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CIÊNCIA & CARNAVAL
A estrela e o oceano da travessia

Ulisses Capozoli (*)

Véspera de carnaval, o País pára num reencontro com a ancestralidade. A Bahia certamente é a raiz mais profunda fincada na África, 140 milhões de anos depois de os dois continentes terem se separado e estarem se afastando a uma velocidade de 5 centímetros ao ano.

Nesta brecha entre Brasil e África, assentados sobre as placas tectônicas Sul Americana e Africana, que numa fração de tempo remoto teve espessura menor que um fio de cabelo, nasceu o Atlântico nesta data estelar de 5 bilhões de anos – a idade de nosso Sol, vasto, não como mar, mas como oceano.

Foi este o oceano da travessia, do descobrimento, dos navios negreiros, do gemido do açoite e do sexo desregrado entre negros, brancos e índios, da forja de povos mestiços, do embaralhamento genético, culinário, lingüístico, religioso e científico.

Falar de ciência, na África, pode ser pecaminoso aos olhos de observadores cautelosos, ciosos de uma pretensa primazia do Ocidente Cristão, mas a realidade quase sempre é mais espantosa que a ficção. É o caso dos dogons, grupo étnico do platô central do Mali, somando perto de 300 mil pessoas divididas entre as montanhas rochosas e as terras elevadas da província de Bandiagara.

Os dogons são em sua maioria agricultores e seus poucos artífices dividem-se entre os que moldam o metal e os que trabalham com o couro, formando castas distintas. Ao contrário de todos nós, que pagamos a cada dia um pesado tributo ao governo central (sempre insatisfeito com esta cota) sob a forma de impostos renovados e crescentes, os dogons não têm, digamos, "administração" centralizada. Ainda assim, vivem em cidades e vilas controladas por grandes famílias, onde o líder é um homem, descendente de um ancestral comum. Cada distrito tem um "hogon", ou líder espiritual, e há um "hogon" supremo para todo a nação dogon.

O sistema religioso dos dogons personifica em objetos físicos deuses e demônios, mas ao contrário do que pode parecer à primeira vista, seus princípios metafísicos são mais abstratos que os de outros povos africanos.

O clímax religioso dos dogons ocorre a cada 60 anos, numa cerimônia chamada "sigui", quando a estrela Sírius aparece entre dois picos montanhosos. Antes da cerimônia, homens adolescentes recolhem-se durante três meses quando se comunicam numa linguagem secreta. A cerimônia está baseada na crença de que, há 3 mil anos, criaturas vindas de Sírius, a estrela mais brilhante do céu, visitaram os dogons.

Tempos dúbios

Pode ser lugar-comum atribuir a si próprio importância acima da concedida aos demais. Assim não seria exagero que os dogons se referissem a Sírius, justamente por seu brilho espetacular, a origem de um visitante privilegiado. De outra maneira, os ianomâmis também agem assim. "Iano" na língua ianomâmi significa casa e ianomâmi é um construtor de casa, um maneira particular de se definirem como humanos em relação às outras criaturas da floresta.

A particularidade dos dogons, que sempre assombrou o astrônomo e divulgador de ciência norte-americano Carl Sagan, morto no final da década passada, é que os recolhimentos religiosos coincidem com um volta que Sirius B, companheira invisível (a olho nu) de Sirius, faz em torno da estrela principal. Sirius B só foi descoberta no final do século 19, mas há um tempo imemorável a narrativa oral dos dogons sabe que ela existe e tem este período orbital.

Não sei se os dogons já foram tema de uma escola de samba. O seguro é que um pouco de conhecimento de ciência, neste caso uma base elementar em antropologia, minimizaria ao menos as observações de comentaristas – quase sempre os tais ricos ou famosos – sobre o significado mitológico de uma festa como o carnaval, cada vez mais reduzida a uma nudez puramente comercial. Corpos esculpidos na ponta do bisturi, enxugados pela lipoaspiração ou aumentados convenientemente pela massa gelatinosa do silicone.

Se esta gente, especialmente emperiquitada na TV, tivesse um pouco mais de formação certamente ficaria constrangida com o papel que desempenha, voltado para o empobrecimento cultural dos demais. O que é escancarado na TV não é menos visível nos jornais. A conversa de sempre, como peixe na Semana Santa e flores no Finados. Falta oxigênio, faltam idéias, propostas, provocações para se pensar e agir de uma outra maneira.

Não muita gente deve se lembrar do filme A Noite dos Desesperados, sobre o clima da depressão profunda do final dos anos 20, transposto para os tempos atuais em encenações como Casa dos Artistas. Numa dessas competições idiotas, um sujeito se vangloria de ter negado comida e ajuda a um outro concorrente como se fosse um herói. O contraponto, na vida real, é a escalada de seqüestros, assassinatos, roubos e toda forma de abusos que vão de remédios a combustíveis falsificados.

Daí a possibilidade, talvez perdida nestes tempos dúbios, de o carnaval nos remeter às profundezas do tempo em busca de um sentido para o presente. A imprensa deveria ajudar neste trabalho, como uma prestação de serviços, mas, aparentemente, é a que mais desorienta.

Mal-estar social

O que nos reserva o futuro? Entre 1991 e 2001 o Brasil passou da 26ª para a 17ª posição mundial como produtor de ciência. Foi resultado do investimento feito há meio século, especialmente com a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como agência de fomento à pesquisa. Mas no sábado de carnaval (9/2/02), os jornais publicam que o "governo anuncia redução recorde de gastos no ano" (manchete do Estado de S.Paulo).

Pode parecer edificante e a intenção da imprensa submetida ao governo é fazer com que seja exatamente assim. Entre outros cortes preocupantes, as aplicações em ciência e tecnologia sofreram uma redução de 454,5 milhões de reais. Assim, o que fazer, por exemplo, com os 6.300 novos doutores formados no ano passado e com os mais de 7 mil previstos para este ano? Deixar que se mudem para o exterior, por falta de empregos no país?

No Brasil, somos uma nação com profundas raízes escravistas – o que significa, em princípio, uma negação da ciência e da tecnologia. O Brasil foi a última nação ocidental a abolir formalmente a escravidão, mas os resquícios permanecem desde a estrutura de empregadas domésticas aos trabalhos forçados sem pagamento de salários, em fazendas isoladas no interior do país. O problema da escravidão, menos que a cor da pele, é de mentalidade. E mesmo o movimento negro, ao que tudo indica, não admite a complexidade desta questão ao defender, por exemplo, indenizações em dinheiro. Dinheiro não compra dignidade e algo nada incomum no Brasil escravista era um negro forro, aquele que tinha carta de alforria, comprar um escravo. E na África, quem caçava escravos para os brancos senão os próprios negros?

Antes que os apressados de sempre apontem aqui uma pretensa posição escravista é preciso enfatizar que a escravidão destrói a humanidade de senhores e de escravos. Um e outro deixam de ser humanos para se transformar em criaturas robotizadas de interesses e humilhações inaceitáveis sob todos os pontos de vista. E o assunto é mais complexo que parece num primeiro olhar.

No Brasil, o resultado dessa mentalidade que insiste em permanecer é um mal-estar social, expresso em tudo que se vê e lê no cotidiano e onde, aos negros, ainda cabe a posição mais difícil. E a pretensa frugalidade do governo nos gastos públicos, que bem direcionados deveriam mudar lentamente essa situação, não passa de pura ficção, especialmente num ano de eleições.

Que me perdoem, os leitores mais exigentes, este escrito sob a forma de samba-do-crioulo-doido. Afinal, ao menos hoje, pode-se dizer que é carnaval.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutorando em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo científico (ABJC)


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