OFJOR CIÊNCIA

JORNALISMO CIENTÍFICO
Visões estreitas e conclusões controversas

Ulisses Capozoli (*)

Jornalistas fazem uma eterna corrida contra o relógio, o que deve justificar parte dos erros publicados. Mesmo assim, boa parcela de seus críticos, especialmente na área acadêmica, parece incapaz de perceber a complexidade do processo. Na academia, uma única edição exigiria semanas de trabalho e, por isso mesmo, seria imprestável quando estivesse concluída. Ao menos enquanto jornalismo diário.

Mas quando o jornalismo são artigos nas páginas de opinião das edições, é um pouco diferente. A página 2 dos jornais é um espaço nobre que a redação tanto pode abrir a um leque de articulistas, expressando uma diversidade de opiniões, como restringir a um grupo previamente selecionado.

De qualquer maneira, os artigos da página 2 devem oferecer uma interpretação razoável para um fato e por isso mesmo seus conteúdos devem ter, obrigatoriamente, uma dimensão histórica mais ampla. Aí começam as dificuldades.

Alguns articulistas cumprem sua função com a engenho e arte, como faz Washington Novaes em "Adeus ao Grande Chefe Paru" (O Estado de S.Paulo, 9/11/01, pág. 2). Ele conta uma história, a vida e morte de Paru, chefe dos yawalapiti, um dos povos do Xingu.

Gilberto de Mello Kujawski poderia ter feito o mesmo com a exposição sobre o desenvolvimento do Ocidente em "O que faz a diferença do Ocidente" (O Estado de S.Paulo, 1/11/01) não fosse uma série de juízos bastante discutíveis de um ponto de vista histórico. Depois de escrever um "nada de sustentar aqui a imaginária ‘superioridade’ de uma ou outra cultura", Kujawski se pergunta: "Qual a diferença específica do Ocidente em relação ao Islã?" A resposta que ele mesmo dá é que "a diferença do Ocidente ante o Islã ou qualquer outra cultura se resume em que o Ocidente foi a única cultura que levou a modernidade à sua plenitude e às últimas conseqüências".

Uma conclusão apressada que não deveria combinar com o conteúdo da página 2. Como esse espaço, por sua especificidade, tende a formar opiniões com maior facilidade, conceitos aí expostos tendem a ser amplificados, em prejuízo ou benefício de uma melhor compreensão do que se discute.

Islã, obviamente tomado como sinônimo de Oriente, e Ocidente são duas culturas distintas e por isso mesmo interpretá-las sob um único prisma – curiosamente o que dá maior identidade ao Ocidente, a tecnologia – é como comparar bananas e laranjas. Ambas são frutas, mas incomparáveis entre si.

Autores como John D. Bernal, ou outro britânico, o especialista em história da ciência oriental (particularmente da China) Joseph Needham, mostram que durante a eclosão da Revolução Científica no Ocidente, no Oriente a China, por exemplo, tinha um nível de conhecimentos que não ficava nada a dever aos ocidentais.

A pergunta é por que a China não fez a expansão desses conhecimentos e, com eles, partiu para a conquista do mundo? Como fizeram os ocidentais, a exemplo de Portugal, que se envolvera com as viagens de descobrimento.

A resposta, tanto de Bernal como Needham, entre outros autores, é que a China estava ocupada com o seu vasto império interior – ao contrário do Ocidente, que se preparava para conquistas externas, das quais o pioneirismo português foi o primeiro passo. Claro que houve diferenças conceituais entre essas diferentes formas de conhecimento. Mas, em princípio, dificilmente se pode dizer que um fosse melhor do que o outro. Uma das particularidades da ciência ocidental é que ela foi disseminada pelas conquistas de novos territórios. Mas daí a concluir pela sua superioridade é, decididamente, uma aventura intelectual.

Pura descrença

A dificuldade da análise proposta por Kujawski, além de não levar em conta essa igualdade de condições históricas, é desconsiderar um certo princípio de relatividade. Uma referência externa às duas culturas deveria ser feita para se analisar, sem suspeição, as perspectivas de cada uma – um desafio nada fácil de se vencer. De qualquer maneira, desenvolver a discussão como Kujawski faz é, no mínimo, temerário.

Kujawski escreve que "por trás das máquinas e dos motores que impelem o Ocidente para a conquista do espaço e do tempo, por trás da informática, que cria o computador e possibilita a engenharia genética, está a moderna ciência da natureza, a física e a biologia (hoje tão sofisticadas que se aproximam da ficção científica). Por trás das centrais elétricas, das usinas nucleares e da mecanização da lavoura e das instituições democráticas reside um sistema de crenças que permite a dessacralização da natureza e a secularização da sociedade".

Impressionado com o que lhe parece promissor, Kujawski perde a oportunidade de situar criticamente esses avanços. A história da ciência é bem mais complexa que esse canto otimista quer traduzir.

Não se trata, antes que um terceiro crítico venha a concluir, de negar a potência da ciência ocidental, mas de situá-la criticamente, mesmo dentro do Ocidente. A ciência, neste momento, é a principal propulsora da chamada "globalização" – termo de sentido ainda controvertido, mas que sugere, fortemente, o avanço de um processo de acumulação favorável a uns poucos e desfavorável para a maioria, tanto em escalas nacionais como internacional. Apenas este processo, criando o que vem sendo chamado de "desemprego estrutural", bastaria para se perguntar para que serve a ciência, título de um sem número de escritos publicados particularmente depois do final da Segunda Guerra Mundial, concluída com as explosões atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

O que Kujawski chama de "dessacralização da natureza" é um acontecimento bem mais dramático do que ele parece aceitar; e dessacralização, aqui, não deve ser entendido em seu sentido estrito. Certamente pode ser tomado como perda de identidade cósmica, sentimento de não pertencer à natureza, perda de identidade numa sociedade em que tudo o que se conta é o lucro. Mais que a vida, conta-se o mercado. Daí as multinacionais terem ameaçado a África do Sul com a força dos tribunais, quando este país decidiu-se, no início deste ano, pela quebra de patentes para enfrentar a epidemia de Aids que assola a África.

Além disso, a que Ocidente se refere o articulista? A América Latina, por exemplo, integra este Ocidente?

Quando Richard Nixon fez, em meados dos anos 80, a reabertura da China pelo mundo, um dos conhecimentos que trouxe para o Ocidente foi a acupuntura. As primeiras reações da comunidade científica ocidental foram de pura descrença. Um quarto de século depois, os médicos, ao menos no Brasil, querem ser os únicos autorizados a se valer deste conhecimento milenar.

Burros n’água

A posição de Kujawski não é casual e reaparece numa reportagem publicada pelo mesmo jornal, em outra data (O Estado de S.Paulo, 11/11/01, pág. 11), sob o título "Como transformar pesquisa em dinheiro". Aqui o texto tem a seguinte abertura: "O caminho para chegar ao conhecimento, aquele que acrescenta novidades à ciência é árduo. São anos de estudo, experimentos, teses não comprovadas, idas e vindas até chegar à resposta correta. Então vêm os louros da academia, a publicação, o reconhecimento dos colegas..."

Trata-se de uma visão ingênua e inteiramente equivocada do que é e como se faz ciência, ou tecnologia, algo muito diferente. Entre outros fatos, em ciência não se chega exatamente a algo que se pode chamar de "resposta correta". O que acontece, neste caso, é uma aceitação temporária de uma explicação – e isso vale tanto para a gravitação universal (se Newton estivesse inteiramente correto a relatividade geral de Einstein não teria sentido) como para a origem da vida, fenômeno ainda hoje carente de uma explicação mais convincente. A passagem da matéria inorgânica para a orgânica continua precária, ao contrário do que supõe Kujawski em seu deslumbramento científico/tecnológico.

Quanto ao texto da reportagem, é preciso dizer que também os louros nem sempre aparecem e o mesmo acontece com o reconhecimento dos colegas. Alfred Wegener, o pai da teoria das placas tectônicas, mecanismo que explica de sismos e vulcanismo ao nascimento de mares e dos continentes, morreu, há 70 anos, no Ártico, acusado de charlatanismo por seus colegas. E ainda este ano morreu Fred Hoyle, cosmólogo inglês que disse não esperar presenciar, em vida, a confirmação de suas previsões. Fred Hoyle foi um dos principais cientistas envolvidos com a explicação para a origem dos elementos químicos e, ao contrário de seus colegas envolvido com esta questão, ficou fora do Nobel.

Rigorosamente, os dois textos publicados pelo Estado se ressentem do que se pode chamar de analfabetismo científico. Neste caso, uma visão linear, lastreada no bom senso, ampara um pretenso juízo crítico. Se bom senso produzisse ciência, Copérnico não teria sido possível, ao menos enquanto retomada do heliocentrismo de Aristarco de Samos. Hoje tudo parece distante mas, no passado, um aristotélico, amparado no bom senso, seria imbatível. A um adepto do heliocentrismo, um aristotélico argumentaria: "O Sol, de manhã, não está baixo no Leste, ao meio-dia não está alto no céu e, no final da tarde, não está novamente baixo no horizonte Oeste?". Então, perguntaria: "Você não está vendo que é o Sol que se desloca e não a Terra?".

A substituição do testemunho dos sentidos para a representação intelectual na interpretação da natureza é um processo longe de estar devidamente compreendido, mais de 300 anos depois do início da Revolução Científica, no século 17. Para os dois textos publicados pelo Estado cabe uma constatação freqüente em ciência: parece, mas não é.

Já o índio Paru (tema de Novaes) primeiro se chamou Tapirapuã Kanato e, como fazem os moradores do Alto Xingu, legou seu nome aos netos e negociou o nome Paru com outro índio. Deu em troca alguns objetos, conta Novaes, e também providenciou um substituto para o doador: Iaí. Quem conhece os índios do Xingu, entre eles Sapaim e Takumã, o grande feiticeiro kamaiurá, sabe que ciência é algo bem mais amplo. É o renovado encontro com o desconhecido, com o que não se sabe. Caso contrário não seria ciência, mas tecnologia, para ficarmos numa posição minimamente consistente de um ponto de vista epistemológico.

Ciência é antes de tudo controvérsia, nada que lembre um movimento uniformemente acelerado ou conclusões definitivas. Neste sentido é interessante a descoberta feita na Coréia do Sul e publicada pela Folha de S.Paulo (8/11/01, pág. A 16) sob o título de "Efeito desconhecido favorece homeopatia". Dois pesquisadores sustentam que experimentos realizados demonstram que, a partir de um determinado ponto, moléculas dissolvidas em água agrupam-se, primeiro em aglomerados moleculares e, depois em grandes agregados.

Como a fusão a frio, anunciada mas não conquistada, investigações como estas podem não se confirmar, ou se revelar meros equívocos. Se confirmados, no entanto, fazem as grandes revoluções que, como escreveu Thomas Kuhn, levam à mudança de paradigmas. O problema de um certo pensamento é considerar que todos os grandes acontecimentos já se deram e, a partir de agora, basta gerenciar o que se conhece. Tanto o velho Aristóteles como o inquieto lorde Kelvin, entre uma pequena multidão de homens ligados ao conhecimento, defenderam essa posição e, em conseqüência, deram com os burros n’água, para usar uma expressão mais coloquial. Articulistas de página 2 deveriam saber disso.

Enorme confusão

No Rio de Janeiro, segundo a capa do Caderno B do Jornal do Brasil de domingo (11/11/01, pág. B1), o grande assunto é mais uma vez o pênis e as suas controvertidas dimensões. O pênis, escreve o repórter Joaquim Ferreira dos Santos, virou cult e num único quarteirão da cidade vende-se mensalmente 450 órgãos de látex, ao preço médio de 20 reais cada um. Análises otimistas, quase sempre descomprometidas com a realidade, diriam que um mercado promissor desponta por aí, com possibilidades de criar trabalho para metalúrgicos desempregados do ABC. O fato é que a direção e intensidade dos "chutes", na seletiva página 2, desesperaria mesmo um treinador calejado do futebol nacional – este, também, uma atividade em declínio por falta de engenho e arte.

Ao contrário do Rio, no Maranhão, ao menos neste momento, a preocupação maior pode envolver a base de lançamento de Alcântara. Há duas semanas o Congresso deu a versão final do tratado que está sendo negociado com os Estados Unidos. As exigências anteriores dos Estados Unidos, para o aluguel da base que fica próxima ao da linha do Equador, onde a força centrífuga da Terra é maior, foram interpretadas como inaceitáveis por especialistas na área.

O problema é que exatos 40 anos depois de deflagrar seu programa espacial o Brasil ainda não disparou seu foguete lançador. Já fez satélites com a China mas não desenvolveu um engenho complexo com tecnologia inteiramente nacional. O resultado disso é que com o centro quase concluído, não há o que lançar de lá. Ao mesmo tempo, o centro não pode ficar inativo, sob pena de perder investimentos já realizados em pessoal e equipametos. Os EUA vetam o uso de subsistemas produzidos por empresas norte-americanas em qualquer objeto a ser lançado de Alcântara, uma forma de pressionar para que as atividades espaciais brasileiras não decolem.

Com as negociações envolvendo a coalização contra o terrorismo patrocinada pelos Estados Unidos pode surgir um espaço novo nessas negociações a que a imprensa, em geral, deve informações mais claras e compreensíveis. Até agora, foi quase tudo que foi publicado é parte de uma grande confusão.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, mestre e doutorando em Ciências pela USP e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)