12/08/2003

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JORNALISMO CIENTÍFICO
Aquecimento global e omissão ambiental

Ulisses Capozzoli

Impossível não associar a onda de calor e incêndios que afetam a Europa neste final de verão no Hemisfério Norte ao aquecimento atmosférico provocado pelo efeito-estufa.

No domingo (10/8), como numa cena de ficção não muito convincente, o papa João Paulo II implorou a Deus que mande chuva sobre a Europa: "Peço que se unam a mim em oração pelas vítimas desta calamidade e conclamo a todos a pedirem fervorosamente ao Senhor a conceder à sedenta terra o frescor da chuva", pediu o papa de sua residência de verão, em Castelgandolfo.

Se fosse um pajé do Xingu executando a dança da chuva para mitigar a sede da terra, a mídia daria num pé de página, como um acontecimento exótico. O papa, fazendo o mesmo pedido, tem direito a chamada de primeira página.

O que leva o papa à primeira página da imprensa internacional são fatos assustadores previstos pela maioria dos modelos envolvendo o efeito-estufa, o aquecimento atmosférico produzido por gases como o dióxido de carbono (gás carbônico), amônia e vapor d’água entre outros. O gás carbônico, em especial, está sendo liberado crescentemente na atmosfera por atividades envolvendo o uso de combustíveis fósseis como petróleo e carvão, além da redução de áreas florestadas.

No domingo mesmo, a Inglaterra registrou temperaturas tropicais: 38,1ºC em Gravesend, no sul do país, superando o recorde de 37,8ºC, de 1990. Com a nova medida, o mercado de apostas reagiu morbidamente e a casa de apostas William Hill pagou prêmios equivalentes a US$ 400 mil, com os palpites registrando 25 para 1 para temperaturas superando a medida de 1990.

Nas regiões norte e central da Inglaterra, chuvas fortes, como as que afetaram a Índia durante a semana, castigaram grandes cidades – caso de Birmingham.

Também a Alemanha teve temperaturas surpreendentes no domingo. Em Roth, próximo a Nuremberg, famosa pelos julgamento de nazistas no pós-guerra, os termômetros chegaram a 40,4ºC e passaram em dois décimos o que havia sido observado em Gaermersdorf, em 1983.

No norte da França, uma criança morreu após ficar presa no carro da família por uma hora e meia, aumentando para 50 o número de vítimas do calor apenas nos últimos quatro dias.

Na segunda-feira (11/8), a Holanda, que tem parte de seu território situado abaixo do nível do mar, estava no "código vermelho", devido ao risco de blecautes.

Ponto crítico

Em sete países europeus, a onda de calor devastou 1.750 km2 varridos pelo fogo. Em Portugal, os incêndios queimaram 540 km2 de floresta e mataram 15 pessoas em uma semana e o nível de água dos reservatórios é crítico em muitos lugares.

Outras cenas do desastre ambiental são perdas estimadas em até US$ 6 bilhões, na Itália, envolvendo prejuízos com as safras de uva, damasco, azeitonas e pêssegos. Na Europa Central, rios estratégicos como o Danúbio, inviabilizam a navegação.

Se Sua Santidade fosse mais objetivo nas definições de condutas e comportamento por parte da Igreja Católica, certamente os resultados seriam mais promissores que os pedidos aos céus.

A Igreja Católica, reafirmando uma postura histórica de anacronismo frente à realidade social, condena toda prática de relacionamento sexual que evite a gravidez e, dessa forma, o aumento da população.

Evidentemente que o crescimento populacional não é a única razão por trás do efeito-estufa (se, de fato, esse fenômeno for o responsável pelos acontecimento deste verão austral). Mas não pode ser negligenciado.

A Igreja Católica, no entanto, não é a única instituição que deveria fazer um reexame de suas posições. A mídia também.

Uma parte significativa dos meios de comunicação insiste que o aquecimento global deve-se a efeitos naturais (não produzidos pelo homem) e que, neste caso, nada pode ser feito em relação ao controle de gases do efeito-estufa. Com isso, faz coro com uma versão conservadora deste fenômeno que tem no presidente norte-americano George W. Bush uma espécie de porta-voz.

Os modelos climáticos, de fato, são incapazes de dizer neste momento, com segurança absoluta, que mecanismos atuam sobre o aquecimento atmosférico para identificar se são naturais ou de origem antrópica.

Se os tais "céticos" estiverem equivocados e o aquecimento de fato estiver relacionado a emissões de origem antrópica, é bem possível que a situação se agrave a um ponto imprevisível, sem que nada seja feito. Caminharíamos para uma fornalha sem esboçar a mínima reação.

De um modo geral, as pessoas pensam que o clima está mudando rapidamente e que, na infância dos mais velhos, por exemplo, as estações do ano costumavam ser mais estáveis e as produções agrícolas mais generosas.

Qualquer psicólogo sabe que essas lembranças operam por um sistema seletivo e que, estatisticamente, não oferecem nenhuma confiabilidade. No caso do Brasil, por exemplo, caracterizado por uma constante expansão da fronteira agrícola, as terras recém-abertas costumam oferecer boa produtividade nos primeiros anos e decair, em seguida.

Desde o século 19, no entanto, há uma preocupação crescente junto à comunidade científica envolvendo o efeito-estufa. Em 1896, por exemplo, o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius escreveu um longo artigo sobre os efeitos preocupantes de quantidades crescentes de gás carbônico lançados na atmosfera.

Recentemente, os defensores do efeito natural para o aquecimento atmosférico têm argumentado que mecanismos naturais como a fotossíntese retiram esse gás da atmosfera permitindo à vegetação um crescimento mais rápido. Os oceanos também fazem esse trabalho a partir dos fitoplânctons, as micro-algas, uma espécie de pastagem oceânica e base de toda a cadeia alimentar.

Uma das dificuldades, neste caso, é que não se conhece suficientemente o funcionamento desses mecanismos para saber, por exemplo, até onde podem atuar – ou seja, quais os seus limites e principalmente se, superado esse ponto crítico, quais os efeitos que podem manifestar-se.

Mudança de paradigma

Nos anos 1970, quando assessorou a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, para o envio das sondas Viking a Marte, o físico-químico inglês James Lovelock estava desenvolvendo sua hipótese Gaia, que foi vista como uma variante de misticismo pela mídia mais sumária.

Em resumo, o que Lovelock propõe é que a Terra é um imenso organismo vivo, capaz de operar sua própria homeostase – como nosso corpo, por exemplo, que aumenta a temperatura (febre) para combater uma infecção.

De acordo com Lovelock, quando o Sol foi mais frio, a Terra liberou maiores quantidades de gases do efeito-estufa, especialmente gás carbônico, para se manter aquecida. Com a maior radiação solar, a quantidade desses gases diminuiu.

Um dos mecanismos da Terra para liberar gás carbônico na atmosfera é pelo vulcanismo, onde parte das pessoas, eventualmente o papa, só pode enxergar a destruição. Não fosse pelo vulcanismo, a Terra poderia estar morta há muito tempo.

Assim, a Terra controlaria a quantidade de gases do efeito-estufa. Mas só pode fazer isso em períodos mais largos de tempo. O problema é que para a humanidade, ou uma parte significativa dela, "tempo é dinheiro" e, assim, enquanto houver perspectiva de lucros para segmentos interessados nada mais fará sentido, inclusive o caos climático do planeta.

Se a fonte de aquecimento for de origem humana, alguma coisa pode ser feita capaz de minimizar os efeitos já registrados. Fontes de energia baseada em petróleo, por exemplo, podem ser parcialmente substituídas por energia solar, eólica ou retirada de fontes renováveis, como o álcool.

Para que isso ocorra, é preciso especialmente uma mudança de mentalidade. A idéia de que o mundo é praticamente infinito – e que o papel do homem é o de crescer e multiplicar – é de origem religiosa e deve ser repensada.

Neste contexto, há um papel de destaque para o jornalismo envolvido com divulgação científica. Bons jornalistas ligados à divulgação científica não podem nem devem tomar partido de uma ou outra versão na ausência de critérios mais consistentes.

Não faz sentido, por exemplo, assumir o aquecimento global como de origem natural como conseqüência de posturas ideológicas. E uma razão para isso é o fato de se tratar de uma postura irreversível. Se estiverem errados, não terão como se corrigir. Quanto à versão de origem antrópica, ao menos permite que se melhore o ar respirado nas grandes cidades. Mas também essa versão não pode ser interpretada de forma catastrófica.

Daí, entre nós, a preocupação com o que vem ocorrendo na área editorial. Há poucas semanas, o editor da revista Galileu, Maurício Tuffani, deixou seu cargo na editora Globo pressionado por executivos interessados em turbinar a publicação.

O estilo dessas pressões está numa capa primária da edição de julho, tratando de sexo de forma maniqueísta, quando a capa original, sobre o assunto, era mais sofisticada e inteligente.

Jornalistas comprometidos eticamente com o trabalho que fazem, caso de Tuffani, são fundamentais para a educação da sociedade em assuntos relacionados à ciência e que se manifestam no cotidiano de cada um. Os executivos, preocupados com respostas rápidas que lhes permitam ascender rapidamente, são uma ameaça ainda pouco avaliada em relação ao que se pode chamar de educação científica.

Como se vê, as ondas de calor que varrem a Europa, longe de se resumirem a um pedido de clemência aos céus, estão intimamente relacionadas a um comportamento que deve ser alterado aqui na Terra. Uma mudança de paradigma, para utilizar a expressão de Thomas Kuhn. E isso tem muito a ver com a mídia.


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