JORNALISMO CIENTÍFICO
O cult do oculto
Claudio Julio Tognolli (*)
Uma guinada tem se operado nas adjacências do mercado de mídia: a oferta de revistas aparentemente distintas mas visceralmente iguais, porque direcionadas a um público igual. Estamos falando da justaposição do mercado de revistas científicas à porta larga dos interesses esotéricos, e do surgimento, nos últimos dois meses, de duas publicações destinadas ao público que curte música eletrônica.
Sobre os primeiros, pode-se dizer: quem nunca procurou entender os vagidos da mecânica quântica ou o "papo-cabeça" da Teoria da Relatividade, compraz-se com dois substitutivos a operar como placebos intelectuais. Entenda-se Einstein pelo lado mais antropomórfico do gênio, a cabeleira desgrenhada, o habitus desprendido e a língua destrambelhada, nos dois sentidos do termo. Entenda-se a mecânica quântica pelos substratos culturais de sua época pós-finissecular: o surgimento da psicanálise, do modernismo e do cubismo.
Agora o ajuste facilitário, tão típico da mídia grand monde, faz-se de outra maneira: que se entenda ciência a partir de capas repetitivas sobre a figura do Cristo, ou da resposta final que "está" nos genes, ou da importância dos transgênicos na vida do cidadão comum. Coloque nas capas temas correlatos às ditas "ciências moles" (sociologia, digamos). De cambulha, resgate gemidos das ciências "duras", digamos a própria física, e os polvilhe em forma de highlights, ao longo de toda a publicação – porque ninguém é de ferro e, afinal, a revista deve ter a chancela lustrosa de "científica".
Há mais uma receitinha: dê fórmulas estranhamente desapontadoras e estranhamente fascinantes. Como? Por exemplo: mostre nas páginas "científicas" que há lógica e maquinações na escolha de um papa. Revele que há lógica onde ela não existe. [Pelo que se sabe, a única a escrever sobre isso foi Hannah Arendt, comentando a obra Journal of a soul (Diário de uma alma), Nova York, 1965, que são os diários espirituais de Ângelo Guiseppe Roncalli, o papa João 23. Refere Arendt: "Quando ele entrou no conclave, não fazia parte dos papabile; os alfaiates do Vaticano não tinham preparado nenhum paramento adequado às suas medidas. Foi eleito porque os cardeais não conseguiam chegar a um acordo e estavam convencidos, como ele próprio escreveu, de que seria ‘um papa provisório e transitório’, sem maiores conseqüências".]
Por essas e por outras, a singular feição desse jornalismo coquete requer alguns ornatos. O primeiro deles: adequar o jornalismo científico aos temas ligados ao comportamento; depois, adequar o jornalismo científico aos temas ligados aos grandes mistérios. Nessa maré de facilitários científicos, no Brasil só se salva uma publicação: Scientific American Brasil. Ortodoxa e inteligente, mostra que ainda dá para se fazer jornalismo científico de primeiro mundo mesmo no Brasil.
Hordas de acadêmicos fizeram fama saindo das universidades e despejando seu conhecimento cientifico em prol desses facilitários que o mercado de mídia requer. Vejamos: o primeiro nome que surge é o de Michael White, bretão consultor do Discovery Channel. White é um esnobe. Que escreve eufonicamente. Como ninguém, joga luz sobre temas populares e popularescos. Digamos: vampiros. Bram Stoker escreveu Dracula em 1897. Os vampiros já faziam parte do imaginário popular bem antes. Data de 1796 a novela The Monk, de Matthew Lewis, um original a tratar unicamente de sugadores de sangue. E é de 1840 um calhamaço de vampiros, de mil páginas, intitulado Varney, the Vampire.
Pois bem: Michael White ganha fama e fortuna com explicações fora de série sobre temas assim. Seu jornalismo, que se propõe "investigativo-científico", explica o seguinte sobre vampiros: na antiga Boemia, cercada de montanhas, raramente havia a miscigenação com gentes distantes. Para os biólogos evolucionários, um dos motivos da reprodução sexual não é apenas a propagação das espécies, mas a garantia de que se misture material genético entre a população. White emenda: é por isso que o tabu do incesto foi criado em sociedades primitivas.
Michael White explica o mito de Drácula assim: há uma doença hereditária a que os ingleses batizaram de porphyria, cujos sofredores seriam os que não misturaram o seu sangue, e cujas características são anemia e disfunções no uso da hemoglobina pelo corpo; e mais: pela doença, a exposição ao sol gera ardência na pele. Não estão aí duas marcantes características dos vampiros? Quem resiste a uma explicação tão bem-feita?
Mas o ponto editorial mais preocupante é que a onda de revistas científicas dedicadas às curiosidades está dando as mãos, em termos de conquista de público, com as revistas ora dedicadas ao populacho juveniilista que freqüenta raves, curte música eletrônica e faz das drogas sintéticas o seu bag, o seu barato. Há duas dessas revistas no mercado, ambas recentes. Alinhe-se a essa conjunção mais um nicho editorial: as revistas de astrologia, fluídos, tarô, feng shui etc.
Teoria recusada
O que se esconde por detrás dessa fúria editorial é uma recorrente fuga das massas, oprimidas pelas crises, rumo ao oculto e aos arcanos do inominado. Com a derrota alemã, na Primeira Guerra Mundial, a República de Weimar foi paulatinamente dominada pela filosofia de vida existencialista intitulada lebensphilosophie – cuja idéia era destruir o racionalismo e as ciências exatas. Sobre a época, o bruxo magiar Gyorgy Lukács chegou a escrever que "a afirmação geral da ideologia do desespero na Alemanha é, sem dúvida, e antes de mais nada, uma conseqüência da derrota, da paz de Versalhes, da perda da perspectiva nacional e política". Nem se diga o atual resgate de Spengler, precursor do nazismo, cuja obra O Declínio do Ocidente teve 60 edições após 1918 e chegou a vender 100 mil exemplares na Alemanha quando o país não tinha nem três vezes aquele número de diplomados, como nota Franco Selleri.
Esse mercado que busca assinantes entre o juveniilismo neo-hedonista e o médico cirurgião que tem um pé na macumba e outro na maçonaria. Vale lembrar o extrato feito por Sérgio Paulo Rouanet, 15 anos atrás:
"Não podemos falar em clima irracionalista sem falar em atores que o defendam ou em suportes que o sustentem. Um tanto impressionisticamente, diríamos que esses suportes incluem, por exemplo, subculturas jovens, em que o rock funciona como instrumento de sociabilidade intragrupal e de contestação geracional do sistema. Nelas, os estereótipos de uma formação livresca são contrapostos a imagem da educação pela própria vida. Reconstitui-se, espontaneamente, sem que os jovens saibam disso, a polarização clássica entre a vida e a teoria, que floresceu, por exemplo, no Sturm und Drang, no romantismo, no atual movimento ecologista e em outras correntes direta ou indiretamente influenciadas pela máxima de Goethe ‘cinzenta é toda teoria, e verde apenas a árvore esplêndida da vida’.
"Incluem também alguns intelectuais, que não hesitam em desqualificar a razão, de modo quase sempre indireto, sob a influência de certos modismos, como a atual vaga neonietzchiana. E incluem determinados movimentos e partidos políticos que tendem a recusar a teoria e fetichizar a prática. Teríamos assim, do ponto de vista dos atores, algo como um irracionalismo comportamental, um irracionalismo teórico e um irracionalismo político."
(*) Repórter especial da Rádio Jovem Pan, professor da ECA-USP e do Unifiam (SP), membro do International Consortium of Investigative Journalists ( www.icij.org)