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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
JARGÕES CIENTÍFICOS
Usá-los ou não usá-los?
Bruno Dorfman Buys (*)
O termo "evolução", usado na biologia de populações, possui um significado bem restrito: alteração nas proporções gênicas dentro de uma população local. Quando ocorre alteração de proporções gênicas, diz-se que houve evolução. Para um não-biólogo, ou mesmo um biólogo que não trabalhe diretamente com evolução, o palavrório acima não diz muita coisa. Talvez o leitor esperasse algo mais filosófico, ou mais empolgante, como explicação do significado de evolução.
O uso especializado do termo evolução, no exemplo acima, parece estreito se comparado com a quantidade de sentidos que o mesmo termo possui no português em geral, do dia-a-dia. Evolução pode ser melhora quando Luis Felipe Scolari diz que a seleção brasileira de futebol evoluiu (ok, não foi um exemplo muito bom...). Pode também ser melhora num sentido mais espiritual – e os esotéricos gostam muito – quando alguém diz que as almas evoluem. Evolução é o nome de um colégio em Campinas, o que indica que os seus fundadores queriam incutir nos alunos a idéia de que é necessário evoluir. Pode ser mais umas cinco ou seis coisas, a gosto do freguês.
Vem de longa data a constatação da necessidade de se esclarecer, desde o início de uma conversa, qual o assunto tratado. Em qualquer ramo das ciências naturais, o apreço que os seus praticantes têm pelas definições vem daí. Ora, por que perder tempo discutindo sobre algo que não está bem definido, quando podemos, antes de começar, indicar claramente qual o assunto em pauta e qual o aspecto a ser abordado? Com isso não corremos o risco de concluir dizendo que não estávamos falando sobre a mesma coisa. Essa necessidade de falar claramente, por mais paradoxal que pareça, foi o motivo pelo qual surgiram nas áreas científicas tantos nomes, termos técnicos, definições e jargões.
Meio do caminho
O que será que um leitor de jornais (escolhido ao acaso; digamos, um dono de padaria) entende por "população"? Ele poderia dizer algo como: um certo agrupamento de pessoas. Um biólogo diria que é "um conjunto de indivíduos da mesma espécie, que compartilha uma área em comum e que possui relações de troca de genes mais intensas entre si do que com indivíduos de populações vizinhas". Ufa!
E um administrador de empresas, o que diria de uma "célula"? Talvez algo como: as pequenas coisinhas das quais todos nós somos feitos; ou, como diria um imunologista amigo, "rigorosamente falando, célula é uma cela pequena". Mas não é tudo. Célula, diria um fisiologista, é um tipo de organização biológica, caracterizado pelo tamanho diminuto, pela existência de uma membrana porosa que separa o meio interno do meio externo, troca de substâncias com o meio, metabolismo, etc. etc. (não cabe aqui...)
Exemplos iguais a este são numerosos em áreas diferentes. E nos levam a perguntar: qual é o prejuízo que assumimos quando nos comprometemos a escrever sobre ciência evitando os jargões? Essa pergunta é interessante e ocupa boa parte das discussões em cursos de jornalismo científico. O fato é que os termos técnicos cristalizam em si boa parte do conhecimento produzido naquela área, e evitá-los traz o prejuízo de termos que usar uma explicação mais extensa do objeto, em vez do termo científico. Outra perda, que não é trivial, é a oportunidade de explicar um conceito – e conceitos são o feijão com arroz da vida científica.
Por esses motivos, seria interessante que jornalistas e divulgadores se preocupassem em manter talvez não todos, mas alguns termos técnicos em seus textos. Com o tempo e o costume, os leitores os assimiliariam. As editorias de Economia dos grandes jornais não se preocupam em manter boxes explicativos dizendo o que é um "ataque especulativo" ou um "desequilíbrio do câmbio". E a Economia, diga-se de passagem, é uma ciência.
Por trás da idéia de que é possível sempre contornar termos técnicos, está a convicção de que há um correspondente na linguagem comum, capaz de contemplar plenamente a substituição. Pessoalmente, e com toda a sinceridade, não vejo a coisa desta forma. Pelo contrário: a substituição deixa o texto sempre no meio do caminho. Termos como "quântica", "molécula", "evolução", "fóton" e vários outros só são substituíveis mediante uma razoável perda de esclarecimento por parte do leitor. É preciso tomar cuidado com esse processo. Muitos leitores poderiam estar optando por um texto inicialmente mais difícil, porém menos filtrado.
(*) Biólogo e redator da revista ComCiência. E-mail: brunobuys@uol.com.br
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