HOMOSSEXUALIDADE NA MÍDIA
Ciência e preconceito. Preconceito?
Paulo Bento Bandarra (*)
"Era uma vez um sujeito valente, que teve a idéia de que os homens só se afogavam na água por estarem tomados pela idéia da gravidade. Se tirassem esta idéia da cabeça, digamos, reconhecendo tratar-se de um conceito supersticioso, religioso, eles seriam sublimemente resistentes a qualquer perigo advindo da água. Durante a vida inteira este homem lutou contra a ilusão da gravidade, de cujas conseqüências prejudiciais todas as estatísticas lhe traziam provas novas e múltiplas." (Karl Marx, Ideologia alemã)
Nos ensina o vernáculo que preconceito é "qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico, idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão". Não me parece que os assuntos abordados pelo Diário de S. Paulo e o programa de televisão Fantástico tiveram este caráter, como quer o sociólogo Sérgio Domingues no artigo "Homossexualismo, imprensa e ratos". Afinal, a hipótese levantada pelo trabalho de genética, como em todas os aspectos da vida, suscita uma série de hipóteses. E assim se manifestaram os comentaristas sobre o trabalho do Dr. Eric Vilain. Preconceito poderia haver se não resultasse em especulações. Para isto serve a ciência. Não para evitar "verdades" e "conceitos" intocáveis. E neste aspecto é que a sua associação com crenças como religiões e ideologias acabam por inibi-la.
Compreendemos que o sociólogo Sérgio Rodrigues tenha esta dificuldade em relação a matéria, pois a sua formação, ao não se basear no conhecimento científico, tem uma certa dificuldade de pensar com ele. Assim ocorre quando ele coloca como sendo o homem uma entidade intangível e separada da natureza, algo abstrato que se materializa no corpo físico vindo do nada.
Ptolomeu estava certo?
O trabalho do Dr. Eric Vilain simplesmente encontrou, na ativação dos genes do embrião, a expressão genética na transformação do cérebro em feminino ou masculino, e nos atenta para a importância médica disto em crianças com genitália ambígua de que se possa, por esta identificação, obter uma certeza maior em sua orientação, antes da puberdade, para que não estejam sozinhas nas decisões. Seria mais um dado para as crianças e suas famílias.
Provavelmente os jornalistas especularam que a homossexualidade poderia ter esta explicação. A partir daí o professor conclui que se esteja impondo um tratamento aos homossexuais, coisa que não está dita em lugar nenhum. Como opção terapêutica, pode ser usada qualquer arma que se tenha. Uma pessoa que se ache "num corpo de homem com cérebro de mulher" poderia utilizar qualquer das opções, tratar o cérebro ou o corpo. Só o futuro o dirá, pois por enquanto o cientista está cumprindo apenas seu escopo: investigar a natureza e descobrir suas leis reproduzíveis para poder, talvez, usar num futuro. Preconceito? Certamente não.
Mas para combater a pesquisa científica o professor Sérgio critica sem acrescentar mais nada do que sua opinião pessoal. Chama o testemunho de "consenso" entre biólogos, psicólogos e outros cientistas (?) de uma certeza definitiva sobre sexualidade que não existe. Mesmo que houvesse, não pode a ciência ser impedida de investigar, para apenas evitar descontentar versões anteriores, pois esta é a virtude da ciência verdadeira. Galileu não deveria exprimir seu ponto de vista, pois o "consenso" era que Ptolomeu estava certo?
Singeleza de visão
Após refutar as reportagens com juízos de valor, diagnostica, incrivelmente, o que chama de "doenças" sociais. Seu reconhecimento seria, após negar a validade da ciência para encontrar doenças e determinantes genéticas, que conservadores, "reacionários" e racistas seriam estes doentes (certamente ele se consideraria o habilitado a fazer estes diagnósticos da patologia social). Opõe-se aos trabalhos e pesquisas em geral que não tenham caráter neutro. Olhar no microscópio pode, mas relacionar o homem com a natureza seria doentio.
De onde o nosso comentarista tirou tudo isso? De sua visão ideológica do capitalismo entendido pela doutrina marxista, que usa no fim do texto para arrematar o ataque à ciência. Diga-se de passagem, uma doutrina totalmente superada, mas muito adorada pelos sectários. Exagero? Pois vamos comparar. Quem consultaria um médico que diagnosticasse males e que usasse remédios e cirurgias de 160 anos? Ou um engenheiro que estivesse preso a métodos da mesma época? Assim como um biólogo, um astrônomo, um psiquiatra, um arquiteto, um zoólogo, um astronauta, um programador de computador, um gerente de empresa, um fotógrafo, um projetista náutico, um piloto de avião, um submarinista e aí por diante...
Isso demonstra, ao contrário do que afirma nosso hermeneuta, que o capitalismo foi de fato inspirador e revolucionário em todos estes campos. A não ser em sociologia, que pode ficar estagnada pela visão de autores antigos, pela "interpretação" da visão do professor tal ou qual, a ciência real não parou nunca, demonstrando que a utilidade de Marx se esgotou em seus erros. Uma ciência que não preveja resultados e diagnostica errado é totalmente inútil e não pode merecer este nome. Produziu um reducionismo ao materialismo histórico e à luta de classes, que se transformou numa máquina de interpretação alheia aos fatos, mas sedutora pela singeleza de visão.
Ciências reais
Marx teve também a sua fase de avaliar as pessoas pela frenologia, idéia do médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828), de analisar o aspecto externo do crânio para identificar suas qualidades. O espiritismo de Allan Kardec, "codificado" na mesma época, cria sua forma de interpretar o mundo alheio a ele. Seguido na passagem do século 19 pela criação da psicanálise pelo Dr. Sigmund Freud, que desenvolveu, igualmente, uma destas doutrinas interpretativas que servem para analisar as vidas das pessoas ignorando a elas mesmas.
Marx errou nos seus diagnósticos, todos baseados não na ciência, mas num desejo de transformação advindo de valores de sua cultura judaico-cristã de um tipo de sociedade que fantasiou. Mas, apegada às crenças, a sociologia ainda persegue o nirvana alheio à experiência do mundo vivenciada no século passado na busca do paraíso ilusório da imaginação.
Se o método não serviu para prever as transformações econômicas nem a transformação no paraíso prometido, muito menos se ajusta para criticar as ciências reais da qual trata o trabalho do Dr. Eric Vilain, ou a visão dos jornalistas e do enfoque do Fantástico. Só falta o sociólogo Sérgio Domingues criticar a Rede Globo por discriminação com homossexuais.
(*) Médico
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