11/11/2003 4/5

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LEITURAS DA VEJA
Alhos e bugalhos transgênicos

Paulo Stenzel (*)

Estou num dilema, não sei se critico ou se dou os parabéns à revista Veja. É que a matéria de capa sobre os transgênicos é uma verdadeira aula de parcialidade. Os parabéns seriam pela coragem, afinal, para uma revista que já se queimou em outras oportunidades, pôr a mão no fogo pelos transgênicos é um ato de bravura. Já a crítica vai para o editorial travestido de reportagem, para o uso do velho truque de descontextualizar fatos, para a argumentação simplista e para o tom imperativo do texto.

É impressionante como alguns jornalistas levam a sério o título de "formadores de opinião". Ao falar sobre os transgênicos, o pessoal da Veja não nos deixa hipóteses. Ou concordamos com eles ou somos uns "irracionais" (só para utilizar um termo empregado pela própria revista). Para os responsáveis pela matéria, os que questionam a liberação dos produtos geneticamente modificados são "ecoxiitas", "opositores ideológicos", "inimigos dos avanços tecnológicos". Já os produtos em questão são considerados como "aquilo em que mais perto a ciência chegou da alquimia", "mágica pura". Com estes argumentos, e analisando o excesso de adjetivos utilizados em todo o texto, é até irônico que a revista cobre mais isenção por parte da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

Biodiversidade maior

Uma das técnicas utilizadas pelos jornalistas da Veja para nos obrigar a concordar com eles é a comparação com outros fatos históricos. Jogando tudo no mesmo saco, lembram dos protestos que aconteceram contra a pasteurização, contra a fluoretação da água, contra a campanha de vacinação de Oswaldo Cruz e contra a globalização. E, para antecipar um possível contraponto, tiveram o cuidado de desqualificar o caso das vacas loucas, tratando-o como um problema isolado.

Por fim, a reportagem trata de apoiar a liberação incondicional dos transgênicos. Defende que todas as experiências que nos garantem a segurança já foram feitas por laboratórios confiáveis, que as empresas multinacionais só querem o bem da humanidade, que todo avanço tecnológico é bem-vindo e que os do contra são "multidões de ambientalistas (de esquerda) que azucrinam as reuniões de potentados do mundo globalizado com gritarias, pedradas e marchas, durante reuniões da Organização Mundial do Comércio ou do Fórum Mundial de Davos, na Suíça".

Em nome do dito progresso, a revista esquece toda e qualquer prudência. Dizem que quem entende do assunto – os agricultores – quer as sementes transgênicas. É natural que o produtor queira fazer mais, mais rápido, mais barato e com mais retorno. Esta foi, porém, a mesma lógica utilizada pelos criadores de gado que adotaram a ração que originou a doença da vacas louca. Também é esta mesma lógica que fez com que criadores de frango utilizassem nitrofuranos, uma substância que permite que os animais cresçam mais depressa e sem doenças, mas que é muito prejudicial à saúde humana. Os repórteres defendem ainda que todos os testes já foram feitos; entretanto, esquecem de mencionar que testes de impacto ambiental feitos nos Estados Unidos não são válidos para a realidade brasileira, já que possuímos uma biodiversidade muito maior e bem diferente da estadunidense.

Medo do velho

Seria pertinente mostrar o outro lado da questão como, aliás, recomenda o bom jornalismo. A Veja prefere, porém, reduzir o debate e encerrar o assunto com suas verdades absolutas. Antes de falar em nome de todos os cientistas por ela considerados "racionais" a revista poderia, por exemplo, ouvir a opinião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que "tem orientado suas manifestações, com relação à liberação do cultivo e à comercialização das plantas transgênicas, pelos princípios de máxima cautela, preconizados pelo Protocolo de Cartagena (…)". A SBPC observa ainda que "uma política de desenvolvimento científico e tecnológico para os organismos geneticamente modificados, por suas dimensões econômicas e sociais, tem profundas implicações na política de segurança alimentar. Deve portanto ser orientada por normas que subordinem o desenvolvimento da agricultura aos princípios da soberania nacional".

Por fim, antes de defender as multinacionais com unhas e dentes, a Veja deveria manter-se coerente com sua linha moralista e questionar o fato de as sementes transgênicas, presentes no Brasil, terem entrado no país de forma ilegal, desrespeitando a legislação. Além disso, sempre convém lembrar que a tecnologia está patenteada, ou seja, num cenário em que os transgênicos dominem o mercado a humanidade ficará totalmente dependente destas poucas empresas para comer.

Ao contrariar os produtos geneticamente modificados não se está contrariando os avanços tecnológicos, apenas pedindo mais cautela sobre algo que, afinal, ainda não é de todo conhecido e que está longe de nos trazer os mesmos benefícios que a fluoretação da água ou a pasteurização do leite. Ao misturar alhos e bugalhos à discussão dos transgênicos, a Veja acaba por reduzir o problema a um simples "medo do novo". Mas o que assusta mesmo não é o novo, mas a velha fórmula, que a revista insiste em repetir, de distorcer fatos e impor um pensamento único e inquestionável.

(*) Publicitário brasileiro residente em Portugal

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