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JORNALISMO CIENTÍFICO
A rebimboca da parafuseta
Muniz Sodré (*)
Passou despercebido da grande imprensa brasileira, apesar de sua repercussão em inúmeras publicações estrangeiras e na internet, um incidente notável, de âmbito científico, nos Estados Unidos e na Europa. É análogo a um outro, acontecido anos atrás, quando o professor norte-americano de física Alan Sokhal (que andou fazendo conferências sobre o assunto aqui no Brasil) perpetrou um pastiche – Quebrando as Fronteiras: Para uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica – com a sugestão de que um trabalho recente de física quântica comprovava aspectos da psicanálise lacaniana. O artigo era uma impostura satírica, mas foi publicado numa sisuda revista acadêmica de ciências sociais.
Não faltou quem risse muito na época do que se julgava ser apanágio das ciências do homem: o trânsito fácil da parolagem sem sentido no meio acadêmico. São constantes e razoavelmente justas, aliás, as críticas jornalísticas aos variados jargões que carregam os epítetos de "economês", "sociologuês" etc.
Desta vez, porém, não se trata de ciência social. O establishment da física simplesmente parece ser incapaz de decidir sem mais delongas se uma comunicação preparada por dois apresentadores da televisão francesa – os irmãos Grichka e Igor Bogdanov – é um avanço científico ou uma fraude bem elaborada. As denúncias devem-se a grupos da Usenet, com repercussão na internet e em revistas e jornais de ciências.
A fraude, de intenções aparentemente brincalhonas, consta de quatro artigos que a dupla Bogdanov conseguiu publicar em mais de uma revista científica de sólida reputação (por exemplo, a Classical and Quantum Gravity, editada pelo importante Instituto de Física da Grã-Bretanha), "demonstrando" a "origem topológica da inércia". Como se sabe, para ser publicado numa revista dessa qualidade um artigo tem de ser lido e aprovado por referees (árbitros, avaliadores) escolhidos entre pares da comunidade científica.
"É um caso interessante para um estudo sobre como um assunto que é basicamente non sense passa facilmente por referees nos dias de hoje", comenta Peter G. Woit, um físico teórico, que dirige o ensino no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia. Em resposta, os irmãos Bogdanov sustentam que estão realizando um trabalho sério, destinado a responder uma das questões mais fundamentais da física: o que era o universo no momento do Big Bang? Naquele instante, assinala o jornalista científico Andrew Orlowski, de San Francisco (EUA), todo espaço e tempo foram comprimidos num ponto sem qualquer largura ou duração, um espaço infinitesimal chamado singularidade. "Pela primeira vez, nós temos uma descrição do conteúdo dessa singularidade inicial", proclama Grichka.
Parolagem inconsistente
Na verdade, os irmãos Bogdanov não são apresentadores comuns de TV. Grichka, orientado pelo professor francês Daniel Sternheimer, obteve em 1999 o seu Ph.D. em Matemática, sob a condição de que retrabalhasse a sua tese. Igor, por sua vez, doutorou-se em Física em julho de 2002. Ambos costumam descrever a si próprios como gênios – alegam possuir QI acima de 200 –, escreveram romances de ficção científica e tornaram-se apresentadores de programas televisivos de divulgação científica.
Em que tudo isso diz respeito a nós, aqui no Brasil? O assunto interessa a qualquer comunidade acadêmica, ou mesmo aos jornalistas, seja qualquer for o território. Trata-se, afinal, da distinção entre o verdadeiro e o verossímil. O aspecto mais escandaloso da questão é que, até agora, ninguém sabe dizer com absoluta certeza se os irmãos Bogdanov estão falando sério ou gozando os cientistas.
Como diz o físico Jacobus Verbaarschot, professor da State University de Nova York, "talvez não haja verdadeiros especialistas no que eles [os Bogdanov] estão fazendo, já que está de longe fora da corrente geral".
Para nós, para o jornalismo, toda essa história de uma fraude suposta pode servir de lição contra as certezas adquiridas quanto ao entendimento do que seja ciência. A mentalidade cientificista da maioria da classe jornalística é primordialmente positivista, ou seja, conformada por uma epistemologia decadente. A ciência de hoje (vide a física quântica) comporta o aleatório e a indeterminação, fatores recorrentes também nas ciências do homem.
Por outro lado, o episódio deve também alertar-nos para o discurso pretensamente científico dos scholars que hoje dissertam nos gabinetes govenistas sobre o futuro das instituições. É preciso prestar mais atenção às explicações sobre câmbio, juros e déficits da Previdência. Não raro, consistem em parolagem inconsistente, garantida por argumentos de autoridade. Algo como a história do trambiqueiro mecânico de automóveis, que explica ao dono do carro quebrado: "É a rebimboca da parafuseta".
(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ
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