|
IN VITRO
Nova caça às bruxas
Ulisses Capozoli
John Noble Wilford, veterano jornalista científico do New York Times, em matéria publicada pela Folha (3/12, página A14), mostra que há mais de 70 mil anos criaturas, que o tamanho do corpo e do cérebro permitem reconhecer como humanas, ocuparam uma caverna num rochedo em frente ao Oceano Índico, na ponta da África do Sul. Caçavam cabras selvagens e recolhiam peixes das águas abaixo. E mais do que isto, construíam ferramentas tendo como matéria-prima ossos.
A descoberta está reformulando a idéia que o desenvolvimento humano foi um acontecimento "tardio e abrupto". As armas, à base de ossos, parecem sugerir que tudo isso é mais antigo que se pensava.
Essa é uma das possibilidades do jornalismo científico. Fazer conexões novas entre fatos novos mostrando que, de alguma forma, o homem está no centro do mundo, não como o velho antropocentrismo sugeria, mas no centro como intérprete do mundo. Esta, certamente, é uma pré-condição para que inúmeras outras questões possam ser melhor analisadas. Especialmente nestes tempos mais difíceis, como descobriu Richard Berthold, professor da História da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos (O Globo, 9/12, página 46).
Em 11 de setembro, Berthold comentou, em sala de aula: "Qualquer um que explodir o Pentágono tem o meu voto". Suas palavras segundo o correspondente de O Globo, Toni Marques, se espalharam rapidamente e foram parar em mais de 100 listas de anticivismo acadêmico num documento intitulado "Defendendo a civilização: como nossas universidades estão reprovando a América e o que pode ser feito a respeito disto".
Trata-se de um índex não-oficial do que pode ser uma nova caça às bruxas. Para que não se esqueça a dimensão desta restrição, é preciso lembrar que Albert Einstein e Charles Chaplin, dois homens insuspeitos, tiveram problemas deste tipo nos Estados Unidos. O documento, segundo O Globo, foi elaborado por um grupo conservador com a participação de Lynne V. Cheney, mulher do vice-presidente Dick Cheney. O grupo, intitulado American Council of Trustee and Alumni, tem representantes de 400 universidades.
Analfabetismo humanista
A escritora Susan Sontag, ameaçada de morte por artigos que escreveu a respeito do 11 de setembro, disse em resposta a uma pergunta do Globo, na New York University, que "a situação é muito perigosa". De acordo com Sontag, "vivemos uma situação em que o debate é entendido como discórdia; a discordância é entendida como perversão e a perversão entendida como traição..."
Por trás disso, Sontag vê riscos como a possibilidade de um candidato a prefeito comprar sua vitória, pois, diz ela, "quem doa dinheiro às universidades pode dizer: ‘Eu não vou doar ao seu departamento porque um professor manifestou-se contra os Estados Unidos".
Na relação de frases coletada pelo grupo está, entre outras, uma fala do reverendo Jesse Jackson, que, em palestra na Escola de Direito de Harvard, disse que os Estados Unidos deveriam "construir pontes e relações, e não simplesmente bombas e muros".
A crítica de Jackson pode refletir a existência de uma outra forma crescente de analfabetismo: o analfabetismo humanista, que nega ao homem o direito de ser humano.
|
|