esse olhar da criatura para o criador é um olhar absolutamente inútil, porque, em lugar de instigá-lo a qualquer reflexão sobre o que trouxe à vida, apenas o envaidece e estimula a querer se superar em suas criações.
Genética afetiva
Na última pergunta da entrevista, nova investida – e de novo tímida –, ao indagar se o "artista" não tem medo dos riscos trazidos por suas criações à sociedade (considerando-se o contexto da desconfiança suscitada pela manipulação genética). Novamente, Kac tergiversa:
"Acho que o temor que é expresso ocasionalmente deve ser respeitado. Há razões históricas para que haja esse temor. Basta ver casos como a Segunda Guerra, experiências de eugenia baseadas em noções de pureza, de superioridade, de eliminação de diferenças. Ter preocupação é necessário, mas cada caso deve ser examinado de maneira detalhada. Temeroso mesmo é a preocupação generalizada. Isso não é produtivo, não ajuda a identificar o que merece a tensão gerada por essa preocupação. Temos de respeitar o temor e usá-lo produtivamente."
Ãhã.
E à entrevista se segue a análise da professora Giselle Beiguelman, que declara:
"Ainda bem que Eduardo Kac está por perto, alertando e confortando com seus projetos audazes, que o transformaram em um dos maiores criadores no campo das artes e da tecnologia."
E a professora prossegue relembrando a mobilização que se seguiu ao nascimento de Alba, a coelhinha-pistache, no laboratório francês. Não a mobilização por parte dos preservacionistas, mas aquela engendrada pelo próprio Kac para ganhar o direito de levar Alba para os EUA. E declara: "Alba não é um protótipo nem um ‘hype’. É um ser vivo que obriga a pensar nos elementos éticos e afetivos das relações que emergem com a engenharia genética."
Não sabem o que fazem
Sim, bem lembrado: Alba é um ser vivo. Um ser vivo que tem carne, sangue, coração, nervos; sente. Um ser vivo que, por mais que seja denominado por seu autor como "sujeito transgênico", não passa de "objeto genético": objeto esse que está no meio de uma disputa entre a frieza de um laboratório e a vaidade de um artista. Convém, às vezes, reler ou lembrar o poema Sofrimento, de Ferreira Gullar, para retomar a dimensão humana: "Sofro eu, sofres tu, sofre o inseto que o neocid envenena".
Mas a pergunta que continua a não querer calar é: onde está a pluralidade de pontos de vista que se espera ao tratar de um assunto como esse, e que deveria estar na matéria da Ilustrada? Cadê os velhos boxes contextualizadores da Folha, do gênero "Entenda a questão entre o INRA (Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica, da França) e o artista Eduardo Kac"?
O leitor da Folha já está suficientemente saciado em seu ufanismo pela conquista do penta, e não precisa de tanta parcialidade ao ler sobre um artista brasileiro que anda fazendo das suas pelos laboratórios europeus e americanos.
Após a leitura da matéria, uma rápida olhada na seção de Ciências da mesma edição: duas páginas – com matérias devidamente espremidas por anúncios imensos. E o tema de uma delas: exatamente os famigerados transgênicos. Só que na versão "séria": a dos vegetais GM (geneticamente modificados) para consumo humano.
Enquanto isso, Kac continua fazendo suas diabruras e sendo incensado pela intelectualidade. O mesmo Kac que, em 1999, inaugurou sua arte transgênica criando genes artificiais que, em complicada manobra envolvendo o uso de Código Morse, formavam sobre uma placa de Petri a seguinte frase, extraída do Velho Testamento: "Deixe que o homem domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem na terra." (Genesis 1, 28)
Perdoai-os, Senhor: eles não sabem o que fazem. Ou, por outra, sabem, mas não estão nem aí e fingem estar.
(*) Editora de livros didáticos
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