JORNALISMO CIENTÍFICO
Autor da notícia, amigo ou inimigo da ciência?
Eliane Mendonça (*)
Publicado originalmente no Jornal da Ciência nº 2.401 <http://www.jornaldaciencia.org.br>, 6/11/03; intertítulos da redação do OI
Antes de respondermos à essa pergunta do título precisamos definir quem é o autor da notícia. Embora a primeira resposta que venha à cabeça seja "o jornalista", esta é uma afirmação questionável, para não dizer mentirosa.
Embora muitos dos profissionais que trabalham na produção de matérias jornalísticas se achem os "donos da verdade", é preciso entender que a notícia é o resultado de diversas "vozes" que o jornalista precisou ouvir, interpretar e sintetizar, de forma a torná-la acessível ao grande público.
Seguindo este raciocínio, chegamos à conclusão de que o jornalista é aquele que tem como ofício a responsabilidade de fazer a reconstrução dos fatos, levando em consideração todos os conceitos a que teve acesso durante a apuração da matéria.
Então, concluímos que a notícia nunca terá um único autor. Ao contrário de um artigo ou de uma obra literária nos quais, aquele que escreve, está se baseando unicamente em suas idéias e concepções a respeito de determinado assunto, a notícia ou matéria jornalística traz várias versões do mesmo assunto, cada um de um personagem diferente.
Entendam como personagens o que, na linguagem jornalística, seriam as fontes – desde aquelas que não aparecem explicitamente no texto, mas ajudam o jornalista "nos bastidores" como, por exemplo, os assessores de imprensa ou um especialista de determinado assunto que pode ou não ser citado no texto, mas que foi consultado para esclarecer algum ponto obscuro.
Portanto, voltando à questão que motivou nossa discussão, embora o jornalista não seja o único autor daquilo que escreve, é dele a responsabilidade de equilibrar o texto a ponto de ser fiel a tudo o que ouviu, procurando a forma mais didática possível de transmiti-la para que a informação possa ser compreendida por todo o tipo de leitor.
Ainda temos que analisar um outro aspecto: o jornalista não é alguém isento e imparcial como dita os tradicionais manuais de jornalismo. Nem poderia. Afinal, é um dos autores da notícia e, conseqüentemente, acaba transferindo para ela um pouco de sua vivência pessoal, seus preconceitos e a sua opinião diante do assunto tratado, mesmo que de forma implícita.
Também devemos considerar que o profissional, durante a elaboração da matéria, leva em consideração as normas, orientações e a postura da empresa para a qual trabalha.
Frases de efeito
Essas duas influências talvez expliquem por que um mesmo assunto receba diferentes enfoques quando veiculado em diferentes veículos de comunicação.
No entanto, no caso da elaboração de matérias relacionadas à ciência, os agentes da notícia devem ser extremamente cuidadosos. E é papel do jornalista saber selecionar bem os agentes que serão ouvidos (ou seja, selecionar as fontes) para não correr o risco de transmitir informações imprecisas, superficiais ou, em casos mais graves, com erros grosseiros que podem acabar transmitindo uma imagem errada do estudo ou pesquisa científica que está sendo realizada.
Isso, para a área científica, que não tolera erros nem imprecisões, seria uma falta gravíssima a ponto de abalar seu relacionamento com a imprensa, o que talvez explique a postura arredia de alguns cientistas ou institutos de pesquisa.
E, com isso, todos perdem: a comunidade científica, os veículos de comunicação de massa, que deveriam ser uma ferramenta importante para tornar a ciência acessível ao grande público e, por último, o grande e único interessado já que, se não fosse por ele, toda a discussão não faria o menor sentido – que é o leitor ou o telespectador.
Concluímos que o principal agente da notícia, quando a matéria está relacionada a um tema científico, é, portanto, a dobradinha jornalista/cientista. Isso porque ambos têm igual responsabilidade no resultado final da matéria que foi publicada ou veiculada.
O cientista tem sua parcela de culpa porque é seu papel explicar para o repórter que o procurou, de forma minuciosa e clara, os detalhes do trabalho que está realizando, assim como suas etapas, avanços e contribuições que poderá trazer no futuro.
Caso contrário, o texto publicado será inconsistente e, certamente, não cumprirá seu objetivo principal, que é o de disseminar o conhecimento científico entre a população.
Já o jornalista tem culpa quando, mesmo com dúvidas ou informações imprecisas, insiste em escrever o texto que será publicado preenchendo as lacunas com deduções ou frases de efeito, que podem até agradar ao editor do jornal, mas, certamente, não será fiel à realidade.
Imposição de regras
Um episódio recente que exemplifica bem a insatisfação científica quanto aos textos publicados na mídia é a resolução do Conselho Federal de Medicina, que obriga os médicos a exigir a leitura prévia de suas entrevistas antes da publicação.
Para o conselho, a medida visava apenas proteger o entrevistado de eventuais imperfeições, que poderiam colocar em risco o seu nome diante da categoria.
A medida causou grande polêmica, já que foi entendida como uma forma de "cerceamento da liberdade de imprensa". Não que eu, como jornalista, concorde com a medida tomada pelo CRM, muito pelo contrário. Mas para não fugirmos do foco da discussão vou deixar esse aspecto de lado e colocar em questão o que teria levado o conselho a adotar tal medida.
Bom, não falo em nome do CRM, nem poderia, mas acredito se tratar de uma falta de confiança no trabalho do jornalista ou, talvez, na falta de informação que os médicos têm a respeito do trabalho jornalístico.
Mais de uma vez já ouvi médicos afirmarem que suas afirmações foram modificadas em uma entrevista. Mas dizem isso se baseando em uma ou outra palavra que tenha sido substituída porque, embora seja comum para eles, não faz parte do vocabulário da maioria dos leitores.
O mesmo acontece com meteorologistas do Cptec (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos), órgão vinculado ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que, ao contrário da entidade que representa os médicos, não assinou nenhum documento impondo regras, mas adotam a mesma postura em um tom mais ameno, sempre colocando a questão como uma forma de "evitar eventuais distorções".
Convivência pacífica
O que é preciso ser feito para contornar isso? Primeiramente, o respeito mútuo. O jornalista não vai questionar o profissionalismo e os conhecimentos de sua fonte durante uma entrevista já que sempre partimos do pressuposto que o médico ou o meteorologista sabem do que estão falando, ou então nem estariam sendo entrevistados.
Em troca, o jornalista espera receber o mesmo respeito. Afinal, também é um profissional que, embora não seja tão especializado, já que não domina a medicina ou a meteorologia, sabe o que está fazendo.
Aliás, o simples fato de o repórter ter procurado o entrevistado já indica que ele admite que precisa de ajuda na obtenção de informações para executar o seu trabalho.
E, para isso, precisa encontrar, do outro lado, alguém disposto a transmitir a informação tirando todas as suas dúvidas, sem hostilidade ou prepotência.
É por isso que nós, cientistas e jornalistas, que somos os "agentes da notícia", precisamos ter em mente a necessidade de uma aproximação e de uma colaboração mútua, para que o resultado, tanto da notícia quanto da pesquisa, tenha uma repercussão positiva e consiga, ao menos, esclarecer o assunto em questão a uma parcela da população.
Se esse objetivo for atingido, certamente teremos avançado um grande passo rumo a uma convivência pacífica e a uma parceria importante, que resultaria em matérias mais claras, precisas e informativas, cumprindo com primazia o nosso papel de comunicadores.
(*) Repórter da Folha de S.Paulo e pós-graduanda em Jornalismo Científico pela Universidade de Taubaté (Unitau)