14/05/2003

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PNEUMONIA ATÍPICA
A morte e o vírus da desinformação

Ottoni Fernandes Jr. (*)

A desinformação é o maior agente de propagação de doenças mortais, como a Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS, do inglês), responsável por 6 mil pessoas contaminadas e 478 mortes em todo o mundo. Apesar da globalização e da existência de 120 laboratórios de referência para combate à gripe em 120 países, a pneumonia atípica nasceu em Gangdong, província do Sul da China e espalhou-se por vários países a partir de Hong Kong. Autoridades da província de Gangdong tinham conhecimento da doença desde novembro, mas só no final de abril o governo chinês admitiu a existência de uma epidemia, demitiu o Ministro da Saúde e tomou medidas drásticas de controle.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu o primeiro informe sobre o surto em Guangdong em novembro, através de um cientista que participava de uma conferência em Pequim, mas somente em fevereiro mandou uma equipe de investigação para a capital e dali para o Sul da China. O primeiro alerta mundial para os riscos da nova cepa de vírus foi dado apenas em meados de março. É certo que a OMS não pode sobrepor-se à soberania de um país que resolve não cooperar.

A imprensa, especialmente em países ainda não afetados pela doença, como o Brasil, tem um papel fundamental para ajudar a evitar e controlar epidemias e pandemias. Ao explicar o mecanismo de propagação contribui para que as autoridades sanitárias, cientistas e todos os formadores de opinião tomem posições e adotem medidas preventivas. Uma análise da cobertura da pneumonia asiática nos Estados Unidos mostra que os jornais de qualidade, com equipes especializadas em ciência e saúde, apontaram, desde o começo do ano, que a Sars tinha origem em animais, especialmente aves, que poderiam ser o hospedeiro original do novo tipo de vírus.

Menção alguma

Desde fevereiro, quando li o livro A Gripe, a história da pandemia de 1918, editado no ano passado pela Record, de autoria de Gina Kolata, repórter de ciência do New York Times e também bióloga e virologista, tenho pesquisado na internet para tentar localizar alguma citação da obra, que esclarece em profundidade como a forma de propagação de gripes viróticas e porque a região Sul da China é o berço da maioria das pandemias recentes. Nada encontrei na imprensa brasileira.

O livro foi publicado nos Estados Unidos em 1999 e explica, com precisão cirúrgica, a enorme catástrofe que foi a pandemia da Gripe Espanhola de 1918/19 que matou 20 milhões de pessoas em todo o mundo, mas do que o total de 15 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial.

Na leitura da matéria de capa da edição 1.802 da Veja (7/5/03) (com chamada "SARS, a epidemia que põe o mundo em pânico"), confiei que a mais importante revista de informação brasileira trataria de esclarecer o mistério da origem desta terrível epidemia. Mas a chamada e título interno da matéria ("Uma epidemia globalizada", págs. 92-99) provocaram frustração, pois trata-se de uma pandemia, por ter atingido vários países e continentes. Nenhuma menção ao livro de Kolata.

O semanário mostra que o Brasil não está protegido contra a propagação da Sars e lembra que a Gripe Espanhola de 1918/18 bateu pesado por aqui, tendo provocado 300 mil mortes, que representavam 2% da população da época. Veja errou nesta estatística, pois a grippe hespanhola (conforme a grafia da época) infectou 350 mil pessoas no Brasil e provocou 35.240 mortes, sendo 12 mil no Rio de Janeiro e 12.350 em São Paulo.

Medidas radicais

Alguns cientistas admitem que a Gripe Espanhola pode ter matado até 100 milhões de pessoas, uma vez que atingiu com mais força a China, África e Índia, onde não existiam registros confiáveis de óbitos. Foi uma das doenças mais letais da história recente, 25 vezes mais mortífera do que a gripe comum e matou 2,5% das pessoas infectadas. Prosperou mais rapidamente graças às condições da guerra: soldados acantonados, trincheiras úmidas e cheias de piolhos, fome e doença entre a população civil e intenso tráfego marítimo de carga e pessoas.

A Gripe Espanhola, também chamada na época de La Dansarina, parece ter chegado ao Brasil no navio inglês Demerara, que atracou em Recife e Salvador, antes de chegar ao seu porto de destino, no Rio de Janeiro, em outubro de 1918. O jornalista Alcindo Guanabara narra a falta de cuidado da Saúde do Porto do Rio de Janeiro, quando a epidemia já campeava na cidade: passageiros e tripulantes do navio Itacusse desembarcavam sem o menor controle.

O livro de Gina Kolata aponta uma provável causa pela qual a maioria das pandemias de gripe dos séculos 20 e 21 pode ter nascido na China, especialmente na província de Guangdong, onde está encravada a metrópole de Hong Kong, um dos mais importantes portões de acesso à China, por onde passam centenas de navios e milhares de passageiros de companhias aéreas todos os dias.

O cientista Robert Webster, do Saint Jude Children Research Hospital, de Memphis, nos Estados Unidos, depois de pesquisar as recentes pandemias, incluindo a Espanhola de 1918, sustenta que começaram como uma gripe de aves, narra o livro de Kolata; antes, porém, que possam infectar uma pessoa, têm que ser humanizadas, com mudanças nas enzimas do revestimento celular das células do vírus. Para Webster, isso ocorre nos porcos, que fazem a ponte entre as aves e os seres humanos, pois os suínos têm a capacidade de desenvolver tanto a cepa humana do vírus quanto a das aves. Segundo o cientista, as duas únicas pandemias de gripe recentes cujos vírus foram isolados envolviam cepas originadas, indiretamente, de aves: a Gripe Asiática de 1957, que provocou 1 milhão de mortes em todo o mundo, e a Gripe Hong Kong, de 1968, que foi responsável por 700 mil vítimas fatais.

O livro de Kolata revela também que o cientista Kennedy Shortbridge da Universidade de Hong Kong avançou no caminho aberto por Webster, ao propor que o Sul da China e especificamente Guangdong é o epicentro das recentes epidemias de gripe devido ao particular sistema de produção desta região agrícola, que é a principal fonte de alimentos in natura de Hong Kong. Os plantadores de arroz colocam patos na lavoura enquanto não surgem os grãos, pois essas aves comem os insetos e ervas daninhas, protegendo a cultura. Quando começam a granar, removem os patos. Também criam porcos nessas lavouras, pois esses animais não comem o arroz. O sistema produtivo arroz-pato-porco seria o viveiro dos terríveis vírus da gripe.

Baseado nessa avaliação, o governo de Hong Kong tomou drásticas medidas radicais quando um menino morreu de pneumonia em maio de 1997. Além do rigoroso isolamento de todo o pessoal do hospital, família e amigos, o governo decidiu eliminar 1,2 milhão de aves comercializadas nos mercados úmidos da cidade, que foram fechados por um mês, e todas as gaiolas de madeira substituídas por outras, de plástico, mais fáceis de serem mantidas limpas. Com medidas sanitárias radicais, e doença não prosperou. Na época, Hong Kong ainda era controlada pela Grã-Bretanha, pois a passagem para a soberania chinesa ocorreu logo depois, em 1° de julho de 1997.

"Tratada e controlada"

Desta vez foi diferente, pois o governo chinês foi, no mínimo, descuidado ao combater a epidemia, quando surgiu em Guangdong em novembro do ano passado, apesar de todas as evidências apontarem para a mesma origem: o sistema arroz-pato-porco e os mercados úmidos. Quem conhece Hong Kong e as características da tradicional culinária cantonesa (de Cantão, antiga denominação da capital de Guangdong) entenderá a facilidade de propagação do vírus da gripe a partir da região: carnes, peixes, legumes e vegetais tem que ser frescos, nada resfriado é aceito pelos cantoneses.

De madrugada, partidas de alimentos frescos são enviados das regiões agrícolas de Guangdong para Hong Kong, onde são comercializados nos mercados úmidos, em condições bastante precárias: aves, peixes e animais são abatidos na hora. Um vendedor especializa-se em sapos, mantidos em gaiolas, que são mortos e limpos à vista do freguês; peixes vivos são colocados em formas metálicas; aves são retiradas das gaiolas para o abate e venda, embora consumidores mais rigorosos prefiram levá-las vivas, para liquidá-las na cozinha.

A enorme concentração populacional em Hong Kong também facilita a propagação de doenças viróticas. A ilha tem uma área de 90 quilômetros quadrados, onde vivem 3,6 milhões de pessoas, ou seja, 40 mil pessoas por quilômetro quadrado. A concentração é ainda maior no distrito de Kowloon, do outro lado da baía, com uma concentração de 250 mil pessoas por quilômetro quadrado.

O intenso trabalho dos cientistas da OMS permitiu rastrear com precisão o epicentro da atual epidemia de pneumonia atípica, apesar da cortina de silêncio das autoridades chinesas. Em novembro, hospitais de cidades do interior de Guangdong comunicaram às autoridades da saúde pública provincial um surto de pneumonia muito mais virulento. No começo de dezembro, um vendedor de cobras e aves entrou no hospital da cidade de Shundee com pneumonia aguda; seus familiares e funcionários do hospital também foram infeccionados. A cidade de Zhongshan foi uma das mais atingidas, com 13 funcionários do hospital infectados, que espalharam a gripe pela cidade, pois nenhuma medida de quarentena foi adotada. Em 19 de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde e o Centro para Controle de Doenças mandou uma equipe para Pequim e dali para o Sul da China. Até então a pneumonia atípica estava circunscrita ao Sul da China.

No dia 21 de fevereiro, o Dr. Liu Jianlun, um médico chinês de 64 anos, vindo de Zhongshan, hospedou-se no Hotel Metropole, em Hong Kong. Ia participar de um casamento, mas já tinha contraído a pneumonia e contaminou diversos outros hóspedes: uma chinesa residente no Canadá levou a doença para Toronto; Johnny Chen, um executivo americano carregou o vírus para Hanói, no Vietnã: três estudantes transportaram a pneumonia atípica até Singapura. Um dos infectados, no hospital de Hanói, foi o médico italiano Carlo Urbani, que depois morreu vítima do vírus mortal.

Somente em 14 de março a Organização Mundial da Saúde deu um alerta mundial para o perigo de uma pandemia mortal. A reação do governo chinês foi muito mais lenta, permitindo que a epidemia chegasse a Pequim. No dia 11 de fevereiro, o secretário do Partido Comunista da província de Guangdong garantia que "a doença estava efetivamente tratada e controlada". Em 11 de abril, He Xiong, o diretor assistente do Centro de Controle de Doenças de Pequim, ainda transmitia uma mensagem tranqüilizadora, pois existiam "apenas 27 casos de Sars na cidade e as pessoas não deveriam preocupar-se, podendo viajar pela China com segurança". Somente no final de abril foram tomadas medidas de quarentena e restrição de movimentos do público, com fechamento de escolas e locais de trabalho e colocação dos doentes em rigoroso isolamento.

Pesquisa simples

Muito diferente foi a postura do governo de Cingapura, quando surgiram os primeiros casos da doença, em março: quem chegava aos aeroportos tinha a temperatura corporal medida por máquinas digitais; mercados úmidos foram fechados e 2.400 vendedores colocados sob observação; nos hospitais, os doentes ficaram em alas totalmente isoladas do resto dos pacientes, e médicos e enfermeiras instruídos para adotar drásticas medidas de prevenção e controle. O governo do Vietnã também colocou em prática severas medidas profiláticas e, no fim de abril, o país era declarado zona livre da mortal pneumonia. O mesmo aconteceu em Toronto, no Canadá.

Até agora, nenhum caso foi comprovado no Brasil. Mas é preciso ter enorme cuidado, pois o nome original dessa família de doença virótica é influenza, que teve origem na Itália no século 18, pois a gripe seria causada pelo frio (influenza di freddo), já que surgia no fim do outono, quando a temperatura caía. É justamente a atual estação do ano no Brasil, mas as medidas de controle não estão à altura do perigo desta pandemia, especialmente num mundo globalizado. Os controles dos aeroportos são pífios, pois formulários com informações sobre estado de saúde, origem e destino são entregues apenas nas áreas de inspeção dos passaportes, quando deveriam ser distribuídos antecipadamente, nos aviões. E não existe um sistema eficiente de coleta e verificação.

O perigo está por perto, pois com a facilidade de transporte do mundo moderno, uma doença virótica como a pneumonia asiática pode propagar-se pelo mundo em apenas quatro dias; em 1918, a Gripe Espanhola demorou quatro meses para espalhar-se. E no caso da Sars, o risco de contaminação é tanto maior, porque o vírus pode permanecer vivo em objetos por várias semanas. A OMS já admite que a taxa de mortalidade é de 15% para doentes que contraíram a pneumonia asiática, com base num estudo de pacientes internados em Hong Kong. Resta torcer para que a pneumonia atípica não chegue a este país tropical, protegido por Deus e pela Natureza.

PS – Ao decidir escrever este artigo, fiz uma pesquisa no Google, buscando "Gripe Espanhola", apenas nas páginas em português e demorei 15 minutos para ler as páginas de jornais, laboratórios farmacêuticos e da Fiocruz para reunir informações sobre a propagação e número de mortes da pandemia de 1918/19 no Brasil. Outros 15 minutos foram necessários para ler matérias do final de abril e maio do New York Times, com as informações sobre a propagação da pneumonia asiática na China e de como chegou a outros países. Gastei mais tempo, em fevereiro, para ler o livro de Gina Kolata.

(*) Jornalista

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